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PEQUENAS PROFISSÕES
O cigano aproximou-se do catraieiro. No
céu, muito azul, o sol derramava toda a sua luz dourada. Do cais via-se para os lados do
mar, cortado de lanchas, de velas brancas, o desenho multiforme das ilhas verdejantes, dos
navios, das fortalezas. Pelos boulevards sucessivos que vão dar ao cais, a vida
tumultuária da cidade vibrava num rumor de apoteose, e era ainda mais intensa, mais
brutal, mais gritada, naquele trecho do Mercado, naquele pedaço da rampa, viscoso de
imundícies e de vícios. O cigano, de fraque e chapéu mole, já falara a dois
carroceiros moços e fortes, já se animara a entrar numa taberna de freguesia retumbante.
Agora, pelos seus gestos duros, pelo brilho do olhar, bem se percebia que o catraieiro
seria a vítima, a vítima definitiva, que ele talvez procurasse desde manhã, como um
milhafre esfomeado.
Eduardo e eu caminhamos para a rampa, na aragem fina da tarde que se embebia de todos
aqueles cheiros de maresia, de gordura, de aves presas, de verduras. O catraieiro batia
negativamente com a cabeça.
- Uma calça, apenas uma, em muito bom estado.
- Mas eu não quero.
- Ninguém lhe vende mais barato, palavra de honra. E a fazenda? Veja a fazenda.
Desenrolou com cuidado um embrulho de jornal. De dentro surgiu um pedaço de calça cor de
castanha.
- Para o serviço! Dois mil réis, só dois!... Eu tenho família, mãe, esposa, quatro
filhos menores. Ainda não comi hoje! Olhe, tenho aqui uns anéis... não gosta de anéis?
O catraieiro ficara, sem saber como, com o embrulho das calças, e o seu gesto fraco de
negativa bem anunciava que iria ficar também com um dos anéis. O cigano desabotoara o
fraque, cheio de súbito receio.
- É um anel de ouro que eu achei, ouro legítimo. Vendo barato: oito mil réis apenas.
Tudo dez mil réis, conta redonda!
O catraieiro sorria, o cigano era presa de uma agitação estranha, agarrando a vítima
pelo braço, pela camisa, dando pulos, para lhe cochichar ao ouvido palavras de maior
tentação; ninguém naquele perpétuo tumulto, ninguém no rumor do estômago da cidade,
olhava sequer para o negócio desesperado de cigano. Eduardo, que nessa tarde passeava
comigo, arrastou-me pelo ex-largo do Paço, costeando o cais até a velha estação das
barcas.
- Admiraste aquele negociante ambulante?
- Admirei um refinado "vigarista"...
- Oh! meu amigo, a moral é uma questão de ponto de vista. Aquele cigano faz parte de um
exército de infelizes, a que as condições da vida ou do próprio temperamento, a
fatalidade, enfim, arrasta muita gente. Lembras-te de La Romera de Santiago, de
Velez de Guevara? Há lá uns versos que bem exprimem o que são essas criaturas:
Estos son algunos hombres
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediaria
Saliendose a los caminos...
É quanto basta como moral. Não sejamos excessivos para os humildes.
O Rio tem também as suas pequenas profissões exóticas, produto da miséria ligada às
fábricas importantes, aos adelos, ao baixo comércio; o Rio, como todas as grandes
cidades, esmiúça no próprio monturo a vida dos desgraçados. Aquelas calças do cigano,
deram-lhas ou apanhou-as ele no monturo, mas como o cigano não faz outra cousa na vida
senão vender calças velhas e anéis de plaquet, aí tens tu uma profissão da
miséria, ou se quizeres, da malandrice que é sempre a pior das misérias. Muito
pobre diabo por aí pelas praças parece sem ofício, sem ocupação. Entretanto,
coitados! o oficio, as ocupações, não lhes faltam, e honestos, trabalhosos, inglórios,
exigindo o faro dos cães e a argúcia dos reporters.
Todos esses pobres seres vivos tristes vivem do cisco, do que cai na sarjetas, dos
ratos, dos magros gatos dos telhados, são os heróis da utilidade, os que apanham o
inútil para viver, os inconscientes aplicadores à vida das cidades daquele axioma de
Lavosier: nada se perde na natureza. A polícia não os prende, e, na boemia das ruas, os
desgraçados são ainda explorados pelos adelos, pelos ferros-velhos, pelos proprietários
das fábricas...
- As pequenas profissões!.... É curioso!
As profissões ignoradas. Decerto não conheces dos trapeiros sabidos, os apanha-rótulos,
os selistas, os caçadores, as ledoras de buena dicha. Se não fossem o nosso
horror, a Diretoria de Higiene e as blagues da revistas de ano, nem os ratoeiros
seriam conhecidos.
- Mas, senhor Deus! é uma infinidade, uma infinidade de profissões sem academia! Até
parece que não estamos no Rio de Janeiro....
- Coitados! Andam todos na dolorosa academia da miséria, e, vê tu, até nisso há
vocações! Os trapeiros, por exemplo, dividem-se em duas especialidades a dos
trapos limpos e a de todos os trapos. Ainda há os cursos suplementares dos apanhadores de
papéis, de cavacos e de chumbo. Alguns envergonham-se de contar a existência esforçada.
Outros abundam em pormenores e são um mundo de velhos desiludidos, de mulheres gastas, de
garotos e de crianças, filhos de família, que saem, por ordem dos pais, com um saco às
costas, para cavar a vida nas horas da limpeza das ruas.
De todas essas pequenas profissões a mais rara e a mais parisiense é a dos caçadores,
que formam o sindicato das goteiras e dos jardins. São os apanhadores de gatos para matar
e levar aos restaurantes, já sem pele, onde passam por coelho. Cada gato vale dez
tostões no máximo. Uma só das costelas que os fregueses rendosos trincam, à noite, nas
salas iluminadas dos hotéis, vale muito mais. As outras profissões são comuns. Os
trapeiros existem desde que nós possuímos fábricas de papel e fábricas de móveis. Os
primeiros apanham trapos, todos os trapos encontrados na rua, remexem o lixo, arrancam da
poeira e do esterco os pedaços de pano, que serão em pouco alvo papel; os outros têm o
serviço mais especial de procurar panos limpos, trapos em perfeito estado, para vender
aos lustradores das fábricas de móveis. As grandes casas desse gênero compram em
porção a traparia limpa. A uns não prejudica a intempérie, aos segundos a chuva causa
prejuízos enormes. Imagina essa pobre gente, quando chove, quando não há sol, com o
céu aberto em cataratas e, em cada rua, uma inundação!
- Falaste, entretanto, dos sabidos?
- Ah! os sabidos dedicam-se a pesquisar nos montes de cisco as botas e os sapatos velhos,
e batem-se por duas botas iguais com fúria, porque em geral só se encontra uma
desirmanada. Esses infelizes têm preço fixo para o trabalho, uma tarifa geral combinada
entre os compradores, os italianos remendões. Um par de botas, por exemplo, custa 400
réis, um par de sapatos 200 réis. As classes pobres preferem as botas aos sapatos. Uma
bota só, porém, não se vende por mais de 100 réis.
- Mas é bem pago!
- Bem pago? Os italianos vendem as botas, depois de consertadas, por seis e sete mil
réis! É o mesmo que acontece aos molambeiros ambulantes como o cigano que acabamos de
ver os belchiores compram as roupas para vendê-las com quatrocentos por cento de
lucro. Há ainda os selistas e os ratoeiros. Os selistas não são os mais
esquadrinhadores, os agentes sem lucro do desfalque para o cofre público e da
falsificação para o burguês incauto. Passam o dia perto das charutarias pesquisando as
sajertas e as calçadas à cata de selos de maços de cigarros e selos com anéis e os
rótulos de charutos. Um cento de selos em perfeito estado vende-se por 200 réis. Os das
carteiras de cigarros têm mais um tostão. Os anéis dos charutos servem para vender uma
marca por outra nas charutarias e são pagos cem por 200 réis. Imaginas uns selistas à
cata de selos intactos das carteirinhas e dos charutos; avalia em 5% os selos perfeitos de
todos os maços de cigarros e de todos os charutos comprados neste país de fumantes; e
calcula, após este pequeno trabalho de estatística, em quanto é fraudada a fazenda
nacional diariamente só por uma das pequenas profissões ignoradas...
- Gente pobre a morrer de fome, coitados...
- Oh! não. O pessoal que se dedica ao ofício não se compõe apenas do doloroso bando de
pés descalços, da agonia risonha dos pequenos mendigos. Trabalham também na profissão
os malandros de gravata e de roupa alheia, cuja vida passa em parte nos botequins e à
porta das charutarias.
- E é rendoso?
- Rendoso, propriamente, não; mas os selistas contam com o natural sentimento de todos os
seres que, em vez de romper, preferem retirar o selo do charuto e rasgar a parte selada
das carteirinhas sem estragar o selo.
- Mas e os anéis dos charutos?
- Oh! isso então é de primeiríssima. Os selistas têm lugar certo para vender os
rótulos dos charutos Bismarck em Niterói, na travessa do Senado. Há
casas que passam caixas e caixas de charutos que nunca foram dessa marca. A mais nova,
porém, dessas profissões, que saltam dos ralos, dos buracos, do cisco da grande cidade,
é a dos ratoeiros, o agente de ratos, o entreposto entre as ratoeiras das estalagens e a
Diretoria de Saúde. Ratoeiro não é um cavador é um negociante. Passeia pela
Gamboa, pelas estalagens da Cidade Nova, pelos cortiços e bibocas da parte velha da urbs,
vai até ao subúrbio, tocando um cornetinha com a lata na mão. Quando está muito
cansado, senta-se na calçada e espera tranqüilamente a freguesia, soprando de espaço a
espaço o cornetim.
Não espera muito. Das rótulas há quem os chame; à porta das estalagens afluem mulheres
e crianças.
- Ó ratoeiro, aqui tem dez ratos!
- Quanto quer?
- Meia pataca.
- Até logo!
- Mas, ó diabo, olhe que você recebe mais do que isso por um só lá na Higiene.
- E o meu trabalho?
- Uma figa! Eu cá não vou na história de micróbio no pêlo do rato.
- Nem eu. Dou dez tostões por tudo. Serve?
- Heim?
- Serve?
- Rua!
- Mais fica!
E quando o ratoeiro volta, traz o seu dia fartamente ganho...
Tínhamos parado à esquina da rua Fresca. A vida redobrava aí de intensidade, não de
trabalho, mas de deboche.
Nos botequins, fonógrafos roufenhos esganiçavam canções picarescas; numa taberna
escura com turcos e fuzileiros navais, dois violões e um cavaquinho repinicavam. Pelas
calçadas, paradas às esquinas, à beira do quiosque, meretrizes de galho de arruda
atrás da orelha e chinelinho na ponta do pé, carregadores espapaçados, rapazes de
camisa de meia e calça branca bombacha com o corpo flexível dos birbantes, marinheiros,
bombeiros, túnicas vermelhas e fuzileiros uma confusão, uma mistura de cores, de
tipos, de vozes, onde a luxúria crescia.
De repente o meu amigo estacou. Alguns metros adiante, na rua Fresca, um rapaz doceiro
arriara a caixa, e sentado num portal, entregava o braço aos exercícios de um petiz da
altura de um metro. Junto ao grupo, o cigano, com outro embrulho, falava.
- Vês? Aquele pequeno é marcador, faz tatuagens, ganha a sua vida com três agulhas e um
pouco de graxa, metendo coroas, nomes e corações nos braços dos vendedores ociosos. O
cigano molambeiro aproveita o estado de semi-dor e semi-inércia do rapaz para lhe
impingir qualquer um dos seus trapos... um psicólogo, como todos os da sua raça,
psicólogo como as suas irmãs que lêem a buena dicha por um tostão e amam por
dez com consentimento deles...
Oh! essas pequenas profissões ignoradas, que são partes integrantes do mecanismo das
grandes cidades!
O Rio pode conhecer muito bem a vida do burguês de Londres, as peças de Paris, a
geografia da Mandchúria e o patriotismo japonês. A apostar, porém, que não conhece nem
a sua própria planta, nem a vida de toda essa sociedade, de todos esses meios estranhos e
exóticos, de todas as profissões que constituem o progresso, a dor, a miséria da vasta
Babel que se transforma. E entretanto, meu caro, quanto soluço, quanta ambição, quanto
horror e também quanta compensação na vida humilde que estamos a ver.
Estos son algunos hombres
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediarla
Saliendose a los caminos...
Mas o meu amigo não continuou o fio luminoso de sua filosofia. O catraieiro apareceu
rubro de cólera, e sutilmente cosia-se com as paredes, ao aproximar-se do cigano.
De repente deu um pulo e caiu-lhe em cima de chofre.
- Apanhei-te, gatuno!
O cigano voltara-se lívido. Ao grito do catraieiro acudiam, numa sarabanda de chinelas,
fúfias, rufiões, soldados, ociosos, vendedores ambulantes.
- Gatuno! Então vendes como ouro um anel de plaquet? Espera que eu vou te quebrar
os queixos. Sacudiu-o, atirou-o no ar para apanhá-lo com um bofetada. O cigano porém
caiu num bolo, distendeu-se e partiu como um raio por entre a aglomeração da gentalha,
que ria. O catraieiro, mais corpulento, mais pesado, precipitou-se também.
Os vagabundos, com o selvagem instinto da caça, que persiste no homem
acompanharam-no. E pelos boulevards, onde se acendiam os primeiros revérberos, à
disparada entre os squares sucessivos, a ralé dos botequins, aos gritos, deitou na
perseguição do pobre cigano molambeiro, da pobre profissão ignorada, que, como todas as
profissões tem também malandros.
Então Eduardo sentenciou.
- Tu não conhecia as pequenas profissões do Rio. A vida de um pobre sujeito deu-te todos
esses úteis conhecimentos. Mas, se esse pobre sujeito não fosse um malandro, não
conhecerias da profissão até mesmo os birbantes.
A moral é uma questão de ponto de vista. Para julgar os homens basta a gente defini-los
segundo os seus sucessivos estados. Se te aprouver definir os profissionais humildes pela
tua última impressão, emprega os mesmos versos de Guevara com uma pequena modificação:
Estos son algunos hombres
De obligaciones, que pasan
Necesidad, y procuran
De esta suerte remediarla
Corriendo por los caminos...
[1904]
(RIO, João do. A alma encantadora das ruas) |
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