Pois que até aqui tratamos dos
mantimentos naturais da terra da Bahia, é bem que digamos dos legumes que se nela criam.
E comecemos pelas favas, que os índios chamam de comendá, as quais são muito alvas, e
do tamanho e maiores que as de Évora em Portugal; mas são delgadas e amassadas, como os
figos passados.
Há outras favas, meio brancas e meio pretas, mas são pequenas; e estas favas se plantam
à mão na entrada do inverno, e como nascem põe-se ao pé de cada um, um pau, por onde
atrepam, como fazem em Portugal as ervilhas; e, se têm por onde atrepar, fazem grande
rama; a folha é como a dos feijões da Espanha, mas maior; a flor é branca; começam a
dar a novidade no fim do inverno e duram mais de três meses. Estas favas são, em verdes,
mui saborosas, e cozem-se com as cerimônias que se costumam em Portugal, e são reimosas
como as do reino; e dão em cada bainha quatro e cinco favas, e depois de secas se cozem
muito bem, e não criam bichos, como as da Espanha, e são melhores de cozer; e de uma
maneira e de outra fazem muita vantagem no sabor às de Portugal, assim as declaradas como
a outra casta de favas, que são brancas e pintadas de pontos negros.
Dão-se nesta terra infinidade de feijões naturais dela, uns são brancos, outros pretos,
outros vermelhos, e outros pintados de branco e preto, os quais se plantam à mão, e como
nasce põe-se-lhe a cada pé um pau, por onde atrepam, como se faz às ervilhas, e sobem
de maneira para cima que fazem deles latadas nos quintais, e cada pé dá infinidade de
feijões, os quais são da mesma feição que os da Espanha, mas tem mais compridas
bainhas, e a folha e flor como as ervilhas; cozem-se estes feijões sendo secos, como em
Portugal, e são mui saborosos, e enquanto são verdes cozem-se com a casca como fazem às
ervilhas, e são mui desenfastiados.
Chamam os índios jerimus às abóboras-da-quaresma, que são naturais desta terra, das
quais há dez ou doze castas, cada uma de sua feição; e plantam-se duas vezes no ano, em
terra úmida e solta, as quais se estendem muito pelo chão, e dá cada aboboreira muita
soma; mas não são tamanhas como as da casta de Portugal. Costuma o gentio cozer e assar
estas abóboras inteiras por lhe não entrar água dentro, e depois de cozidas as cortam
como melões, e lhes deitam as pevides fora, e são assim mais saborosas que cozidas em
talhadas, e curam-se no fumo para durarem o ano todo.
As de Portugal chamamos cabaços, chama o gentio pela sua língua geremuiê, das
quais têm entre si muitas castas de diferentes feições, tirando as abóboras compridas,
de que dissemos atrás. Essas abóboras ou cabaços semeia o gentio para fazer delas
vasilhas para seu uso, as quais não costuma comer, mas deixam-nas estar nas aboboreiras
até se fazerem duras, e como estão de vez, curam-nas no fumo, de que fazem depois
vasilhas para acarretarem água, por outras pequenas bebem, outras meias levam às costas
cheias de água quando caminham; e há alguns destes cabaços tamanhos que levam dois
almudes e mais, nos quais guardam as sementes que hão de plantar; e costumam também
cortar esses cabaços em verdes, como estão duros, pelo meio, e depois de curadas estas
metades servem-lhes de gamelas, e outros despejos, e as metades dos pequenos servem-lhes
de gamelas, e outros despejos, e as metades dos pequenos servem-lhes de escudelas, e
dão-lhes por dentro uma tinta preta, por fora outra amarela, que se não tira nunca; e
estas são as suas porcelanas.(SOUZA, Gabriel
Soares de. Tratado descritivo do Brasil) |