|
|
 

PARA UM VOCABULÁRIO DE PESCA
No nosso número passado tivemos o prazer da
colaboração do doutor Cristiano Fraga, estudioso folclorista, com sua Nota Marginal
ao Vocabulário de Caça de C. Ribeiro de Lessa, que já folheáramos.
O doutor Christiano não podia deixar de se pronunciar a respeito, pois o conhecíamos
como caçador entusiasta e não menos eloqüente em relatar suas proezas de um bom
caçador.
Isso nos fez lembrar certos vocábulos de pesca que servirão como subsídio aos que
queiram organizar um trabalho semelhante ao de Ribeiro de Lessa, sobre a pesca.
Em nossa visita à Conceição da Barra a cidade mimosa, anotamos vários
vocábulos que ainda não tivemos oportunidade de ouvir em outra parte e aqui registramos.
GRUZEIRA uma corda esticada de uma vara a outra, com muitos
anzóis presos a linhas de mais ou menos meio metro, pendentes nessa corda e enfileirados
em distância regular. A gruzeira geralmente é colocada ao entardecer, e, na
manhã seguinte, quando se vai retirar o pescado, nota-se logo o movimento das varas
esfincadas no rio, produzido pelos peixes presos nos anzóis. Chama-se também CURUPICHEL
e ESPINHEL; a diferença explica-se pela menor quantidade de anzol. Pescam-se assim
traíras, judeus, jundiás, etc.
MINJOADA é uma linha com anzol amarrada numa vara e enfincada à
margem do rio.
MUZANSA é um instrumento de pesca construído de ripas e
amarradas com cipó, tomando a forma de um funil sem saída. Faz-se um cercado no córrego
ou no rio, com palhas de coqueiro, muito usado para isso a palma do indaiá, deixando uma
abertura onde se coloca a muzansa; não encontrando saída e não podendo se virar,
fica ali preso. Retira-se a muzansa para terra e bate-se-lhe para cair o peixe.
JEQUIÁ feito com cipó ou taquara, trançado, tem a forma de um
zepelim, com uma extremidade como que cortada antes da ponta; nesse corte é a abertura em
forma de funil, feita do mesmo material, de sorte que, entrando o peixe não poderá sair.
Ceva-se um pesqueiro, colocando-se raspas de mandioca, habituando os peixes naquele local.
Coloca-se, então, a isca (mandioca) dentro do jequiá e deixa-se ali ficar, segurado, por
uma corda ou cipó e facilitar sua retirada da água.
COVO é construído e usado da mesma maneira que o jequiá. A
diferença, porém, está em que este tem abertura dos dois lados e com o mesmo afunilado
nas aberturas para evitar a saída do peixe.
PINDAIBA é a vara de pescar, que aqui em Vitória se conhece pelo
nome de caniço.
MOTOMBAR é o processo de se pescar fazendo um movimento com a
vara, abaixando e suspendendo a linha verticalmente para que o peixe veja a isca.
Geralmente em água coberta de vegetação, e esse movimento serve para despertar a
atenção dos peixes.
ZANGARIAR coloca-se uma rede esticada acima de uma das bordas da
canoa e bate-se na vegetação da margem do rio, para que o peixe, pulando sobre a canoa,
vá de encontro à rede e caia dentro da mesma.
PURACAR com peneira ou pequena rede amarrada em dois paus,
procura-se o peixe entre a vegetação das margens ou com outra pessoa afugentando o peixe
para a rede.
TAPASTEIRO é cercar ao longo do rio tapar esteiro do rio
para apanhar o peixe.
CAMBOA é um cercado a beira do rio, com uma abertura pela qual
entram os peixes para comer as iscas de mandioca que ali se colocam. Nessa abertura faz-se
uma armadilha presa à mandioca, que os peixes, dentro do cercado, comendo-a, desarmam a
armadilha e desce a tábua da abertura, prendendo-os no cercado.
SEMA é a época em que o peixe aparece em grandes cardumes.
Dá-se geralmente nas enchentes. Nessas ocasiões pesca-se a noite com fachos, matando o
peixe a facão.
Dizem que não se deve dar muito crédito ao que contam os pescadores e caçadores, pois
que contam muita mentira, nós, porém, achamos ser isso uma injustiça, o que acontece é
darem mais colorido às suas narrativas quando as dizem com entusiasmo desportivo. Porém,
conhecemos um velho que contava que certa vez fora pescar à noite e chegando à beira do
rio encontrara uma tora, que no escuro lhe parecia de madeira.
Subiu na tora e lá na ponta jogou a tarrafa, voltando carregado de peixes. Nesta lida
ficou até o clarear do dia, quando então verificou que, não se tratava de uma tora de
madeira, mas, sim de uma traíra colossal, que ao amanhecer foi se afastando lentamente da
margem, depois de favorecer ao velho uma rica pescaria...
(FONSECA, Lima. Folclore, novembro e
dezembro de 1949) |
|