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DA LINGUAGEM FOLCLÓRICA

Nem sempre é fácil destacar do vocabulário de um idioma e, ainda menos, da associação dos seus elementos unitários ordenados na edificação da linguagem, máxime da oral, - o que é puramente popular em cada momento, isto é, estranho às formas clássicas, literárias e aceitas como genuínas. Se tomarmos a palavra povo com a significação restrita de as camadas pouco instruídas ou totalmente iletradas de uma comunidade, veremos que, sem embargo das limitações do seu linguajar, ele se exprime e entende a maravilhas no seu próprio meio, ainda que por vezes empreste a uma direção um sentido diametralmente oposto ao legítimo. De ordinário, o que é erro cá em cima, extravagância e até contradição, lá em baixo, na subestrutura do edifício lingüistico, circula qual moeda de lei, passada e aceita com inteira consciência do seu poder liberatório, isto é, do seu indubitável significado e prestância. Pode ser, e não raro acontece, que, do contato das camadas subjacentes com as outras intelectualmente sobrelevantes, resultem perplexidades e desentendimentos, que podem variar do efeito cômico à conseqüência trágica. E isso, obviamente, ocorre por igual nos dois sentidos, a saber: - quando o instruído se dirige ao apedeuta e quando o iletrado se endereça ao entendido. Em abonação desse asserto citaremos uns miúdos exemplos do nosso repositório, a saber:

Dirigiu-se um rústico a um proprietário e lhe pediu trabalho. Veio a inquirição usual: nome do postulante, família, procedência e, finalmente, qual fora sua última ocupação. O candidato vinha respondendo direitinho; mas aqui embatucou, de olhos arregalados. – "Seu coroné me disculpe, mas eu não entendo o que vosmincê quer dizer com isso ..." – "Ó homem, pois você não sabe onde trabalhou por derradeiro, antes de vir para aqui?..." – "Ah! Isso eu sei, inhor sim; mas as últimas que eu conheço é as da morte e eu inda estou vivo, com a graça de Deus". E deu a resposta adequada. É que na mente do jeca, formada no meio do seu povo e unicamente abeberada nas suas fontes, a palavra última ou últimas traduzia, só e só, os momentos finais do moribundo.

Andando em vilegiatura num subúrbio, o chefe de um serviço público deparou em servente de sua repartição a discutir com um mata-mouros, que o insultava e ameaçava. Pondo-se ao lado de seu auxiliar, dirigiu-se calmamente ao outro: "Que acabasse com aquilo. Não havia razão para barulho. Aquele rapaz (o seu protegido) era um indivíduo pacato e..." Não acabou a frase, porque nesse instante o seu subordinado se estomagou e protestou: - "Indivíduo, não, chefe! Vossioria não tem razão de me tratar assim. Sou um homem pobre, mas direito". Deu trabalho acertar as coisas, pois o cidadão a quem seu superior quisera amparar e defender só conhecia o sentido familiar e depreciativo do vocábulo refutado.

E agora o reverso da medalha.

Um capataz dirige-se ao patrão, que lhe mandara um artífice para determinado trabalho: - "Eu vim dizer a vossioria que aquele homem não serve: é muito amoroso, leva pra lá uma bataria de menino e derna que chegou inda não botou o bacalhau na porta". O patrão ouviu, coçou a orelha, fez que entendeu e, como estava de saída, respondeu, encurtando a conversa: - "Está bem. Daqui a pouco vou lá". E foi, para então, no local, compreender que o operário era ronceiro (amoroso, por moroso), costumava cercar-se da filharada (bataria, grande quantidade) e desde que ali estava inda não havia colocado o remendo de um porta (bacalhau). O homem lido e corrido não entendera a fala de seu preposto ignorante.

Há um infinito a explorar na extensão e profundidade desse oceano que é a linguagem do povo. O muito que tem sido estudada é uma ninharia diante dos seus filões intocados. Não pretendemos aqui sequer aflorá-los. Sua vastidão exige perspicácia e fôlego, e nem um só dos seus capítulos caberia neste lugar. Assinale-se, porém, que, como a parte espontânea e continuamente nascente desses falares das massas tem suas fontes no fundo mesmo da alma de suas categorias subjacentes, donde irrompem por força da inelutável necessidade de exprimir-se e fazer-se compreender, - tal linguagem, muitas vezes trôpega e claudicante em relação à gramática oficial, é não só prestadia e necessária, como também colorida, pitoresca e vivaz. Tais qualidades ressaem e se distingüem quando o vocábulo, o conceito, a frase feita se engastam num adágio, numa sentença, numa estrofe. E então surgem, por vezes reunidas e completando-se num produto rico em sutileza, malícia e profundidade, as revelações fundamentais do Id da gens anônima, que fazem a obra essencialmente folclórica: inspiração borbulhante e incontida e forma original e inconfundível. Enquanto aquela reponta incoercível, sincronicamente se lhe oferecem os necessários elementos léxicos, prosódicos ou sintáticos, adaptados, ampliados ou inventados como se adrede o fossem, que não humildemente e sem consciência do ato realizado. Ora é o simples recurso morfológico a um componente protético, com o qual se constrói um vocábulo novo (desavessar – virar pelo direito) ou se reforça uma negativa, embora em aparente contradição com a própria idéia (desimpaciência, descontratempo); ora é a ação sematológica de ampliar o sentido de uma palavra preexistente sem atentar contra sua forma (igual – equivalente, na linha média; desigual – birrento, amigo de contrariar); ora ainda a desfiguração, a corruptela de outra, por outorgar-lhe uma função nova, ainda que justificável (tabalião – indivíduo bem falante, que sabe muitas coisas, que está sempre escrevendo). Além desses, não faltam ao homem do povo outros expedientes para exprimir suas idéias, por certo limitadas às condições do seu meio, de sua vida, do rudimentarismo de sua instrução, se de alguma dispõe. Nãos se acomodam dissertações na estreitura dessas páginas; mas, por igual, não serão sobressalentes alguns ditos de acréscimo, resumidamente comentados.

Premido pela necessidade de transmitir seu pensamento vivo; desejoso de variar e de ser eloqüente e persuasivo, mas apertado entre sua insciência e a pequenez de seu vocabulário, como procede o ignorante?

1º - Toma de uma palavra correntia, simples ou composta e, sem atentar contra sua integridade lexiológica, lhe atribui uma analogia putativa e lhe dá um sentido novo. A partir daí: FUMO, coisa escura, sobretudo o de corda, é cognome do homem preto; HORÁRIO significa o ônibus ou outro carro coletivo que parte da cidade em hora certa; APONTADOR por ser, entre outras coisas, "o que faz pontaria", passa a traduzir lançarote; sendo CACIMBEIRO o construtor de cacimbas, será igualmente o cilindro oco de argila cozida que as conforma ou suporta; CHARADA é a indireta, a alusão ferina, de sentido dúbio; se, por haver perdido a mastreação, fica o navio à toa, sem rumo, chama-se DESMASTREADA à coisa desmantelada, à pessoa de pouco siso. É a analogia, a metonímia em plena função.

2º - Recorre, ainda sem deformá-las, à justaposição de palavras, que passarão a ter nova serventia. E eis que – BANCO DE BATER ROUPA é a pessoa em que todos descarregam sua ira, a vítima de injustiças e falatórios; CABEÇA DE CARNEIRO é uma pedra calcária dos arrecifes costeiros, cuja conformação lembra aquilo que lhe dá o nome, como TESTA DE BODE denomina a casa de meiágua cuja parte exterior traz uma anteparo inclinado que dá ao todo o aspecto da cabeça de caprino; PATA CHOCA é a fêmea do guaiamu na época da desova e CHIFRE DE CABRA ("que não serve nem para tabaqueiro") traduz a pessoa imprestável, egoísta.

3º - Socorre-se de afixos correntios e com eles, por derivação, cria um vocábulo prestadio ou modifica o sentido de outro já existente, sem, todavia, deturpar sua feição. Assim, de cangulo faz CANGULEIRO, o morador da Pajuçara, porque o "peixe-porco" é abundante na praia desse bairro marítimo de Maceió; CRISANTO nada tem com o personativo homógrafo, mas nomeia ou qualifica a pessoa muito pobre (Der. de crise, mais o sufixo ant, mais a desinência adequada); DESAVESSAR é virar uma roupa, etc. pelo direito; PRAISTA substitui absolutamente praieiro e praiano; de coisa, faz o verbo ativo COISAR, que exprime a ação física momentaneamente indefinida, sendo por isso quase só usado nas orações interrogativas e raro com a primeira pessoa: - "Menino, que é que você está coisando aí?" – Que faz você?, etc.

4º - Corrompe, modifica, deturpa o vocábulo, desloca ou suprime seus elementos, traz-lhe achegas de reforço ou de enfraquecimento, etc. Para dizer lealdade, jamais pronunciada talqualmente pelo vulgo, a palavra usada, por mais comum, é a parônima realidade, mas amputada de sua vogal medial, o que a transforma, afinal, em REALDADE. O caso pode explicar-se variamente: contam nação, confusão ou transferência de sentido, rotacismo, etc. Nosso pequeno e conhecido abutre, o urubu é para todos os efeitos ARIBU, talvez porque o fonema "A", fundamental e primitivo, aquele que primeiro as crianças proferem nos seus ensaios vocais, seja o de mais fácil enunciação. Alterado assim o nome primitivo, logo se deriva do seu flanco o adjetivo ARIBUZADO, que significa – mal feito de corpo, de ombros caídos, passo gigante, tal qual o repugnante vulturídeo. Se ÁGUIA, por metonímia, é o sujeito esperto, manhoso, AGUISMO é a qualidade que o caracteriza.

5º - Cria por inteiro a palavra de que precisa para nomear um ser ou coisa real ou imaginária, para qualificar algo que já existe, para mostrar uma ação ou estado e assim por diante. Se raro é possível, salvo quanto às onomatopéias, atinar com a origem, a causa geratriz, o étimo, a raiz de tais criações, nem por isso perdem elas seu sentido e seu préstimo. E daí, os seguintes e muitos outros: - PATARRONA – ave aquática, espécie de marreco; CATENGA - o mesmo que lagartixa; FRIVIOCO – ânus; BIGODA – ente fictício que mete medo às crianças; CELEBRO – falta de comedimento no falar, no exprimir-se, gesticulação exagerada, com seu derivado CELEBROSO; BULUTRICA – coisa complicada, pouco compreensível e, quando no plural – miudezas, ornamentos excessivos; ABUFELAR- agarrar, tolher, segurar; ENCARRAMUADO, deverbal de ENCARRAMUAR – fazer-se carrancudo, carregar o semblante, tornar-se (o tempo) nublado, ameaçador. No adjetivo talvez se possa descobrir um forma contrata da locução – de cara amuada, com a epêntese de um R sonoro; BARATINAR, verbo intransitivo, é perder a direção, atrapalhar-se no trânsito, o automóvel ou o pedestre.

6º - Apanha no ar o termo estrangeiro, ouvido no serviço ou alhures, amolda-o às suas necessidades e passa a usá-lo com o sentido original ou modificado. Assim, big, big one, sleeper deram, sem adulteração intrínseca, BIGUE, BIGUANE, SULIPA, variante CHULIPA (só recentemente começou a popularizar-se a tradução dormente); God dam passou a GODEME, soco, bofetada, e tramcar produziu TRANCAIO – volume que atravanca ou dificulta os movimentos em casa ou na rua. Inadvertidamente poderá ser tomado como corruptela do lusismo trancalho, com o qual, entretanto, não tem afinidade.

Muito mais variados e extensos do que esses são os meios e moldes de que as classes culturalmente inferiores se socorrem para a transmissão de suas idéias, seus pensamentos, seus desejos. Facilmente nos percebemos no terreno das comparações, das locuções, dos epítetos, onde ao acaso se nos deparam: - ADEUS DE MÃO FECHADA – certo gesto obsceno; LEVANTAR O PANETE – arribar, retirar-se, ir para lugar ignorado; BOTAR SAL NA MOLEIRA – proceder mal para com outrem, desagradecer o benefício; CHAMA DE CADEIA ou PEDAÇO DE MAU CAMINHO – sujeito arruaceiro, provocador, capaz de desviar os companheiros e mete-los em maus lençóis.

Com essa arte, com esse engenho, com essa capacidade inventiva, com esse talento agudo que, tocado de estímulos interiores ou exógenos, explui centelhas como o aço arranca fagulhas da pederneira – vai nosso povo criando e aperfeiçoando a linguagem sobre que fundamenta e constrói as mais lindas manifestações orais do folclore indígena.


(SANTIAGO, Paulino. Boletim Alagoano de folclore)

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