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O CAFUNÉ

Uma porta à nossa frente servia de comunicação entre o salão e uma peça mais retirada. Por ela, entreaberta, percebemos, ao entrar, uma dezena de negras ocupadas a bordar. No meio delas achavam-se duas senhoras estendidas sobre esteiras, tendo a cabeça apoiada sobre os joelhos das mulatas, suas mucamas, por certo. A porta fechou-se, ao penetrarmos no salão. Ainda tivemos tempo de contemplar esse quadro singular dos costumes brasileiros.

As duas senhoras, mal vestidas, os cabelos em desordem, indolentemente deitadas, eram a mulher e a filha do senhor Pedregulho. Entregavam-se de corpo e alma, naquele instante, ao enlevo tropical que se chama cafuné.

Sempre se falou da indolência das crioulas e do seu amor pelo farniente. Suas paixões ardentes serviram de assunto a bons romances realistas e interessantes estudos. Nenhum escritor, que eu saiba, assinalou a voluptuosidade estranha que nelas encontram na prática do cafuné.

Que é o cafuné?

Não é fácil traduzir esta palavra e dar uma idéia clara e nítida do seu valor às damas européias. Queira a leitora lembrar-se de que estamos nos trópicos e que visita comigo uma sociedade onde os usos e os costumes diferem essencialmente dos nossos. Reflita também na inferioridade do sexo nessas regiões, na ignorância que o corrompe e no papel puramente material que lhe é destinado no seio das famílias.

O cafuné é, para as senhoras brasileiras, o que é o banho para as mulheres submetidas ao despotismo oriental: uma distração e um prazer.

À hora do calor, quando o mover-se ou mesmo o falar é uma fadiga, as senhoras, recolhidas ao interior dos aposentos, deitam-se ao colo da mucama favorita, entregando-lhe a cabeça. A mucama passa e repassa os seus dedos indolentes na espessa cabeleira que se desenrola diante dela. Mexe em todos os sentidos naquela luxuriante meada de seda. Coça delicadamente a raiz dos cabelos, beliscando a pele com habilidade e fazendo ouvir, de tempos a tempos, um estalido seco entre a unha do polegar e a do dedo médio. Esta sensação torna-se uma fonte de prazer para o sensualismo das crioulas. Um voluptuoso arrepio percorre os seus membros ao contato dos dedos acariciadores. Invadidas, vencidas pelo fluido que se espalha em todo o seu corpo, algumas sucumbem à deliciosa sensação e desfalecem de prazer sobre os joelhos da mucama.

É a isto que se chama cafuné, ou coçar a cabeça, o que oferece uma infinita atração às preguiçosas senhoras. São, sobretudo, as mulheres pertencentes às classes inferiores que nutrem um gosto apurado por este esquisito entretenimento. Elas pensam que isto lhes facilita a digestão, porque o fazem ordinariamente depois das refeições. A boa sociedade, particularmente a do Rio de Janeiro, mais afeita às idéias européias, embora não renuncie ao cafuné, não o pratica senão às escondidas, longe de olhares importunos. Nas províncias, nas fazendas, são menos escrupulosos. Lá, na ocasião das solenidades religiosas ou nacionais que servem de motivo aos banquetes e às festas, que duram muitas vezes vários dias a seguir, não é raro ver-se uma meia dúzia de senhoras recostarem-se negligentemente aos espaldares das cadeiras, entregando a cabeça a uma jovem escrava, enquanto a conversa prossegue o seu curso.

Se se acreditasse nas más línguas, algumas damas tinham razões mais poderosas para cultivar assiduamente o cafuné do que o desejo de uma doce superexcitação dos nervos, seguida de um estado de prostração que chega ao êxtase. Repugna-me, porém, aceitar esta idéia infamante e enfraquecer, por uma suspeita injuriosa, a admiração que provocam os reflexos azulados da opulenta cabeleira negra das brasileiras.

Chamaram-me uma vez de inimigo do Brasil, e dou-me por bem prevenido.

Não posso, porém, deixar de afirmar que o cafuné tem seus partidários entusiastas como, entre nós, o baile e o teatro. Atinge mesmo as raias de verdadeira ciência, e conta professores eméritos. Todas as mucamas são obrigadas a fazer uma longa aprendizagem antes de penetrarem na intimidade das senhoras. Mas logo que se lhes reconhece a habilidade, elas nunca mais a dispensam.

Prefeririam renunciar ao cheiro acre da alfazema que se queima em seus aposentos – horrendum! – aos pequenos bolos apimentados, aos olhares nas igrejas, às piruetas de seus sagüis, em favor das delícias de uma sesta embalada pelo cafuné.

Mesmo os homens não desdenham, durante as horas de lazer, a carícia de uns dedos ágeis, afagando as suas cabeleiras. Um delicioso arrepio corre-lhes pelo corpo, cada vez que sentem o ruído significativo das unhas da mucama, a que acima me referi.

Poderei citar um senhor casado com uma mulher pequenina, graciosa, espiritual e delicada, quanto possível. Sem ser bonita, tinha tudo para agradar, e ainda mais, amava seu marido. Pois bem. Este desgraçado abandonava a sua gentil companheira e sacrificava-se por uma negra medonha, que exalava um cheiro abominável de almíscar e de catinga, simplesmente por ser a escrava que melhor lhe fazia o cafuné.

Imaginem um esposo desses para uma européia!

[meados do século XIX]

(Expilly, Charles. Mulheres e costumes do Brasil)


Acre – De aroma forte, áspero, seco.

Despotismo – Autoridade de déspota, poder absoluto e arbitrário. Tirania.

Indolência – Apatia; Desleixo.

Opulenta – Farta, abundante.

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