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Os quiosques

Os primeiros anos deste século encontraram quiosques nos pontos mais corridos de nossas cidades. Lembro-me de alguns deles em São Paulo e Santos. No Rio de Janeiro, eram numerosos. Geralmente, estavam arrendados a modestos comerciantes portugueses que, vendendo sardinha frita em azeite, bolinhos de bacalhau, café em tijelas, vinhos em canecas e aguardente em "martelos", conseguiam amealhar grossa pecúnia. Seu concessionário era o barão de Ibirocaí, se não me falhe a memória. Na campanha movida contra ele, no desejo de livrar-nos da praga dos quiosques, a imprensa alcunhou-o de barão de "E-birou-quiosque"...

Em frente a cada estação de estrada de ferro havia um quiosque, às vezes, dois. O que ficava da estação do Norte era concorridíssimo. O mesmo acontecia com o da Luz, entre a estação da Inglesa e o Jardim Público. O do Largo do Brás, diante de Igreja em construção, reunia muita gente. A verdade, porém, é que todos eles tinham a mesma cara. Não passavam de uma construção circular, de madeira, com balcão para fora, à altura do peito dos fregueses. O teto, coberto de tábuas alcatroadas, ou telhas de zinco, era afunilado, com uma ventoinha a girar no alto. Alguns tinham toldo de lona, às riscas, como as demais casas de negócio. Outros, não.

Comia-se e bebia-se ao sol, à chuva.

No seu interior, um homem sem paletó, com as mangas da camisa sungadas ao alto, presas por elásticos, frigia bifes, lascas de fígado ou rodelas de batatas no fogareiro a gás.

Lá estavam também o bule de café, a vasilha de leite, o garrafão de vinho, o ancorote de aguardente. A freguesia que era constituída pela gente mais pobre do bairro, botava os cotovelos no parapeito e almoçava, jantava ou entornava copos oitavados de uma cachaça brava, que sabia a fumo e a pimenta do reino.

Nunca se viram quiosques sem fregueses. À roda de seu balção, comendo, bebendo, em conversa fiada, havia sempre homens descalços, em mangas de camisas, chapéu amarrotado no alto do cocuruto. Eram, geralmente, antigos escravos, vendedores de jornais, engraxates, carregadores, vendedores ambulantes, guardas-cívicas, cocheiros, leiteiros, vendedores de gasparinhos, vagabundos, vigaristas, secretas e filósofos, no tempo em que ser filósofo era usar cabelo comprido, roupa sebenta e unhas de luto fechado...

Ali se encontrava de tudo, se frigia de tudo, especialmente moscas, que formavam nuvens escuras sobre os pitéus expostos. Daí a sua designação popular de "frige-moscas". Mas muito alegres. Eram pintados de verde e estavam sempre embandeirados. Dava gosto de vê-los. No fim do século passado e começo do atual o uso dos símbolos nacionais não obedecia o regulamento, como hoje. Por isso, eles se tornavam garridos a poder de bandeiras. O essencial é que fossem bonitas. Arvoraram-nas sem que nem por quê. Quanto mais pobre o quiosque mais vistoso os pavilhões que desfraldava. Mas, como permanecessem dia e noite ao sol e a chuva, acabavam por tranformar-se em trapos nos quais era difícil distinguir as primitivas cores.

Não tinham nomes, como as casa comerciais. Não obedeciam à numeração das praças. Não publicavam anúncios nos jornais. Mas toda a população conhecia, assim como aos seus bigodudos proprietátios, ou arrendatários. Sua publicidade estava na aparência festiva, na concorrência incessante de fregueses, que disputavam um pedacinho do balcão, debaixo do toldo esburacado. E principalmente – naquele perpétuo cheiro de sardinhas fritas em azeite, que punha água na boca até mesmo da "gente boa", que passava a quatro metros de distância...

(SCHMIDT, Afonso. São Paulo de Meus Amores)

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