Um dos atrativos mais sedutores para os
turistas do Sul, nas viagens ao longo da costa do Brasil, de Alagoas ao Ceará,
especialmente os turistas do sexo feminino, foram sempre as chamadas rendas do Norte,
essas caprichosas e lindíssimas rendas de almofada, lavradas em arabescos e
florões duma graça específica, num fio de inverosssímil sutileza e do mais delicioso
sentido ornamental, vendidas nos mercados típicos e constituindo uma das indústrias mais
características da região.
Toda a minha meninice passada nas areias do Meireles e do Mucuripe foi povoada pela visão
das rendeirinhas da minha terra, em cujas mãos diligentes como aranhas morenas eu
via, encantado, florir toda essa admirável criação de linhas leves como espuma, que
depois iriam levar a todos os recantos do país a graça e o engenho de sua arte anônima.
Daí a ternura com que sempre considerei esses lavores de apurada perícia que
veria, tantos anos depois, reproduzidos igualmente nas vitrinas de Brugues, de Haia e de
Malines; daí também o encantamento com que sempre me boliu no ouvido a memória da
cristalina música dos bilros ouvida na infância e que o poeta baiano Artur de Sales
celebraria um dia nesta sonora evocação:
Sobre a cadeira, a um canto, a almofada de renda
E donAna, sentada, a fina teia branca
Entece, os bilros troca, este alfinete arranca,
Torce outro bilro mais, por que a linha se estenda
Saltitando, febris, brincalhões, tatalantes,
Os bilros vão e vêm, entre os dedos ligeiros,
Ora em molhos aqui ficam prisioneiros
Ora descem cruzando os seus fios brilhantes
.
Da luz desta manhã os finos estiletes
Através de uma fresta aberta no telhado
Descem, luzem por sobre o meandro complicado:
São alfinetes de ouro entre esses alfinetes
Pelo beiral da casa há gorjeios e chilros
Anda a manhã lá fora esplêndida e luzente
E na sala pequena a música somente
Do trépido estalar treplicante dos bilros
Também Mário Sete, na sua novela Clarinha das Rendas, a mesma que Olavo Bilac,
pouco antes de morrer, pedia à irmã que lhe lesse, fixa em traços comovidos uma dessas
artistas humildes do Nordeste, cuja fama ultrapassa muita vez os limites do burgo pobre:
"As suas rendas eram o encanto das redondezas: - famílias invernando ou de passeio
na cidade, vinham-lhe ao casebre, pelas manhãs, com o sol morno, ou à tardinha, com a
sombra doce das serras, ver e cobiçar os lindos desenhos arabescados pela linha alva do
dorso do risco. Os enxovais das noivas davam preferência às rendas de Clarinha para as
custosas camisas de dia, as finíssimas calças de cambraia de seda, os roupões esbeltos
de largas mangas. Era um dom dos seus dedos: - de uma feita recebera encomenda do Pará,
mocinha pernambucana que se ia casar, e a rapariga matuta achou graça em ser conhecida
nesse lugar longínqüo, que nem sabia bem para que lado do mundo ficava
"
A renda é, como não poderia deixar de ser, uma profissão essencialmente feminina e
sobretudo familiar. Enquanto o pai, o marido ou o namorado se entrega às labutas da
terra, no roçado, no campeio das reses tresmalhadas ou, como é mais freqüente, nas
longas pescarias de alto mar, as mulheres, ao cabo da grei masculina, entregam-se
confiadamente à diligente tarefa que lhes permite uma modesta ajuda ao orçamento
doméstico ou, na mais feliz das hipóteses, como no caso da Clarinha, de Mário Sete, o
preparo da prensa mais linda do próprio enxoval a ser mostrada diariamente ao noivo, num
requinte de inocente vaidade "renda que era laço a avizinhá-los, dia a dia,
das núpcias visionadas".
Não há idade, contudo, para os trabalhos da almofada. Tanto se vê curvada sobre os
bilros estalidantes a velhinha de óculos pendurados na ponta do nariz, como a caboclinha
mal saída da infância, e em cuja cabeça leve de penas os sonhos se desenrolam como as
fieiras de traças e de tranças que os seus dedos ágeis vão compondo na
brancura das linhas, ao longo do curso do papelão.
Como diz o alagoano Leite Oiticica, num ensaio sobre esse produto nordestino, "a
atenção rigorosa exigida pelo trabalho obriga a rendeira a não distrair o cuidado no
desenho e assim não há melhor meio de dominar o espírito de fantasia das moçoilas.
Não há que lastimar as pobrezinhas ficarem tanto tempo com a atenção presa à almofada
e a dança dos bilros no mesmo lugar, em constante vai-e-vem, como a pêndula de um
relógio; com a prática, aprendem essa operação difícil da divisão da atenção e,
enquanto trabalham, o espírito sai a vaguear por este mundo além, a pensar no rapazelho
tão elegante, tão engraçado que vem, como quem não quer nada, dar dois dedos de prosa
inocente no terreiro de casa".
Quase nada se exige para a confecção do delicioso ornato. "Uma almofada, uma tira
de papelão com o desenho da renda, um punhado de alfinetes, linha de carretel ou de
novelo, mechas de fio de seda, dois espinhos de mandacaru ou alfinetes compridos, e está
assentada a tenda para o fabrico da renda, que não precisa de cavalete para assento da
almofada nem de cadeira para assento da fabricante. Uma esteira no chão, a rendeira de
pernas estiradas, a almofada entre as pernas e o aparelho está armado".
Em geral a rendeira procura colocar-se diante da porta da casinha de taipa ou de palha, ao
ar livre, para que a luz caia em abundância sobre a almofada. Sendo as casas, de regra,
à beira da estrada, a poeira dos caminhos naturalmente contribui para escurecer o fio,
encardindo a renda. Vem daí que a zona das melhores rendas é justamente a das praias, a
brancura das areias não prejudica a manufatura do artigo, sendo ponto de orgulho mesmo da
rendeira, não só a perfeição do trançado, como a alvura realmente deslumbrante em
certos casos da teia de aranha de nova espécie que lhe sai das mãos. Por isso, como nota
Araújo Viana, em trabalho famoso sobre as nossas artes plásticas, "as rendas do
Norte mais apreciadas chamam de renda do mar ou da praia, isto é, as
tecidas no litoral". O capricho, porém, no trocar dos bilros e o zelo na
preservação do trabalho fazem com que, muita vez, não se possa distingüir o trabalho
do sertão das que são feitas à beira-mar.
A almofada é um saco cilíndrico cheio de folhas secas de bananeiras ou de capim. Sobre
ela coloca-se o papelão ou pique, bem seguro nos cantos e aderente à almofada por
meio de alfinetes compridos ou espinhos de mandacaru. O papelão é preparado
antecipadamente, no modelo da renda escolhida, com os furos correspondentes aos encontros
das linhas, e o desenho do traço de seda ou de cordão, reforçado a tinta. A
linha varia conforme a renda e a perícia da rendeira, indo desde o número 60 da antiga
linha inglesa ao número 150, que só se consegue trabalhado por um requinte de operária.
O mais importante "o modo de trocar os bilros para formar o fio, a agilidade
em os mudar de mão, estalando ao perpassar a linha de uma sobre a outra como diz o
mesmo Oiticica é que se não pode descrever. Só a própria rendeira poderá
praticamente demonstrar ao curioso como separar os espaços, acompanhando o desenho, sem
esticar demais para não quebrar a linha e como a arte impõe a singularidade de bater os
bilros um no outro. As rendeiras do Nordeste brasileiro dão-se também ao luxo de
ostentar ciência na nomenclatura das rendas de almofada, dando nome a cada uma delas,
conforme os desenhos que formam.
Essa nomenclatura é mesmo bem vasta. Como acontece toda vez que a fantasia e o arbítrio
do povo têm a iniciativa, algumas dessas denominações têm uma especialidade
admirável, pela justeza da evocação, o que não impede que outras sejam perfeitamente
arbitrárias, mas sempre dum grande pitoresco, como as das informações ou pedras
satélites do diamante, dadas pelos garimpeiros.
Às rendas se deve anexar outro gênero de ornato igualmente manufaturado pelas mulheres
nordestinas, o labirinto. Peitos de camisa, lenços, barras de saia, frentes de casaco,
fronhas e coberturas para sombrinhas, centros de mesa, belíssimas toalhas de chá ou
grandes colchas, tudo se faz de labirinto, desfiando o tecido e tecendo-o de novo à
agulha, em grades retangulares ou quadradas, constituindo esses trabalhos muitas vezes
verdadeiras obras primas de beleza e acabamento. As rendas variam ainda imensamente de
tipos, duma complicada e minuciosa confecção que requer da rendeira não somente olho
atento e arguto, como uma sensibilidade artística apurada e caprichosa.
O rudimentarismo de meios utilizados por essas peritas operárias constitui, no entanto,
um dos fatores mais surpreendentes da indústria; quem quer que tenha tido contato com a
vida das nossas populações nordestinas sabe muito bem que as mais belas rendas são
obras muita vez de rudes caboclas analfabetas, para as quais parece nula toda noção de
estética, e em cujas mãos, sem embargo, os novelos e os carros de linha florescem
em tramas de lúcidos desenhos, duma pureza de talhe e duma distribuição tão
meticulosamente exata na sua fantasia que valem como verdadeiro milagre de vocações
intuitivas e de talentos em potencial.
Há mesmo a citar aqui e ali o exemplo de alguma delas, como certa moça duma família de
rendeiras de Mucuripe, que positivamente me assombrou, um dia, ao mostrar como sabia projetar
numa escala dez vezes maior um cacho de rosas aproveitado de velha revista francesa de
trabalhos manuais, para ornar uma toalha de mesa de sutilíssimo recorte.
Em geral, porém, o ofício se transmite pela tradição, por assim dizer, manual, de
mães a filhas, repetindo-se desse modo, à maioria das vezes, invariavelmente, os
desenhos e os pontos, vindos desde os primitivos tempos colonizadores, portugueses e
holandeses, dos quais herdaram a arte. Nem mais é possível decerto exigir-se de tais
obreiras, quando, ao contrário, muito há que louvar no cultivo de semelhante tradição,
de resultados, quanta vez perfeitos.
No particular, como exceção justamente, lembro apenas o trabalho de minha tia Elvira
Demarteau que durante anos distribuía por duzentas rendeiras os papelões por ela mesma
preparados, em papel Bristol, rigorosamente geométricos e de impecável desenho, de que
havia em nossa casa uma coleção preciosa, na única demonstração desse gênero de que
há notícia no Ceará, sabido que são as rendeiras que preparam a olho, grosseiramente,
os seus papelões, com o recurso único de velhos retalhos de rendas tradicionais.
Trabalho, pois, de pioneira, de que lhe cabe a palma, em setor artístico de tanta monta
em nossa terra.
Produto da orla marítima por excelência, como vimos, as origens remotas da renda,
segundo nos ensina Ch. Mague, num livro curioso e sugestivo, Les dentelles anciennes,
vêm realmente do mar.
Já vimos como ela se divide, dum modo geral, em renda de almofada e em trabalhos de
agulha. Daí duas lendas deliciosas, uma de Veneza e outra de Flandres, sobre a invenção
desses lindos ornatos femininos.
Conta-se em Veneza que certo pescador, partindo para um longo cruzeiro nos mares
orientais, teria, antes do embarque, presenteado a noiva com um ramo de coral
delicadamente recortado. Para preencher o vazio dos dias de ausência, a rapariga teve a
idéia de imitar, com a agulha, a preciosa lembrança; mas o crivo era tão complexo, tão
múltiplos os ramos, que seria loucura pretender copiá-lo por meio do bordado. Foi então
que a moça teve a idéia de fazer a mão a teia e o desenho. O amor desenvolveu-lhe o
gênio e assim nasceu a renda.
A lenda flamenga é em torno duma alga. A bordadora é de Antuérpia. O noivo partiu para
longe, deixando-lhe também de lembrança uma erva marinha estranhamente recortada. Os
dias de ausência sucedem-se; o bem amado não regressa. Para encher as horas, a rapariga
põe-se a copiar à agulha, sem outro desenho e sem tecido de suporte, a alga maravilhosa.
Se a obra der resultado e o jovem marujo voltar dos países longínquos por onde anda, a
moça, em agradecimento a tais favores, renunciará ao casamento e se consagrará à
Virgem. O trabalho termina com perfeição; o noivo regressa. A moça será fiel a seu
voto; mas, no dia da chegada daquele a quem ama, vai, com os olhos cheios de lágrimas e o
coração despedaçado, levar ao altar da Virgem da igreja próxima a obra maravilhosa,
devida à sua arte, à sua paciência e à sua piedade. Põe sobre o altar a alga de
renda, mas, eis que, em lugar do bordado, desenham-se em caracteres de fogo as palavras
libertadoras: "Eu te desobrigo do teu voto". E a jovem, casando com o feliz
marujo, adquire desde esse dia, em toda a Flandres, a fama de ter imaginado e criado os
ornatos encantadores que em breve serão disputados pelas damas elegantes em coquetéis.
Daí que não se estranhe nas rendas, que saem também das mãos tantas vezes trêmulas de
amor e de esperança das nossas praieiras nordestinas, a consistência de espuma da sua
trama e a música dos bilros a que não é alheia a cadência da onda.
(LIMA, Herman. Imagens do Ceará) |

Arabescos Ornato de origem árabe, no
qual se entrelaçam linhas, ramagens, flores, etc.Arguto
Perspicaz, de espírito vivo, engenhoso, sutil.
Bilro Peça de madeira ou metal
semelhante ao fuso, usada para fazer rendas.
Diligente Zeloso, aplicado.
Grei Nação, povo; O conjunto dos
paroquianos ou diocesanos.
Lavores Trabalhos.
Tatalante Tatalar; Produzir som
semelhante ao entrechocar de ossos; Produzir rumor, rumorejar. |