Todos nós conhecemos estes
desafios pastoris improvisados em linha ou ponto que se chamam calangos,
os quais já invadiram até o rádio nacional.
A título de curiosidade vamos transcrever dois calangos do popular jogo de bicho,
recolhidos em Divisa, Guaçuí, Espírito Santo, por Miguel Rodrigues Faria.
São eles da linha do ão e da linha do ado.
1º
Nº 1 é o avestruz
Começou a coleção.
Nº 2 é a águia,
Que bate o bico no chão.
Nº 3 é o burro.
Que anda debaixo do pião.
Nº 4 é a borboleta,
Que voa e traz verão.
Nº 5 é o cachorro,
Que trouxe o nome de cão.
Nº 6 é a cabra,
Que dá leite pros pagão.
Nº 7 é o carneiro,
Que dá lã pro colchão.
Nº 8 é o camelo,
Bicho que anda corcovão.
Nº 9 é a cobra,
O bicho da maldição.
Nº 10 é o coelho,
Que engana cachorro bão.
Nº 11 é o cavalo,
Que dá sela pro patrão.
Nº 12 é o elefante,
Que a tromba arrasta no chão.
Nº 13 é o galo,
Que tem crista e esporão.
Nº 14 é o gato,
Que pega rato à traição.
Nº 15 é o jacaré,
Que bate caxa no fundão.
16 é o número do rei dos bichos,
Que é o Lião.
17 é o macaco,
Que pula de vão em vão.
Nº 18 é o porco,
Que cozinha no caldeirão.
Nº 19 é o pavão,
Bicho cheio de espravão [pele áspera do pé].
Nº 20 é o piru,
Que é chamado na função.
Nº 21 é o touro,
Que puxa carro e carretão.
Nº 22 é o tigre,
Que dá tapa e esconde a mão.
Nº 23 é o urso,
Que brinca pra ganhar tustão.
Nº 24 é o veado,
Que mora no chapadão.
Nº 25 é a vaca,
E acabou-se a coleção.
2º
1 é o avestruz,
Começou o numerado.
2 é a águia,
Bicho do bico virado.
3 é o burro,
Que aceita sela e socado.
4 é a borboleta,
Que voa no cerrado.
5 é o cachorro,
O rei dos bichos educados.
6 é a cabra,
Que dá leite pros coitados.
7 é o carneiro,
Que dá lã pro colchoado.
8 é o camelo,
Que tem o lombo encorcovado.
9 é a cobra,
Bicho maldiçoado.
10 é o coelho,
Que é bicho desconfiado.
11 é o cavalo,
Que não anda desferrado.
12 é o elefante,
Que dorme no pau encostado.
13 é o galo,
Que canta empoleirado.
14 é o gato,
Que pega o rato no apertado.
15 é o jacaré,
Que vive no seco e no molhado.
16 é o Lião,
Rei dos bichos, respeitado.
17 é o macaco,
Que pula de galho em galhado (ou de gaio engaiado).
18 é o porco,
Que dá banha pro mercado.
19 é o pavão,
Que tem o pé engafeirado [pele áspera].
20 é o piru,
Que na mesa é separado.
21 é o touro,
Que tá preso no cercado.
22 é o tigre,
Bicho mal encarado.
23 é o urso,
Que brinca pra ganhar trocado.
24 é o veado,
Que mora no cerrado.
25 é a vaca,
E acabou-se o numerado.
Além destes há em diversas outras linhas.
Deve notar-se que antes de cada número o calangista diz com muita seriedade nº
1, nº 2, etc.
Merecem reparo também as observações feitas sobre bichos estranhos à nossa fauna: o
camelo, bicho que anda corcovão... o elefante, que a tromba arrasta no chão... o leão,
o rei dos bichos respeitado.... o pavão que tem pé engafeirado isto é de pele
áspera... o urso que brinca para ganhar tostão, alusão, talvez, aos ursos que dançam
nos circos.
Quero deixar, como nota final, o esclarecimento de que nós já ouvíramos estes dois
calangos radiofonizados, sem a singeleza das canções cantadas pelo povo.
Mesmo porque, estes servem para animar as festas religiosas da paróquia, em que há
sorteio feito pela roleta de 25 números, que se adaptou à divulgação do tão popular
quão perseguido jogo do bicho, de origem mui nobre...
[1949]
(PACHECO, Renato José Costa. Folclore, novembro e
dezembro de 1949) |
Veja também: - Origens do jogo do bicho |