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Não olhe para trás!...
A Rossini Tavares de Lima

- Salva animam tuam: noli respicere post tergum. (Gênesis, XIX, 17)

A única recomendação feita pelos dois anjos do Senhor ao patriarca Lot para quando abandonasse Sodoma, condenada ao enxofre e ao fogo do Céu, é que não olhasse para trás. Salva tua alma, não olhes para trás!...

Quando deixavam a cidade maldita, a mulher de Lot voltou-se, mordida de curiosidade. Respiciensque uxor ejus post se, versa est in statuam salis (Gênesis, XIX, 28). Tornou-se uma estátua de sal.

Na ciência misteriosa das Iniciações, dionisícas, eleusianas, herméticas, as várias direções significavam destinos, funções permanentes da ação humana no tempo. Com a face velada ou com olhos fechados o iniciado caminhava através da treva tentado pelas vozes ciciantes ou ameaçadoras, gritos, impropérios, promessas, juras, pedidos, súplicas, pavores. Era preciso continuar no passo igual e confiante, como uma materialização da alma serena e fiel à impertubalidade da certeza absoluta, acima da indecisão, da vaguedade e da dúvida. Para frente era o Futuro, a Revelação. Para a direita a Força, o Bem, a materialidade da vida orgânica, diária, sem altura mas sem vícios da condenação. Para a esquerda, sinistra, o Mal, o desequilíbrio, a inversão, a desordem, a confusão (Mateus, XXV, 34, 41). [1] Para trás o Passado, o pecado, o regresso, a irresistibilidade ao Mal, a renúncia às forças elevadoras do Espírito. O iniciante que se voltasse para trás era indigno da Verdade e seria restituído ao seu estado espiritual anterior. Era incapaz de "conhecer". Estava sem direito de aproximação à Sabedoria.

Na tradição popular e quase universal de atirar-se um dente de criança ao telhado pedindo-se outro, o dente é atirado por cima do ombro, para trás das costas.

O professor doutor J. R. dos Santos Júnior que estudou o arremesso dos dentes [2] escreve: "Como caráter fundamental e quase geral aparece o do arremesso ‘para trás das costas’. Não pode também deixar de se ligar a este fato a significação que lhe é própria. É sobejamente conhecida a significação supersticiosa que o povo dá aos diferentes lados, direito, esquerdo, frente ou dianteira e atrás. O lado direito é o lado da força, é o lado bom e forte. O lado esquerdo é o lado mau e fraco. Para diante é o futuro. Para trás o passado. Muitas práticas se fundam e se baseiam num arremesso para trás das costas, quando se pretende fazer esquecer qualquer coisa, ou mesmo com outra finalidade". Em Ezequiel, XXIII, 35, lê-se: "Portanto assim diz o senhor Jeová: porquanto te esqueceste de mim, e me lançaste para trás das costas".

É a intenção das iniciações de Eleusis. Olhar para trás era voltar ao Passado, o voto ao esquecimento. Destruía o encanto benéfico que agia sem a percepção do iniciante.

Um dos deuses - heróis ameríndios é Poronominare na indiária no Rio Negro no Amazonas. Poronominare parece ter vindo da Venezuela, dos Maipures do rio Orenoco, pelo Cassiquiari e daí espalhado no Rio Negro e afluentes, Uaupés, Apaporis, etc. Lembra o Macunaíma dos caribes ou o Baíra dos indígenas Parintintin do rio Madeira, heróis bem humorados, zombeteiros e amigos de brincar com a paciência do próximo. Poronominare num ciclo de diabruras adoece e o Boto (Delfinida) vai curá-lo. A indicação é apenas uma: Tu te hás de sentar naquele pau, não hás de olhar para trás! Reuapyka Kuri nhaa myrá resé, nty kuri remaan sakakuera kyty. [3]

O "mestre de terreiro", "pai de santo", macumbeiro, feiticeiro, babalaô, babalorixá que faz uma muamba, despacho, ebó, coisa-feita, cangerê mandinga, feitiço, deixa-a numa encruzilhada ou na porta da vítima ou, sendo apenas para livrar-se da infelicidade, do mau-olhado, do "atraso", depositada em qualquer lugar, mas sem olhar para trás. Se olhar conduzirá todos os maus fluídos, as influências maléficas, o "peso", a infelicidade que juntara no feitiço abandonado. Todos os males voltarão à pessoa do consulente ou mesmo do "mestre", do babalorixá, pelo olhar lançado para trás. O olhar estabelece o mesmo contato físico com o feitiço como outra qualquer parte do corpo humano. E, pelo contágio, o feitiço atua...

Há uma superstição universal sobre a transferência de males. É possivel transferir às pedras, ramos, troncos de árvores, frutos, tudo quanto sofremos. Friccionam a parte molesta ou dorme-se com fios de algodão ou pedaço de pano envolvendo o membro doente. Noutro processo são fragmentos de unhas, cabelos, gotas de sangue, saliva, urina ou outra secreção humana enrolados em tecidos. O conjunto, bem amarrado e seguro, é levado para uma árvore ou reentrância de pedra e aí abandonado, em certas horas "abertas", meio-dia, crepúsculo, meia-noite etc., e volta-se para a casa sem olhar para trás. Olhando, a doença, a enfermidade, a infelicidade, reacompanham quem pretendia livrar-se desses males. A recomendação essencial é sempre a mesma: não olhe para trás!

Nos anos em que vivi no sertão do Rio Grande do Norte, muitas vezes vi fazer pessoalmente a transferência da fadiga para uma pedrinha. A pedra era untada de saliva e esfregada no calcanhar, onde está a resistência da marcha, e depois atirada bem longe, por cima do ombro, por cima da cabeça, transcaput como aconselhavam os sacerdotes romanos, para que não fosse possível mais vê-la. Se, casualmente ou por brincadeira alguém apanhava a pedra e atirava para frente, onde fosse vista por quem a jogara, a transferência não era possível e a fadiga continuava. Se não fosse vista a pedra, o cansaço ficaria em quem a tinha tocado. Na Grécia e em Roma todos os resíduos e sobras da cerimônia da purificação, por alguém ter tocado num cadáver, num feitiço, num objeto impuro, eram reunidos e durante a noite atirados ao rio ou ao mar. Esse conjunto se dizia purgamenta porque purgar-se era purificar-se, limpar-se da impureza. Essa purgamenta era atirada por cima da cabeça, transcaput, para que não vista. Se fosse deixada numa encruzilhada o portador fugia rapidamente sem olhar para trás. Quem a tocasse, mesmo acidentalmente, com o pé, recebia todos os males que o processo da purificação retirada da pessoa que a ele fora submetida. Por isto a velha Proselenos pergunta ao impotente personagem do Satyricon, CXXXIV, se o doente não tropeçara durante a noite numa purgamenta, atirada na encruzilhada; aut quod purgamentum nocte calcasti in trivio?

Vergílio, Eclogas, VIII, repete, fiel à tradição:

Fer cineres, Amarylli, foras, rivoque fluenti,
Transque caput jace: nec respexeris...

Um velho e esquecido tradutor de Vergílio, e tradutor em verso de oitava rima, José Pedro Soares, professor em Ponta Delegada (1800), esclarecia: [4]

Nesse rio, que de correr não cessa,
As cinzas, Amaryllis, deita fora,
Para trás, e, por cima da cabeça,
Sem para trás olhares sem demora:

Por isso nas iniciações mais famosas da Grécia, nas grandes Dionísicas do mês Elefebolin e nas de Eleusis, no mês Boédromion, não se olhava para trás quando da marcha simbólica para o futuro, para o conhecimento, para a sabedoria. Os demônios do medo, do pavor, do assombro seguiam silenciosamente, tendo apenas força sobre quem se voltasse para trás, para o passado, a noite, a treva, o pecado, a impureza, o vício.

Frobenius [5] lembra que os caçadores de leopardos do Kordofan não olham para trás evitando que as feras os sigam. No Brasil o preceito é idêntico para os caçadores. E, no ponto de vista religioso, do puro terror-religioso, ainda sobrevive a frase popular "Quem olha para trás s’assombra!" Aconselha-se comumente para quem viaja sozinho em estrada deserta que não se volte. Voltando-se ao menor rumor, olhando repetidas vezes para trás, fatalmente evaporar-se-á a coragem e o pavor aparece como um companheiro indispensável e fiel.

Se o iniciante nos mistérios de Dionísio ou de Deméter perderia tudo olhando para trás é porque esse gesto significava a impossibilidade espiritual de uma definitiva conquista da Sabedoria. Um episódio numa ilha do arquipélago do Taiti, na oceânia, endossará a mesma mentalidade. E trata-se de fato documentado e divulgado em revista técnica.

"Citarei a narrativa feita pelo coronel Gudgeon de uma cerimônia em que tomou parte na Kaietea, ilha da sociedade, a 20 de janeiro de 1899. O fogo foi aceso ao romper do dia sobre uma plataforma, espécie de forno formando com grandes pedras, cerca de 3,60 metros de diâmetro. O mágico-sacerdote, pelas duas horas da tarde, o fogo ardia desde a manhã, foi para perto do forno com o seu acólito e pronunciou algumas palavras, do que os dois bateram por três vezes o bordo do forno com um galho de ti, espécie de dracena. Esta cerimônia repetiu-se por três vezes e os operadores atravessaram o forno, pisando as pedras ardentes. O feiticeiro disse então ao Coronel: Eu vos transmito o meu Mana, poder, podeis conduzir os vossos amigos através das pedras! - O coronel e os seus amigos, o doutor W. Craig, o doutor George Craig e Mister Goodwin passaram por cima do forno ainda em vermelho vivo. Um apenas se queimou: contrariando ao rito ele havia olhado para trás quando passava". [6]

O olhar dirigido para trás interrompeu a cadeia do Mana como secionária o wakan, a orenda, o mulungu, o wong, o imunu, toda a sinonímia da força espiritual suscetível de determinar o bem ou o mal pela vontade de seu possuidor.

A nenhum mortal seria dado o direito de ver frente-a-frente o reino triste dos mortos. A posição devia ser, ritualmente, de costas voltadas para a região que Proserpina governava. Assim a feiticeira Circe ensina a Ulisses quando este quer ouvir a profecia de Teresias no inferno. Aberto o fosso, sacrificadas as vitímas, o herói, com a espada cintilante para afastar os fantasmas, devia ficar de costas voltada para o abismo negro de onde emergiam os espectros guerreiros e as fisionomias geladas.

O conselho de Circe é que Ulisses não olhasse para trás, para o reino da morte. E o herói obedeceu. [7]

No Édipo em Colona, Sófocles recorda a proibição sagrada. O coro ensina ao cego Édipo como fazer a oferta expiatória às Eumenidas. Fará as libações com as crateras cheias de água e mel. Espalhará, à direita e à esquerda, três vezes nove ramos de oliveira. Orará mentalmente. O supremo cuidado, a instrução mais séria é sempre a mesma: Retira-te em seguida sem voltar a cabeça!... [8]

Alcmena consulta o adivinho Terésias sobre o que deve fazer dos corpos das duas serpentes estranguladas por Hércules ainda no berço. Terésias manda queimar as serpentes na mesma hora em que tinham vindo matar o semi-deus, recolhendo as cinzas e, pela madrugada, uma serva fiel iria lançá-las do alto das rochas além da fronteira na água corrente do rio. E que ela regressasse sem voltar a cabeça, advertiu o mago no XXI Vidílio de Teócrito. [9]

Nas Coéforas, Ésquilo faz Electra citar o sacrifício expiatório diante do túmulo de Agamenon: "deverei, porque meu pai pereceu por um crime, espalhar em silêncio este líquido sagrado e, como nos sacrifícios expiatórios, atirar longe, trás de mim, este vaso e fugir sem voltar os olhos?" [10]

Nas estórias populares, contos de fadas, contos de encantamento, os universais folktales, vários episódios ressaltam a proibição milenária. Príncipes e guerreiros, meninas corajosas e órfãs destinadas a casar com o filho do rei, resistem à tentação de voltar a cabeça, olhando para trás. Em caso contrário a morte ou o ridículo perpétuo serão as recompensas da desobediência.

Já no século II a tradição cristã era a oração dirigida para o oriente. O sacerdote presidia o culto como atualmente na direção onde nasce o sol, a luz, o futuro, a vida incessante. A capela-mor é orientada, como diz o próprio vocábulo, neste sentido do oriente. Está o alto-mor contra o Oriente para que o oficiante fique diante do leste e de costa para o oeste. Toda a assistência dará a frente para onde nasce o dia e não olhará para trás durante a cerimônia sagrada porque atrás é o crepúsculo, a morte da luz, o pôr-do-sol, o berço da noite.

Nas aulas domésticas de boas maneiras um conselho indispensável era o não olhar para trás quando estivesse na rua. Um índice das moças deseducadas era o hábito de virar-se quando andavam. Símbolo de mau ensino e curiosidade má.

A palavra de conselho e direção dada pelos sacerdotes de Dionísio, de Deméter e de Hermes, Circe a Ulisses, o coro a Édipo, Tirésias a Alcmena, Electra no túmulo de Agamenon, uso de superstição do hábito que se fizera instintivo, praxe na suspeita da perda, em seu ouvido, das garantias e benesses, é na imensidade do Tempo e na diversidade dos idiomas, raças e civilizações, a mesma que os dois anjos do Senhor deram ao patriarca Lot na véspera do incêndio de Sodoma: Não olhe para trás!...

Noli respicere post tergum... E o tabu de Lot continua...


Notas:

1. Mateus, XXV, 34: "Dirá então o Rei aos que estiveram à sua direita: Vinde, benditos de meu pai, possuí por herança o reino, que, desde a fundação do Mundo, vos está preparado". 41: "Então dirá também aos que tiveram à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos". É o mesmo pensamento de Maomé no Alcorão (Paraíso e Inferno).

2. J. R. DOS ANJOS JÚNIOR. 'Nótula sobre o arremesso dos dentes', separata de Trabalhos da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, fasc. IV, v. V, Porto, 1932.

3. AMORIM, Antônio Brandão de. 'Lendas em nheengatu e em português', Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo 100, v. 154, p. 137, Rio de Janeiro, 1928.

4. SOARES, José Pedro. Eclogas ou Virgílio traduzido em português em verso rimado etc. Lisboa, Oficina de Simão Taddeu Ferreira, 1809, p. 55.

5. FROBENIUS, Leo. Histoire de la Civilisation Africaine, trad. H. Back e D. Ermont, 6ª ed., p. 66, Paris, 1936.

6. MAXWELL, J. 'La Magie', 109, Paris, sd. Article dans le Journal of the Polynesian Society, Mars, 1899, Wellington, Nouvelle Zéland, cité par Mr. Lang, The Fire Walk, Proceedings of the Society for Psychical Research, London, 1900, t. XV, p. 1-15.

7. HOMERO. L’Odyssée, chap. X. Paris, Ed. Flammarion, sd.

8. SOPHOCLE. Théatre, O Edipe Colone, p. 207, Paris, Ed. Garnier, sd.

9. THÉOCRITE. Oeuvres Completes, Les Idylles, XXIV, Le Petit Herakles, p. 181, Paris, Ed. Garnier, sd.

10. ESCHYLE. Theátre, les Choéphores, p. 247, Paris, Ed. Garnier, sd.

(CASCUDO, Luís da Câmara, Anúbis e outros ensaios.)

 

Ilustração de Marcos Jardim

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