Jangada Brasil, nº 23, julho de 2000: Almanaque – 1/3

Alexandre José de Melo Morais Filho
(1844 – 1919)

É um dos autores mais conhecidos da literatura contemporânea brasileira. É filho do historiador de igual nome.

Por ter sido este a princípio um homem de bons haveres, não se julgue ter o filho gozado de larguezas e facilidades para educar-se. Bem pelo contrário.

O velho Melo Morais decaiu rapidamente de fortuna, por motivos que não vem ao caso aqui expor, e o filho teve de lutar com imensos embaraços para instruir-se e abrir caminho na sociedade. Sua juventude foi dura e acabrunhada.

Feitos alguns estudos preliminares, matriculou-se no Seminário de São José do Rio de Janeiro. Chegou a receber todas as ordens menores e a pregar sermões em algumas de nossas igrejas. Justamente como Laurindo Rabelo.

Em 1867 obteve cartas demissórias para se ir ordenar na Bahia. Por esse tempo já cultivada a poesia em que tinha sido iniciado por Laurindo, Constantino de Sousa e, acima de todos, Bittencourt Sampaio.

Na velha São Salvador o nosso quase padre travou relações com Lapa Pinto, Castro Alves, Pedro Moreira e Carvalhal; meteu-se nas Repúblicas de Estudantes, na literatura, e deixou de tomar as ordens de presbítero. Tinha renunciado à sua carreira. Mas era só externamente; ele iludiu-se a si próprio; no fundo, intimamente, continuou a ser o que ainda hoje é, um verdadeiro padre, mais padre do que muitos dos que aí andam de batina e dizem missas.

Desfeito o desígnio de ordenar-se, voltou para o Rio de Janeiro, onde começou esse viver dificultoso da literatura e do jornalismo em uma terra onde essas coisas existem desorganizadas, nulificadas quase, pela insidiosa concorrência estranha.

Mais tarde foi contratado para ir à Londres redigir o Eco Americano. A residência na Europa foi-lhe útil; extinto o periódico londrino, o poeta passou-se à Bélgica, onde fez o curso médico. As dificuldades vencidas então foram muitas, voltando ao Brasil, onde a literatura tem sido a sua embriaguez.

A princípio limitou-se ao puro jornalismo; nos decênios últimos tem atirado ao público diferentes livros. Todos eles se referem ao Brasil sob qualquer de seus aspectos, porque, como se há de brevemente ver, em tudo que este autor tem escrito há uma determinada intuição de nacionalismo.

Todos os seus livros podem-se reduzir a três classes: poesias, contribuições etnográficas, coletâneas para servirem à história literária. (…)

As melhores obras de Melo Morais Filho são as de contribuição etnográfica e, acima de todas, as de poesia. Os livros de etnografia são: Cancioneiro dos ciganosOs ciganos no BrasilFestas e tradições populares do BrasilQuadros e crônicas.

Todo e qualquer estudo que contribua para o esclarecimento das populações nacionais, todo e qualquer esforço para fazer a luz sobre as origens, os costumes, a psicologia de nossas classes populares, deve ser bem recebido e encorajado.

A despeito de alguns trabalhos empreendidos por geógrafos, etnólogos e lingüistas nacionais, o Brasil ainda não conhece bem o seu território, nem sabe as filiações das tribos índias e africanas, que lhe constituíram grandíssima parte da população.

As observações e pesquisas diretas são entre nós bem parcas, ainda metendo em conta as levadas a efeito por europeus ou anglo-americanos, longa ou limitadamente residentes no país.

Tomada a etnografia como base para os estudos históricos e sociais, quantos problemas não estão aí a tentar-nos!

O povo brasileiro é o resultado de muitos fatores física e moralmente.

Que devemos ao portugueses, aos negros, aos índios?

Seria necessário responder a estas questões, e elucidá-las a fundo, sob todos os aspectos. Seria até preciso subdividir cada um daqueles problemas capitais.

Entre os portugueses ver a ação dos ilhéus, dos minhotos e transmontanos, dos alentejanos, dos algárvios, suas migrações para o Brasil, as direções de suas correntes, suas preferências para estabelecerem-se nesta ou naquela província, nos tempos de colônia e ainda hoje.

Praticar o mesmo para com os negros; verificar a ação das diversas tribos africanas, suas modificações no meio americano, suas línguas, sua aptidão intelectual, etc.

Qual a contribuição dos negros da costa oriental e qual a dos negros das costas do Ocidente? Dos negros do grupo bantu, do grupo felupo, do grupo mandê, etc.? Dever-se-ia responder.

Idêntico processo para os índigenas. Quais as raças pré-históricas e os seus representantes atuais? E quais os povos invasores em suas diversas raças e a contribuição de cada uma delas?

Feito isto, estaríamos muito longe de ter esgotado o assunto. Restaria ainda e sempre investigar o que devemos aos holandeses, que senhorearam durante anos quase todo o norte do Brasil. A estada dos franceses no Maranhão não deixou ali vestígios de qualquer ordem, não modificou de qualquer forma as populações daquela província?

Quanto a franceses, que lhe devemos pela ação intelectual de seus livros, de sua literatura que imitamos, de seus costumes, de suas modas que macaqueamos?

A vizinhança dos espanhóis nas províncias das fronteiras não atuam em qualquer grau sobre os povos próximos?

Quantos a espanhóis, a imitação de sua poesia pelos autores nacionais no século XVII nada influiu? E o tempo que pertencemos à Espanha nada produziu?

As colônias alemãs do Rio Grande, de Santa Catarina, Paraná e São Paulo não exercem ação alguma? E o contigente italiano que tende a crescer?

É mister determinar tudo isto, e ainda assim não ficarão exauridos os nossos problemas etnográfico-históricos.

Faltaria, por outro lado, determinar a índole, o caráter, o impulso das populações mestiçadas, ponto capital da nossa vida de nação.

Todas estas questões constituem um trabalho colossal, que só poderá ser feitos aos fragmentos e no decurso de várias gerações.

É o grande estudo da demografia apenas iniciado no Brasil.

Melo Morais Filho, poeta cultor do nacionalismo pátrio, tem-se dedicado a alguns destes assuntos…

… Ainda no terreno da etnografia falta dar uma rapidíssima idéia do livro – Festas e Tradições Populares do Brasil, superior ao que se intitula Quadros e Crônicas.

São estas as principais festas descritas: A noite de Natal, A véspera de Reis, São Sebastião, O entrudo, O carnaval, Quinta-feira santa, Sexta-feira da Paixão, A festa do Divino, A procissão de São Jorge, A véspera de São João, O Dois de Julho, O Sete de Setembro, O dia de finados.

Por este quadro bem claro se vê que destas festas apenas em cinco (Natal, Reis, São João, O Dois de Julho e Entrudo) há folganças de cunho verdadeiramente popular.

As outras são festas de igreja e festas patrióticas, queridas do povo é certo; mas onde ele é simples espectador.

Melo Morais tem em alta escala o sentimento nacional; porém nunca saiu da cidade da Bahia, onde passou a infância, e da cidade do Rio de Janeiro, onde reside hoje, dois centros quase inteiramente impróprios para o estudo de tudo quanto se refere ao nosso povo.

Este só pode ser com proveito inquirido e investigado nas vilas e aldeias do interior, nas fazendas, nos engenhos, nos sítios agrícolas, nos sertões, nas praias de pescadores, etc. Melo Morais tem andado fora de tais recursos e meios de análise.

Tudo quanto é possível colher aqui no Rio entre as classe proletárias, ciganos, negros, velhas pedintes… Ele tem procurado entesourar. Isto não basta. Ele não viu nunca o povo no seu trabalho, nem no seu folgar no interior do Brasil.

Nunca viu um potirão para fiagem do algodão, uma botada de engenho, umas partilhas de reses em fazendas de criar, um campear de vaqueiros, uma derrubada de matas, uma emenda de pescaria, uma viagem em canoas ao longo de extensos rios, um safrear de farinha ou de açúcar, um plantio e colheita de legumes, enfim um qualquer desses afazeres do nosso povo em seus trabalhos, em suas indústrias locais.

Também não viu ainda o povo divertir-se; não viu um samba com as suas mil cantigas e suas vinte danças diversas, uma festa de casamento na roça, um bando de Congos em dia de Reis, um bando de Taieras em dia de Natal e Ano Bom, um Bumba-meu-boi feito em regra, uma festança de Mouros, de Marujos, um auto do Cavalo-Marinho, do Zé do Vale, do Antonio Geraldo, do Cego, da Cabrinha, etc. etc., ainda hoje representados no Norte, e em menor escala no sul do Brasil.

É pena que o poeta e imaginoso escritor, com a perspicácia de observação de que é dotado, não haja tido amplos ensejos de estudar o povo, onde ele se apresenta estreme, puro, original, não mesclado às classes aleatória da Capital Federal.

Dispondo apenas dos recursos que pode aqui encontrar, é admirável que haja conseguido tantas informações, como aquelas que se nos deparam nas Festas Populares e nos Ciganos do Brasil.

O autor tem recorrido a velhos do norte, residentes nesta cidade, e por via tradicional construiu alguns artigos de seu livro das festas. Por esta forma descreveu muito bem, por exemplo, o brinquedo dos Congos, também chamados – Cucumbis.

(ROMERO, Sílvio. História da literatura brasileira)

Festas e tradições
populares do Brasil

Festas populares
Casamento na roça (Rio de Janeiro) *
Ano-Bom *
O Carnaval (Rio de Janeiro)
A festa do Divino (Província do Rio)
A noite de Natal (Bahia) *
A véspera de Reis (Bahia)
A procissão de São Benedito no Lagarto (Sergipe)
A véspera de São João *
O 2 de julho (Bahia)
O entrudo (Bahia)
O 7 de setembro
A festa da Penha (Rio de Janeiro) *
Os cucumbis (Rio de Janeiro)
A festa do Divino (Corte)
A véspera de São João (Sergipe) *
Reisados e cheganças *

Festas religiosas
As Santas Missões
São Sebastião (Fundação da cidade do Rio de Janeiro)
A festa da Glória
As encomendas das almas
Corpus Christi (A procissão de São Jorge)
Quinta-feira Santa
Sexta-feira da Paixão (A procissão do Enterro)
Preces para pedir chuva *
O dia de Finados (Rio de Janeiro)

Tradições
A festa da Moagem (Província do Rio)
Um casamento de ciganos em 1830
Motins da anarquia
Episódios da Regência
A festa dos mortos (Alagoas)
Nosso-Pai
O enforcado
A coroação de um rei negro em 1748
Na terra e no mar
O Valongo
Um funeral moçambique em 1830
Lucas da Feira
O navio negreiro
Cemitério e monumentos

Tipos de rua
Capoeiragem e capoeiras célebres (Rio de Janeiro)
O capitão Nabuco
O Estrada de Ferro
O filósofo do cais (Dr. Memo Morais, pai)
A Forte-Lida
O Miguelista
O Policarpo
O Bolenga
O Picapau
O padre Quelé
A Maria Doida
O Praia Grande
O Barreto Bastos
O Chico Cambraia
Não Há de Casar
O Tomaz Cachaço
O Castro Urso
O príncipe Natureza
O Maia da Praia Grande
O doutor Pomada
O príncipe Obá

(* Textos reproduzidos na Jangada Brasil)

*  *   *

… Pelo que toca especialmente ao autor desta bela obra, posso dizer que, por mais que tenha de ser acidentado o caminho do Brasil através dos tempos, quaisquer que tenham de ser as desilusões que os destinos históricos lhe reservem, a nossa raça há de sobreviver no futuro, e, lá bem longe, quando os sondadores do passado houverem de rastejar o fio de ouro de nossas tradições, quando houverem de estudar o povo, não no ruído das batalhas e nas chicanas da política, mas sim nas efusões da alma, nas energias do sentimento, os dois livros de Melo Morais Filho, onde seu coração palpita inteiro, suas poesias, que todas podem receber o nome único de Cantos do Equador, suas descrições de costumes, que todas podem ter o nome só de Festas e tradições populares do Brasil, hão de ser chamados a depor, como documentos autênticos; porque neles vive a grande alma deste país; porque intrepidez, que é o gênio lusitano transfigurado na América.

Salve! poeta adorável, que desprezaste as lantejoulas da moda, para continuar a amar o sol de tua terra e enfeixar em tua palheta o brilho de seus raios! O teu amor te salvou!

(ROMERO, Sílvio, no prefácio de Festaa e tradições populares do Brasil)

Os ciganos no Brasil

I. Atualidades e tradições
II. Trovas ciganas
III. Novo cancioneiro
IV. Vocabulário
Sud-Américan
Notas e adições

Cancioneiro dos ciganos

Cancioneiro dos ciganos e A genealogia de seu caráter poético
I. Líricas – Kambulins
II. Elegíacas – Kachardins
III. Funerárias – Merendins. Cantiga. Numa urna
Espécimes do dialeto calmon: De uma filha à sua mãe. De um filho ao seu pai
Notas
Os ciganos: contribuição etnográfica por Melo Moraes Filho. Por Sílvio Romero

Serenatas e saraus

Volume I
Bailes pastoris
Reisados e cheganças
Lundus e modinhas de Caldas Barbosa

Volume II
Atualidades: Recitativos
Diálogos e monólogos
Cançonetas
Cenas dramáticas
Cenas cômicas

Volume III
Hinos
Modinhas diversas

 

 

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