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O cocheiro conta a sua vida
Cançoneta de Artur Azevedo


Meu nome é Chico Zé Marcondes
Sou português, nascido em Fão;
Como cocheiro, entrei pros bondes
Nove ou dez anos já lá vão
Que rache o frio ou chova sangue
Às três e pico estou em pé
No quiosque Nova Flor do Mangue
Tomando o belo café

Acabo de tomar o café… Tiro-me para a estação… vira… acende! Olha essa parelha! Lá vem o bonde por aí abaixo!

Estribilho
Olá, cocheiro!
Vem passageiro
Pára ligeiro…
Travou!
Parou!

Destrava o carro agora!
Fustiga os animais!
Multado és sem demora
Se rápido não vais

Brrrrr

Ah! Ah!
Pronto,
Eis-me no ponto!
Travou!
Parou!

Tenho atestados mil que provam
Que eu cá não sou nenhum novel
Há tempos fui de São Cristóvão
Mas hoje sou Vila Isabel
Nunca terei um desafogo
Quero dizer assim mais tal…
Se nunca for de Botafogo
Se nunca for Botanical

Tim! Um passageiro! Quem é? É o senhor visconde de Paratimirim? Tim! Uma passageira! Quem é? A senhora baronesa do Cajapió… Não é como na linha do Engenho Novo… Tim! É o seu aquele, empregado na Pagadoria das Tropas… ah! (Com um suspiro)

Estribilho
Olá cocheiro, etc.

É bolear minha cachaça
Vaidoso sou como um pavão
Não há dinheiro que me faça
Servir num bonde de tostão
Eu hei de dar muito cavaco
Se o meu destino inda quiser
Que eu leve um dia um bonde ao Saco
Ou mesmo o traga ao Carceler

Por um tostão, senhores, por um miserável tostão, que de maçadas! E depois, que ruas! De vez em quando uma carroça… Fica-se duas horas parado… "Descarregue isso, alma do diabo!" Espere, se quiser! Eu conheci um doutor que quando não tinha pressa, e queria fazer horas tomava um bonde de tostão! Como vai o pobre carro aos boléus por ali fora! A todo o momento, apito! Olha o andaime à direita! Que inferno!

Estribilho
Olá, cocheiro, etc.

Se um feliz carro de praça
Vejo passar ao lado meu
Nem mesmo um ar da minha graça
Nem um olhar lhe atiro eu…
No meu viver só me consterna
Bem francamente o dizer vou
Que, sem querer, mais de uma perna
Meu pobre bonde já quebrou

No dia seguinte a chapa nos jornais! "O cocheiro conseguiu evadir-se". Pudera! Se tem a gente de comparecer ao tribunal!… (Interrompendo-se e coçando a cabeça) Um… Um tribunal é isto… (Aponta para a platéia) Não consegui evadir-me… serei absolvido? Ora! Há de ser o que Deus quiser!

Estribilho
Olá, cocheiro, etc.

[circa 1900]


(BANDEIRA, Manuel; ANDRADE, Carlos Drummond de. Rio de Janeiro em prosa e verso)

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