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As pombinhas dos telhados coloniais

Encontram-se ainda, em velhas residências construídas na época colonial e em algumas do primeiro império, mormente em Santa Catarina e sobretudo na ilha e na cidade de Florianópolis, a histórica vila do Desterro, certos enfeites, quer nas pontas das cumeeiras, quer nos quatro cantos dos beirais dos telhados, - com a forma de "pombinhas" ora em atitude de vôo, ora de repouso.

Julga-se, no geral, que esses enfeites não passam de remates estéticos, populares. Entretanto tal não acontece. Há, nessas manifestações de arte popular, finalidades de caráter religioso.

As pombinhas são um símbolo usado na igreja católica desde os tempos primitivos e a história religiosa está cheia de acontecimentos em que a pombinha, desde a bíblica mensageira de Noé, na barca ou arca, desempenha papel muito importante.

O padre Ernesto Ferreira em sua obra Ao espelho da tradição (Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores), relacionou grande número de acontecimentos de caráter religioso em que a pombinha aparece com manifestação especial de cousa extra-terrena.

Não é ela apenas o símbolo do Espírito Santo, mas foi também recomendada pelo Divino Salvador aos discípulos para que a imitassem.

"Animal simples e alegre", diz São Cipriano, a pomba vive ao lado do homem, procura as habitações humanas para seus poucos e aí nidifica, como verdadeiro símbolo de amor e candura.

Além da participação da pomba no Velho Testamento, na Era Cristã a sua importância cresceu e tanto mais que o próprio Cristo, como dissemos, a recomendou como digna de imitação, aos apóstolos.

Diz-nos o citado padre Ernesto Ferreira:

"No primeiro século da Era de Cristo nunca aparece a pomba sozinha nas representações alegóricas, mas juntamente com a cena do dilúvio universal. A partir do meado do segundo século, empregam-na ora aliada com outras figuras, ora insulada, como emblema da alma justa. Nesta última forma exerce papel brilhante na hagiografia. Quando Santa Júlia, a gloriosa virgem de Cartago, expirou crucificada, com o derradeiro suspiro saiu-lhe da boca uma pomba branca, que voou para o alto. Foi a sua alma cândida que subiu ao céu. Quando Santa Escolástica morreu, São Bento viu, da cela do seu convento, a alma de sua irmã elevar-se nos ares em forma de pomba. Em figura de pomba, ascendeu ao céu em 12 de fevereiro do ano de 304, Santa Eulália, a virgem mártir de Barcelona, vítima do ódio do cruel Daciano. Quatro anos depois, em 10 de dezembro de 308, foi martirizada outra virgem também chamada Eulália, natural de Emérita Augusta, capital da Lusitânia. Refere o padre Diogo do Rosário no seu Flos Sanctorum: "Gregório de Tours descreve um milagre que a referida santa cada ano costumava fazer no dia do seu martírio, porque algumas árvores que estavam sobre seu sepulcro e o cobriam, não obstante acharem-se despojadas das suas folhas, por ser no mês de dezembro, naquele floresciam e produziam umas flores que tinham a figura de uma pomba e cheiro muito suave; pelas quais, segundo o tempo em que saíam, entendia a gente se o seguinte ano havia de ser próspero ou estéril, e dava graças a Deus por um e suplicava à santa pelo outro, por que livrasse aquela cidade de calamidade". Em forma de pomba viu frei Antônio de Lisboa, quando ainda usava a murcia dos cruzios, subir à eterna mansão a alma de um humilde franciscano, na ocasião em que o ínclito taumaturgo português celebrava o incruento sacrifício no seu mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Depois da morte do bispo São Petrônio, foi eleito para lhe suceder seu irmão Marcelo pelo clero e pelo povo. Esta escolha confirmou-a o céu. Durante a cerimônia da sagração, apareceu repentinamente uma pomba, que, voando em volta de Marcelo, o acompanhou até a cadeira episcopal. No dia da sagração de São Maurilo, bispo de Angers, desceu sobre sua cabeça uma pomba. No dia em que foram martirizados Dionísio, Rústico e Eleutério, cuja festa se celebra a 9 de outubro, três pombas, tendo no peito, a letras vermelhas, estes nomes, pousaram no altar em que dizia missa um santo bispo. Cortada a cabeça de São Quintino, viram os circunstantes a alma do mártir voar para o céu sob a figura de alva pomba. Santa Joana D’Arc foi queimada em Ruão em 30 de maio de 1431. A alma desprendeu-se-lhe sob a forma de pomba".

Depois de citar outros fatos e de referir-se à terceira pessoa da Santíssima Trindade representada por uma pomba, e ao batismo de Cristo, no Jordão, onde também a pomba apareceu volitando sobre a cabeça do Redentor, refere-se o padre Ernesto Ferreira à denominação que Tertuliano deu, no segundo século, à igreja, ou melhor, aos templos cristãos: Domus Columbae – Casa de pomba, - casa do Espírito Santo.

Além de tudo isso, outros grandes santos e teólogos são representados com pombas ao lado, como São Gregório Magno que, segundo Santo Efrém, somente trabalhava em companhia de uma pombinha. E São Fabião foi escolhido papa por uma pomba que se sentou sobre sua cabeça quando tratavam da eleição para o sucessor na cadeira de São Pedro.

E assim muitos outros, em todo o curso da história religiosa, antiga, média e moderna.

Vemos, aí, claramente o simbolismo da pomba em matéria religiosa. E, como a própria casa de Deus foi denominada Casa da Pombinha, por Tertuliano, não ficava fora de mão recorrer também a esse simbolismo cristão para pedir as bençãos do céu para o lar. E a "pombinha" começou a aparecer nos telhados como súplica visível e constante à proteção divina.

Aliás, o ilustre sacerdote que citamos, o padre Ernesto Ferreira, falecido em 1943, diz-nos claramente das razões da pombinha simbólica no stelhados:

"Sendo muito viva nos Açores, - declara – e mormente na Ilha de São Miguel, a devoção ao Espírito Santo, de estranhar seria que ao seu culto não andasse associada a pomba simbólica. – Ainda hoje se vêem nas casas, quer de pobres, quer de ricos, tendo nos ângulos dos telhados remates do feitio de pomba a voar, recortados toscamente em telha pelos pedreiros, ou propositamente fabricados nas olarias. A estes remates, que terminam os beirais em saliência lanceolada, dá-se vulgarmente o nome de pombinhas".

Há, ainda, nos Açores, a Festa da Pombinha celebrada no domingo da Pascoela, sábado anterior e segunda-feira seguinte. A própria semana é denominada – "da Pombinha".

Esta festa, em São Miguel, teve origem numa cerimônia religiosa em ação de graças pela cessação de terrível epidemia que grassara em 1673, baseada no fato seguinte em que nos relata o padre Ernesto Ferreira, citado:

"Na Matriz da cidade e no altar de São Roque, houve missa cantada em ação de graças e sermão congratulatório. Eis senão quando, entrou, vinda de região ignota, uma pomba que assistiu a estes atos, pousada, parte do tempo no púlpito e parte no friso da capela, e saiu por uma fresta quando acabou a solenidade".

Foi isso, justamente, na segunda-feira depois do domingo da Pascoela.

À nímia gentileza da excelentíssima senhora dona Lídia Viveiros Leiria, senhora de boa cultura, micaelense de velha estirpe, devemos a gentileza de diversas informações e a da comunicação do trabalho do padre Ernesto Ferreira, e aqui lhe deixamos registrados os nossos agradecimentos. Cooperando assim para que os estudiosos, especialmente os catarinenses em cuja capital e cercanias ainda existem tantas casas com as simbólicas pombinhas, possam mais detidamente apreciá-las tendo por base sua origem tão bela e poética e tão cristãmente expressiva, pensamos numa tenaz campanha para ser reerguida, esta tão alevantada quanto artística simbologia.

Infelizmente em Porto Alegre, Bom Jesus do Triunfo, Taquari, Rio Pardo e outros povos fundados por açorianos ou por eles reforçados, já se não encontra mais dessas delicadas pombinhas, expulsas pelo "progresso" dos telhados laicos e chatos ou arrebicados à revolucionária, de nossas casas.

A época materialista cujo início data de meados do século passado, pôs fim a esse delicioso e delicado simbolismo e transformou, também, o almoço dos operários à sombra da "bandeira da pombinha", em festa da cumeeira" (que também já não existe, praticamente), celebrada à sombra de galhos verdes e palmas de coqueiro, como que significando que ali não se irá instalar um lar cristão, mas… um estábulo! Graças a Deus, porém, também o estábulo tem seu simbolismo cristão e os senhores materialistas querendo matar o cristianismo substituíram um símbolo por outro, embora não tradicional em casos tais, mas tradicionalíssimo nas festividades do Natal. E ainda bem que nem tudo se perdeu, graças à ignorância que tem, às vezes, dessas cousas…


(SPALDING, Walter. Tradições e superstições do Brasil sul)

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