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MITOS SECUNDÁRIOS DO MARANHÃO E PIAUÍ

Ilustração de Marcos Jardim

Maranhão

No interior do Maranhão (donde parece não ter migrado para nenhuma outra circunscrição política do Brasil), existe um mito singular, que se liga simultaneamente aos da lobis-mulher e do mboi-tatá: é a curacanga.

Conforme dados fidedignos, ouvidos de quem nasceu naquela zona e que me foram transmitidos pelo senhor J. da Silva Campos, é a seguinte a tradição ali corrente: - Quando qualquer mulher tem sete filhas, a última vira curacanga, isto é, a cabeça lhe sai do corpo, à noite, e, em forma de bola de fogo, gira à toa pelos campos, apavorando a quem encontrar nessa estranha vagabundeação. Há, porém, meio infalível de evitar-se esse horrido fadário: - é tomar a mãe a filha mais velha para madrinha da
ultimogênita. [1]


1. Pádua Carvalho (apud F. J. de Santana Néri, Folklore brésilien, p. 31) refere-se ao capelobo, que no Pará é conhecido pelo nome de kumacanga, e que tanto pode ser o sétimo filho varão, oriundo de conúbio sacrílego, quanto a concubina de padre. Pelas noites de sexta-feira, o corpo fica em casa, despojado da cabeça, a qual sai pelos ares, transformada em bola de fogo. Assim, o mito da curacanga do Maranhão é o mesmo que o do Pará, divergindo apenas no nome, quanto à uma consoante. Viriato Correia, num dos seus livros de contos, dá à mula-sem-cabeça a apelação de cavalacanga, que ouviu entre os habitantes do interior maranhense.

Estudou o doutor Walter Hough os mitos de origem ígena do Novo Mundo (ver ‘Fire origin myths of the New World, in Anais do XX Congresso Internacional de Americanistas, I, 179-184), mas apenas se referiu ao dos índios norte-americanos. Se continuar tais investigações, por certo não se esquecerá ele de que na América do Sul há os do mboitatá, da curacanga e dos yakãrendys.


Piauí

É o Piauí um viveiro de mitos, que não lhes transpuseram as fronteiras. Três deles são notáveis, tanto pelas denominações, quanto pelas lendas que os nimbam: o pé-de-garrafa, o cabeça-de-cuia e o barba-ruiva.

O pé-de-garrafa é uma espécie de
caapora, pois, segundo Vale Cabral, além de habitar nas matas, "grita como um homem e deixa nas estradas as suas enormes pegadas, que, por se assemelharem ao pé da garrafa, lhe tomaram o nome".

O cabeça-de-cuia, mito fluvial, proveio da lenda de um filho mau, amaldiçoado pela justa cólera materna. Vive nas águas do Paranaíba, e, conforme o autor citado, "é alto, magro, de grande cabelo, que lhe cai pela testa, e, quando nada, o sacode"; além de comer, de sete em sete anos, qualquer moça que tenha o nome de Maria, até tragar ao todo sete Marias, o que lhe permitirá desencantar-se. Também devora os meninos que se atrevam a banhar-se naquele rio.

O barba-ruiva (que, não obstante tal designação, diverge totalmente do Barbarossa germânico, do poemeto de Rückert), mito
lacustre anfíbio, promanou de um caso de infanticídio. É homem alvo, de estatura regular e cabelo avermelhado, que mora na lagoa de Parnaguá, ao sul do Piauí. Inofensivo para com os entes do seu sexo, a cuja aproximação se escapole para o fundo das águas, atira-se sofregamente às mulheres, somente, porém, para as abraçar e beijar… Diz Nogueira Paranaguá (‘A lagoa encantada’, in Litericultura, II, 53-56), que este duende é ali vulgarmente conhecido por "filho da mãe d’água".

Estudados por João Alfredo de Freitas, em seu trabalho sobre Superstições e lendas do norte do Brasil (Recife, 1884), também o foram esses mitos estudados por Leônidas e Sá, que, em dois artigos intitulados O folklore piauiense (Litericultura, II, 125-128 e 363-370), completou as asserções de Vale Cabral quanto aos acima definidos e ainda trouxe à coleção os da zona de Oeiras, denominados urué (ou barba-nova) e cabeças vermelhas, que se referem a pactos com o diabo, e uma espécie de velocino sertanejo, o carneiro-de-ouro (Campo Maior), de menor importância para o nosso folclore. A essa última crendice também dá registo F. J. de Santana Néri (op. cit, 32-33), que afirma haver-se ela propagado até às margens maranhenses do Parnaíba.

Como se vê por aí, foi fecundo na criação de mitos o imaginoso espírito do mestiço piauiense, certo influenciado por antigas lendas
neerlandesas, de um lado, e, do outro lado, pelas superstições de fundo católico.


(MAGALHÃES, Basílio de. O folk-lore no Brasil)

Caapora – Entre os índios, homem do mato, roceiro, caipira.

Lacustre – Relativo a lago. Que vive nas águas ou à margem de um lago.

Neerlandesas Dos países baixos.

Ultimogênita – A filha mais nova, caçula.

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