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Iria, a vendedora de laranjas

Debaixo das esgalhadas gameleiras que sombreavam o cais do Capibaribe, na rua da Aurora, e em frente ao antigo Ginásio – que no governo do major Alexandre José Barbosa Lima passou a ser Instituto Benjamin Constant – estava diariamente a preta Iria, a amiga velha dos estudantes, fossem eles simples calouros (cascabulhos) ou veteranos.

Má negociante

Houve tempo – muito pouco tempo, aliás – em que ela se sentava em frente a um pequeno tabuleiros, com uma dúzia de bananas, meia dúzia de laranjas e alguns tamarindos azedíssimos, fazendo ali a sua mercância. Não tinha, entretanto, bom tino comercial e não tardou em "ir à falência", isto é: não ter mais capital para negociar!

Seu coração era maior do que o seu interesse mercantil. Cheia de boa fé nos seus turbulentos fregueses – os estudantes - lhes vendia a crédito, fiado ou melhor: fiada na lisura dos compradores. Eles, porém, no seu pitoresco dizer, viviam, geralmente, lisos, isto é: sem dinheiro, com os bolsos lisos do "metal sonante".

Havia ainda a categoria dos fregueses que se "esqueciam" de pagar o que compravam e ainda aqueles outros que tinham o hábito de "não pagar as contas antigas" e… quanto às novas, deixavam que envelhecessem…

O caso é que, ao lhe perguntarem, após a "falência", pelas suas quitandas, ela dizia, erguendo os ombros e com um muxoxo muito significativo:

- Quar nada! Não vale a pena. As fruta fica podre e ninguém compra. E quando compra não tem dinheiro pra mor de pagá… Pra que ateimá?

E soltava uma boa gargalhada, como fazendo pouco caso dos prejuízos que tivera.


As laranjas da Sabina

Mais feliz do que a Iria, pernambucana, foi a Sabina, simpática baiana que fazia "ponto" sob as árvores frondosas da antiga praia de Santa Luzia, ao tempo em que a Faculdade de Medicina era ali situada, no fim (ou princípio?) da rua da Misericórdia, junto à Santa Casa.

Ficou popularíssima. Foi decantada em verso e música, conseguindo até a "glória da ribalta", pois os autores das "revistas de fim de ano" a incluíram entre as figuras que desfilavam no palco, quando o coro que representava os estudantes, cantava:

- Laranja da China
Maçã, cambucá
Eu tenho de graça
Que a preta me dá
Estudante de medicina
Não passa
Sem as laranjas
Sem as laranjas
Da Sabina…


Os "gazeadores"

Sempre houve e haverá, entre os estudantes, aqueles "gazeadores" das aulas, aqueles que não comparecem, muito embora saiam de casa… para irem às aulas.

Uns mais, outros menos, raros são os que não faltam, principalmente quando não preparam as lições do dia…

Eu – modéstia à parte – era dos que menos gazeavam, tendo um pequeno grupo de que faziam parte José Servilio de Araújo Lima, Jaime Tigre de Oliveira, Antônio de Sá Leitão, Ermírio Brandão e poucos outros mais.

Desses, apenas restam vivos eu e Ermírio Brandão, que mora na rua Benfica, na Madalena, segundo me informaram.

Quando, por exemplo, havia uma aula "enforcada" entre duas outras e da qual o respectivo "lente" faltava, era quase certo faltarmos também àquela que se lhe seguia, fazendo uma "gazeta", ou matando a aula, como os vadios dizem hoje.

Habitualmente seguíamos pela rua da Aurora em direção ao istmo que ligava o Recife a Olinda. Antes passávamos na Padaria Pilar, hoje grande fábrica de biscoitos, no largo que ainda tem esse nome, e fazíamos uma provisão de biscoitos para irmos comendo pelo caminho. Raras vezes passávamos além da velha fortaleza do Buraco, hoje quase em completa ruína. Ali ficávamos palestrando e comendo o resto dos biscoitos-pilar, até à tarde, quando voltávamos ao Ginásio.

A fim de que os livros não nos servissem de estorvo no passeio, os deixávamos guardados com a Iria que, ao voltarmos, no-los devolvia sem a menor falta, porém nos censurando:

- Gente sem juízo! Em vez de ir estudar vão pra vadiação o dia inteiro! De outra veiz que vocês gazearem eu não guardo livro de ninguém!

Mas não cumpria a ameaça a velha preta Iria. Quando íamos a outra "gazeta" ela sempre nos guardava os livros, embora disesse sempre:

- Essa é a última veiz. Tão entendendo? Ninguém conte mais comigo pra isso, não; que eu não guardo livro de ninguém!

Um dos grandes amigos da Iria era o saudoso Pedro Ernesto, o inesquecido prefeito do Distrito Federal, e com quem ela conversava sempre, dizendo que a vida era boa, a gente é que não sabia aperceiá o que Deus nos mandava de bom na vida.

Sem ser "catedrática", a velha preta Iria, a todos dava licões de otimismo, sendo, ela própria, um exemplo de que nada ambicionava neste mundo, nem sentia inveja de quem quer que fosse, pois se julgava feliz, nada tendo de seu, senão, como ela mesma o afirmava: "A noite, o dia e as Ave-Maria!"

Se o "reino dos Céus é dos simples de coração e dos pobres de espírito", a Iria deverá já estar lá, com certeza, repetindo aos anjinhos peraltas:

- Não contem mais comigo pra guardar os livros de anjo vadio! Comigo, não!


(WANDERLEY, Eustórgio. Tipos populares do Recife antigo)

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