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Olaria Na região norte-mineira do Vale do Rio São Francisco forma a cerâmica o apanágio de algumas familias, particularmente das mulheres. Herdaram o ofício de suas avós, na maioria descendentes dum ramo indígena, e o trasmitem às filhas e netas. São conhecidas por paneleiras, nome um tanto desacorde com a multiplicidade do que fazem do barro, grossseiramente, é certo. Além de panelas modelam cuscuzeiros, potes, candeeiros, tigelas, pratos, farinheiras, quartinhas, botijas, torradores de café, cachimbos, pedras de forno, tachos, jarras para flores, canos, filtros e banheiras.Nas cercanias de Januária fabricam boas louças, principalmente com argila extraída de Poções, Moradeiras e Boqueirão. Mas o grande centro produtor fica a sete léguas a norte da cidade, no lugar denominado Candeal, que possui grandes reservas de excelente barro, e as mais famosas paneleiras. Antes de levantarem uma vasilha experimentam a liga do barro, se não o conhecem. Neste particular adotam vários meios, como apertar entre os dedos certa porção daquele a ver se moldam as impressões da mão, ou dele fazer biscoitinhos, a ver se estes não se fendem na operação, que são circunstâncias favoráveis. Quando o barro é muito forte, ou muito fraco, recusam-no. Ou, se não houver outro, abrandam-no com areia, na primeira circunstância, e robustecem-no com esterco de curral, ou pó de cacos de telha ou de quaisquer outros objetos de barro cozido, no segundo caso. Escolhida a argila, ou convenientemente temperada esta com a mistura adequada, a mesma é preparada para os trabalhos, não raro levada ao pilão e à peneira, só depois amassada. Para tanto e para a modelagem utilizam-se de gamelas para barros, água, tintas e misturas, de cacos de cuia, sabugos, pedaços de sola, facas, pincéis, sementes de mucunã, molambos e tampos de madeira. Cada um destes últimos serve de suporte a cada vasilha que se levanta, e os demais para o serviço de modelagem e decoração. Pode esta ser feita antes ou depois da queima, neste caso por meio de tintas, e, naquele, aplicando-se enxertos de barros diferentes, bem combinados, e distribuídos na parede do vaso, no mesmo plano ou formando relevo, baixo ou alto. Na decoração a tinta empregam anilina, que é adquirida no mercado, ou mais comumente usam o tauá dissolvido nágua. Também empregam tintas extraídas do jenipapo, do urucú, e o lacol, que é a de uso mais vulgar na região. Debuxam riscos os mais variados por meio de pincéis de cabelo ou de algodão, de fabricação própria. Pequenos objetos de barro enegrecem, queimando-os com esterco de curral acamado dentro de um buraco feito no chão. E os tornam brilhantes se ao esterco adicionarem pó de resina de jatobá. Queimam os vasos em fornos próprios, rudimentares, ou mesmo nas caieras de assar tijolos, caso em que deitam as louças de barro sobre algumas pilhas daqueles, o quanto possível afastadas do braseiro. Segundo a prática, várias causas podem determinar a perda de louças sob o calor do forno, principalmente barro muito forte ou muito fraco, bolhas de ar na intimidade das paredes dos vaso, ou apressada enfornação, isto é, queima dos objetos antes de convenientemente secos à sombra. Ou ainda por falta de prática de quem é encarregado de atear fogo ao forno, uma vez que o primeiro "a gente deve alentá as loiças pá odispois quemá". Outras influências podem frustar o bom êxito da produção, como tirar o barro ou queimar a louça por ocasião do quarto minguante, ou da lua nova. Segundo acreditam, com o barro extraído em qualquer dessas fases ninguém conseguirá "levantar a loiça", e ainda que o consiga os objetos com certeza se racharão dentro do forno. Acreditam mais que olho ruim pode fazer o barro "virá um bofe qui num hái queim alevanta nada".
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