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MARTELO AGALOPADO
Em 1956 o velho Manoel Nenê,
que em 1941 abandonara o seu estado natal, voltou à sua Viçosa e à velha Casa-Grande da
Boa Sorte para despedir-se da terra que fora o palco de suas grandes vitórias. Como
dissera em uma de suas sextilhas:
Tou aqui representando
É o disejo que tenho
Consolá vossas sinhorias
É o meu poético desenho,
Se eu morrê, não venho mais,
Se não morrê inda venho.
A peleja entre o velhinho de setenta e tantos anos e de voz já débil e trôpega com seu
rival Joaquim Vitorino, hoje na força dos anos, foi por nós gravada em fita magnética
nas suas passagens mais emocionantes. É dessa gravação que transcrevemos a parte do
desafio, travado em "matéria de 10 agalopada".
Vitorino:
Nos pediram um martelo agalopado
E eu, com todo o jeito e leveza.
Vou agora fazê uma defesa
De um corpo velho e depauperado,
De um espírito antigo, atrofiado,
Que só vive a Deus pedindo a morte,
De um fardo que não tem passaporte
Mas contudo se revela e tem destino;
Canta e brinca e diverte, Vitorino,
Cantadô de Viçosa e Boa-Sorte.
M. Nenen:
Eu também já fui cantadô do norte,
Hoje sou cantadô de Alagoas,
Aqui estou brincando as minhas loas,
Não recramo o valô da minha sorte;
Se eu perdê, diz, também ninguém se importe,
De eu cantá e fazê as minhas loas,
Agradá muito bem essas pessoas,
E cantá no braço da "regra inteira"
Canta e brinca o véio Mané Ferreira
Que é o bamba poeta de Alagoas.
Vitorino:
Eu cheguei, sou o bamba em todas proas
Cantadô não despeja em minha frente
Só se ele fô muito inteligente
Invocá os patrões e as patroas;
Porém tu, comigo não caçoas
É preciso agora eu te dizê
Cuide bem em a matéria colhê
Que eu conheço do nome e do artigo,
Cantadô que em galope vem comigo
Ou é besta, ou é doido, ou qué morrê.
M. Nenen:
Porém eu lhe dou um parecê
Não se faça cantô adientado,
Seja um home mais amoderado
Pra cumprires a orde e o devê,
Desta forma assim não pode sê
Dá prova de home mal inducado
Deve sê um pouco considerado
Falá sempre em palavra bem decente
Repare quem estivé aqui presente
Não qué vê pilhéria pro seu lado.
Vitorino:
Você diz e está bem empregado
Eu não aceito, porém faço o pedido
Do homem que é bem sucedido
Que aqui tem doutô e adevogado,
Tem até um culto deputado;
Esta dô que eu tenho, eu não regelo,
A sentença está dada, eu não apelo,
Você agora faça o que quizé
E bote o martelo que pudé
Que eu vou vê se inda sei cantá martelo
M. Nenen:
Colega, o seu futuro eu não apelo
Não sou cantô da data aqui presente
Para cantá agora outro repente
Tou cansado, doente, tou banguelo,
Além disso ando magro e amarelo,
Porém eu nasci habilitado
E tenho essa habilitação:
Bote a sua viola e a canção
Que eu canto o martelo agalopado.
Vitorino:
Todo velho é teimoso e atravessado,
Do jeito que você é em galope,
Só canta imaginando e dando tope,
E logo em martelo agalopado;
Eu tenho pena dele assim, coitado,
De fazê hoje assim dessa maneira,
Serrando o que tivé na algibeira
Eu vou vê se a luta me envenena
Que portanto sou eu quem tenho pena
Cantando com o tal Mané Ferreira.
M. Nenen:
Colega, tu me diz que canta bem
Porém esses pensamentos não são meus,
Eu tenho visto uma porção de erros teus,
Porém eu nunca contei isso a ninguém;
Eu chamo a rima a mim, a rima vem,
Para isso, te digo, é que eu me esmero;
Aqui estou cantando porque quero
Muito brando, moderno e bem macio,
Mas por forma de pilhéria e desafio
Por essa forma não venha que eu não quero.
Vitorino:
Eu tenho o coração do próprio Nero
Que mandou matá a própria mãe dele
E depois por intermédio daquele
Disse logo: o resultado eu espero;
Mando abri de frente a frente estando sério
Para saber no lugar que tinha ido,
E o canto em que ele tinha nascido,
Depois de saber tava satisfeito;
Mesmo assim eu faço do meu jeito
Com cantô, como tu, velho e inxirido.
M. Nenen:
Colega, eu já tou reconhecido
Nessa pátria bondosa alagoana
Porque na terra pernambucana
Eu não conto lugá que eu tenha ido
Poeta como tu, entrometido
Que vem discuti no portugueis
Cantadô da marca de vocêis
Eu sozinho dou em 12 com uma vara
Eu passando a mão na sua cara
Nunca mais ela cabe um pince-neiz
Vitorino:
Esse aí foi Zé Soares quem fez
Cantando até com Rogaciano
Eu me lembro da data e do ano,
Eu me lembro do dia e do mês
Me diga meu amável freguês
Porque é que você já perdeu tanto?
É milhó que se coloque num canto
Se despeça do mundo e vá embora
Deixando que todo mundo chora
E se coloque ali nos pés de um santo.
M. Nenen:
Colega, em martelo eu canto tanto
Que admira a toda humanidade,
Porque Deus me deu a felicidade
Prá cantá nesse mundo eu me garanto;
Eu tenho um pensamento quase santo,
Só não posso cantá no português
Mas no repente a galope eu canto um mês
Que um home não desmancha o meu martelo
Cantadô que dé em mim eu afivelo
Sendo um para mim é dois ou três.
(BRANDÃO, Théo. Boletim alagoano de folclore,
maio de 1958) |
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