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LEILÃO NA FESTA DE SANTANA

No dia de Santana, faz-se brilhante festa na igreja de sua invocação. Ao anoitecer, em grande número, os habitantes do Rio de Janeiro se aglomeram na imensa praça da Aclamação, toda iluminada com barris de piche e fogueiras.

No
adro da igreja, ergue-se um arco de triunfo lindamente iluminado. Dos lados, há tribunas para as notabilidades da diocese, cujos filhos representam uma espécie de comédia. Em um trono, vê-se sentado um pequeno rei de coroa à cabeça e empunhando o cetro, rodeado de camaristas e generais. Todos procuram imitar bem a arrogância peninsular de seus progenitores. Um palhaço faz leilão dos presentes oferecidos em benefício da igreja, com esse espírito peculiar, quero dizer católico, que se encontra em todas as comédias eclesiásticas: - "Este pão, meus senhores, diz ele entre outras coisas, foi presenteado à Senhora Santana pelo padeiro fulano. O homem é rico, o que não é de admirar, em vista dos seus inúmeros protetores no calendário. Faz pães pequenos, porém disputados, porque os maiores são para Santana. Quem oferece por este mais de um cruzado em honra de Deus e de seus santos?"- "Senhores, olhem para esta galinha. Na verdade, é muito magra, mas o bom cristão que a deu também não é muito gordo. Não valeria um tostão, se não pudesse ser comida em qualquer dia de festa com a consciência tranqüila".

Desta maneira, o leiloeiro prossegue durante horas. Nos intervalos, faz-se ouvir uma música barulhenta, negras oferecem guloseimas à venda, as moças brancas ou mestiças lançam do mesmo modo as redes de seus olhares, os cidadãos honestos passeiam de braço dado com suas obesas esposas, senhores e escravos se misturam, e, afinal, em tudo prevalecem uma ordem e uma decência admiráveis.

Quanto mais a gente se afasta da multidão mais interessante é o seu aspecto. Senhoras e senhorinhas sentam-se de pernas cruzadas à moda oriental, em esteiras e tapetes estendidos sobre o capim. As crianças brincam em volta. Nem as mais pequeninas ficaram em casa. Velas acesas por toda a parte. Não sopra uma aragem. Foguetes solitários riscam o céu. Por entre longa fila de vendedores ambulantes, comodamente refestalados por trás de suas cestas iluminadas, apregoando frutas, balas, pastéis, licores e que sei eu, a gente mergulha aos poucos no profundo silêncio da noite, que cobre com seu estrelado esplendor tropical a imensa praça.

Alguns casais passeiam, cochichando, para cima e para baixo. Sobre a grama macia, celebram-se horas de amor. Só as alamedas que cortam o Campo estão cheias de carruagens e de magotes de povo em constante movimento. A polícia manifesta-se com o esplendor de numerosas patrulhas de cavalaria, que produzem mais estorvo do que proveito, pois a multidão mantém melhor a ordem por si mesma. Elas não impedem os crimes que se encobrem nas trevas. Quem tem a consciência tranqüila não teme faca ou punhal. São raros os furtos e roubos. Nem brancos nem pretos têm jeito ou gosto para isso. Os chamados
descuidistas são inteiramente desconhecidos.

Por volta da meia-noite, chega o imperador, geralmente a cavalo. Tiros de peça e rojões anunciam o começo dos fogos de vits. Logo se queimam vários, pouco notáveis, quer pelo engenho, quer pelo esplendor. Terminam com dois pequenos fortes que atiram num navio posto entre eles, o qual se incendeia e vai pelos ares, com grande júbilo do
poviléu. Raramente ão é esta a cena final dos fogos.

Naquela noite, a sorte deu-me oportunidade de apagar uma moça que na verdade estava pegando fogo, em conseqüência de um foguete mal dirigido. Num instante, o fino vestido de cambraia se pôs em chamas. Sem hesitar muito tempo, atirei sobre ela meu largo manto escocês e, enrolando-a nele com meus braços, abafei o incêndio quase tão rapidamente como ele começara.

A moça, de aparência decente, estava desacompanhada. Ofereci-lhe o braço e levei-a para sua casa. Algumas escravas nos seguiam. A esse feliz acaso fiquei devendo minhas horas mais agradáveis no Rio de Janeiro.

[1824-1826]

(SCHILICHTHORST, C. In BANDEIRA, Manuel; ANDRADE, Carlos Drummond de. Rio de Janeiro em prosa e verso)

Adro – Terreno em frente e/ou em volta da igreja.

Descuidistas – Gatuno que atua valendo-se da distração da vítima.

Poviléu - Populacho, plebe, ralé.

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