Nota de sensação para o Rio
de Janeiro, foi, em 1834, a chegada do primeiro gelo. Viajara muito. Desde o lago
Potomaque, perto de Boston. A princípio, o carioca recebeu-o meio ressabiado. Parecia que
lhe queimava a boca. Não fez como aquela dama italiana que, ao se deliciar com o primeiro
sorvete, dava voluptuosos estalidos de língua, e exclamava, lembrando-se que só as
coisas proibidas são verdadeiramente boas: "Que pena não ser pecado!" Mas foi
rápida a reação desfavorável dos fregueses da Confeitaria Francioni. Logo depois,
muita gente atravessava a baía, vinda de Niterói, só para tomar um gelado. E não
tardou que o sorvete servisse até para motivo de escândalo. Um ministro de estado sofreu
diatribes de um jornal, porque, nos faustosos bailes em sua
casa, apenas em sorvetes chegava a gastar duzentos mil-réis.
Antes que se divulgassem os gelados, um dos refrigerantes mais em voga era o aluá, tanto
vendido na rua em qualquer caneco desbeiçado, como servido às visitas de cerimônia, em
salvas de prata. Aliás, esse aluá, feito de milho e bem indígena, não deveria ser mais
do que aquela bebida a que já se referia Anchieta: "Usamos em lugar de vinho, de
milho cozido em água, a que se junta mel, de que há abundância; é assim que sempre
bebemos as tisanas ou remédios; e se isto temos com fartura,
quase que não nos parecemos a nós mesmos pobres".* * *
O escritor Guilherme de Figueiredo assim conta a
introdução do gelo e do sorvete na cidade:
"No dia 6 de agosto de 1834 chegava a barca americana Madagascar, com 160
toneladas de gelo, trazidas de Boston. A 13 de agosto a barca declarava, em seu manifesto
de alfândega, "217 toneladas de gelo"; e a 23 de agosto o gelo posto à
disposição do carioca, mediante o seguinte.
Nesse dia e hora, no estabelecimento do senhor Fallas, no largo do Paço, e na confeitaria
do senhor Deroche, à rua do Ouvidor, nasceu o sorvete carioca. Era de "diferentes
qualidades", inclusive amanteigados, ou seja, os de creme, e as peças fortes, que
não sei o que sejam, mas presumo serem montagens escultóricas, "pièces montées".
"O gelo, devidamente envolto em serragem, foi enterrado em grandes covas, ali onde
hoje é a Santa Luzia. Segundo o historiador Dunlop, conservou-se quatro ou cinco meses, o
bastante para criar o hábito numa população bebedora de vastas limonadas além de
outros refrescos de fruta.
Os refrescos do Paço geraram sorvetes cariocas. O italiano Luigi Bassini, que, segundo
Dunlop, foi o pioneiro do comércio de sorvetes e gelo no Rio (excluída a precedência de
Fallas e Duroche), vendia-os no "Café do Círculo do Comércio", à rua Direita
nº 19 (Primeiro de Março). No dia 30 de dezembro de 1835, o Jornal do Commercio
estampa o seguinte anúncio:
"N. Denis, proprietário deste estabelecimento, tem a honra de participar ao público
e particularmente aos seus fregueses, que se associou, no seu negócio de gelo somente, ao
senhor Luís Bassini que foi o primeiro que fez sorvetes nesta corte, e que do dia 1º do
ano em diante se achará na sobredita casa das 10 horas da manhã às 10 horas da noite,
tijolos ou matonetti, café gelado, à italiana, etc., etc., iguais em qualidades aos que
se acham nas melhores sorveterias de Nápoles. Também aprontará encomendas para fora e
afiança a prontidão, asseio e qualidade tanto dessas como dos refrescos que se servirem
nas suas salas, entre as quais há uma exclusivamente destinada para as senhoras".
(In Comidas, meu santo! Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1964. p.
140-141)
(CRULS, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro) |
ANÚNCIO
Quando o luxo, mola à qual a
família humana é devedora em grande parte da rapidez com que tem marchado para o
portentoso progresso em que se acha (pois que criando todos os dias entre os homens novas
necessidades, põe em contato entre si os que menos se convenciam, anima os
empreendedores, e fomenta artes e ciências); era impossível que o uso do gelo ficasse
esquecido no Rio de Janeiro, onde por ele parece haver estabelecido seu berço; e onde a
refinada sensualidade dos seus habitantes em menos de três lustros os têm posto ao par
com os irmãos do velho mundo. Com efeito, um barco americano acaba de chegar carregado de
este precioso gênero, para que possamos suavizar com o seu uso os ardores excessivos do
verão; e para que os senhores professores fisiólogos o tenham à sua disposição, para
podê-lo mandar aplicar em tantos casos de moléstias das quais é milagroso específico.
Desejoso Lorenzo Fallas de satisfazer aos desejos manifestads pelos senhores concorrentes
que o honram tem-se animado a fazer a compra deste carregamento, e conseqüentemente,
todas as tardes haverá no seu estabelecimento no largo do Paço, gelados de diferentes
qualidades, tanto simples como amanteigados, e peças fortes; executará qualquer
encomenda que lhe venha feita para banquetes ou chás para fora de casa; e terá a toda
hora gelo para vender aos que precisarem comprar por libras, tanto no seu estabelecimento
como na confeitaria do senhor Deroche rua do Ouvidor nº 175.
NB Principiará a venda dos gelados hoje das 4 horas por diante. |

Diatribe Escrito ou discurso
violento e injurioso.
Tisana Cozimento de cevada;
Medicamento líquido que constitui a bebida comum de um enfermo. |