
Era a dança predileta dos pretos, por causa da grande
quantidade de pessoas que nela tomavam parte, podendo prolongar-se indefinidamente, sem
cansaço.
Além do mais, é uma exibição das qualidades individuais de cada dançarino,
esforçando-se cada um por suplantar o outro. Com maior apuro do dançador, entusiasmo
maior. Prestando-se a dança a movimentos lascivos, a mulher ou o homem dançando no meio
do grande círculo produz maior excitação na assistência, atordoada com as baterias, o
sapateio, o canto geral e o parati que circula horas a fio.
Instrumentos
1 cantador ou 2 (alternando), com o chocalho na mão.
3 tambores.
1 puita ad libitum; mas de grande importância para o sucesso do jongo.
Nota
O tambor do jongo é diferente do nosso conhecido. É feito com um décimo de barril de
pinga, medindo mais ou menos 1 metro de altura, por 1 palmo e meio de largura. Conserva o
fundo de madeira; a extremidade superior é coberta com pele de gado. Às vezes a pele de
gado é substituída por pele de porco do mato, ou de tamanduá.
O executante bate com as duas mãos sobre o tambor, cujo fundo repousa no chão.
A puita é deitada no chão, com a frente (a pele) para a dança.
O executante (maquinista, era chamado) fica de joelhos no chão, com a abertura dela junto
às pernas. Junto dele uma vasilha com água.
Aí começa a execução. Com a mão molhada, aperta a cana, e escorrega a mão fechada
sobre ela de junto da pele para a abertura do tambor. Enquanto uma das mãos faz o
perrcurso, a outra está se molhando, e em seguida repete o que a outra fizera.
O contato da mão molhada, que escorrega sobre o bambu, que por sua vez está fixado junto
à pele, produz uma vibração rouca, uma espécie de ronco ritmado pela habilidade do
executante.
Os figurantes do jongo
Uma grande roda de 20, 40 ou mais indivíduos dos dois sexos.
Ao lado da roda, os tocadores.
A dança
1. O cantador, de chocalho na mão, pula para o meio da roda, e canta o verso (A).
2. O coro responde (B). Enquanto isto, o cantador sapateia.
3. Quase no fim do coro, o cantador entra para o meio do círculo.
4. Um dos assistentes (homem ou mulher) cai para o centro.
5. O cantador fica no círculo cantando, alternando com outro se quiser, enquanto
prossegue a dança. O verso (A) é repetido ou não conforme o interesse que despertar o
dançador; e o coro repete ou não o estribilho, conforme as mostras de habilidade do
sapateador.
6. Às vezes um homem é provocado por uma mulher que dança e vem para o centro da roda,
travando-se então verdadeiros duelos de dança e sapateio entre os dois, sublinhados com
o interesse da assistência que bate as palmas enquanto o cantador sustenta a dança e
entoa o coro na hora do sapateio; e tudo isso envolvido nos ritmos dos tambores, da puita
e do chocalho do cantador.
No jongo, a letra do canto não tem importância. Antoniozinho informa que é sempre a
mesma, indefinidamente. O coro responde sem letra.
As indicações de Antoniozinho coincidem exatamente com as de Júlio Ribeiro no livro A
carne (p. 111, cap. X).
Júlio Ribeiro chama a dança de samba. Acredito mais no jongo do velho
preto.
O coro citado por Júlio Ribeiro, coincide exatamente na letra "Eh! pomba! eh!"
com "Ah! a lilá".
E o verso do cantador, enquadra-se exatamente na música.
Lembro que Antoniozinho cantava o coro, formando 5ª justa superior, quando eu cantava,
para conferir a sua justeza.
O cateretê, a caninha verde e o jongo são danças. O resto são contradanças.
Antoniozinho diz que são varsadas (valsadas), e têm menos importância.
Apurei em seguida, que não são em ritmo de valsa. Ele as chama assim porque são
dançadas por pares isoladamente naturalmente à moda da valsa, dança estrangeira
para os pretos, que entendiam a dança como diversão de conjunto.
Cada título indica um tipo de dança (sempre aos pares) com toada (melodia)
diversa, e passos diferentes. Para a contradança a composição instrumental é
sempre a mesma.
Jongo
Solo:
Capim de pranta
Tá capinando
Tá nascendo
Capim de pranta
Tá capinando
Tá nascendo
Rainha mandou dizê
Pra mode pará coessa lavoura
Coro:
Ah! a lá!
Ah! a lilá!
Ah! a la!
Ah! lilá!
Ah! lilá!
Ah! a lilá!
(GALLET, Luciano. Estudos de folclore) |