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Da arte de fazer cuscuz

"Quem fala em mingau, fala em cuscuz"- é o raciocínio de um leitor que se assina apenas de Bedengó. Nome ou pseudônimo? "Gostaria de ler alguma coisa sobre a mulher do cuscuz, freguesa que durava muito mais tempo, porque o trabalho era mais fácil". Seria mesmo, seu Bedengó?

Antigamente, fazer cuscuz era uma arte. O seu preparo, em muitas ocasiões, principiava de véspera. O milho ou o arroz tinha de ser posto de molho para amolecer. No dia seguinte, ou melhor, na madrugada seguinte, alguém acordava antes do sol nascer para ralar na pedra ou socar no pilão o milho. Poucas mulheres utilizavam o pó de milho comprado já pronto em uma tulha qualquer... O gosto era o mesmo, apesar de ficar algumas horas dentro d’água para tomar corpo e cozinhar melhor. E dava mais trabalho, porque tinha de ser escorrido num pano e pendurado a ensombrar, até o ponto de poder ser assado para não formar grumos.

O arroz podia ir para a pedra ou para o pilão, mas havia quem usasse uma garrafa ou uma bilha (no caso apenas um rolo de madeira de abrir massa) para esmagar o arroz inchado espalhado sobre um pano grosso. O inhame dava menor trabalho, mas tinha de ser aferventado, esfriado, para depois ser ralado.

Ralar coco nunca foi tarefa fácil. Quebrar, descascar, lavar e ralar. Quando era cuscuz sem compromisso, dentro de casa, sem preocupações de agradar ou não a quem comesse, o coco podia ser, depois de lavado guardado dentro de uma vasilha com água, para posterior ralação. Também podia ser ralado de noite, salpicando-se um tantinho de sal moído por cima para não azedar. Mas cuscuz para vender exigia tudo fresquinho. Tudo do mesmo dia.

Tirar leite de coco tinha ou ainda tem sua técnica. O leite sem água conseguia-se, como hoje, pondo-se as porções do coco ralado dentro de um pano e apertando-se muito bem, até encontrar o líquido alvo e saboroso. Conforme o mister a que se destinasse, levava, e ainda leva, água quente ou fria. Água quente, não muito quente, mais para morna, para iguarias que dependessem da gordura de coco para amaciar a massa. Água fria para determinados tipos de mingau ou canjica e até o cuscuz de inhame-fubá, por exemplo.

O leite tirado com a primeira água era reservado para ser fervido com sal e açúcar. O bagaço que ficava era, então, misturado na massa. Bem espremido, se fosse para cuscuz de tapioca e um pouco úmido se para milho, mandioca ou inhame. Quanto trabalho dava esbrugar o bagaço até ficar soltinho...

Pronto o bagaço, pronto o fubá ou o que fosse, era iniciada a fase de mistura em que os dedos tinham função precípua. Além de mexer tudo muito bem, uniformizando a distribuição do sal e açúcar, os dedos tinham o dever de sentir o grau de umidade requerido para que saísse um cuscuz correto.

Era a hora do cuscuzeiro de barro com um guardanapo ou toalhinha fina à guisa de forro. As profissionais de quadrado, nem muito grossos nem muitos finos. A massa ia sendo colocada num jeito todo especial, as palmas das mãos se movendo uma contra a outra, esfarinhando tudo para não formar batoques. Acabada a operação e coberta a superfície da massa com as pontas do pano ou guardanapo, o cuscuzeiro era adaptado à boca de uma panela de barro cheia de água até certa altura. A calafetação era feita para evitar que escapasse algum vapor d’água quando fervesse, utilizando-se para tal fim um pouco de farinha de guerra molhada.

Aquela traficânia, recoberta com um testo de barro era levada ao fogo. O cuscuz de tapioca, mal fervia, era retirado do cuscuzeiro para evitar que ficasse grudado, esperando-se que esfriasse para fazer furos com o auxílio de uma faca, introduzindo-se neles colheradas do leite reservado. Era para inchar. Se de arroz ou de milho, tinha de se esperar que cheirasse bem, descobrindo-se a massa de vez em quando, batendo com a polpa dos dedos estirados, para ver se dava aquele som oco de cuscuz cozido. O de milho, ainda quente, recebia um tanto de leite por cima e através os furos produzidos por uma faca. Era para não ressecar.

Uma mulher de cuscuz vendia em média três ou quatro, numa manhã. Quase sempre de manhã. Raro de tarde, e a não ser por encomendas ou nas feiras, mercados ou quiosques existentes em vários pontos da cidade. Cuscuz feito com milho verde de espiga debulhada em casa ou com arroz pilado em casa. Carimã novinha, chegada das muitas roças existentes em Brotas, Federação, Cabula e Retiro, Cruz do Cosme, Rio Vermelho e Portão. Tapioca fornecida pelo tabaréu que entregava, em dias certos, litros e mais litros de farinha alva, torrada, novinha. Inhame arrancado na véspera, novo, leitoso, macio, tão alvo que dava pena ter de ser transformado em cuscuz. Cuscuz de trinta centímetros de diâmetro por quinze centímetros de altura.

A mulher do cuscuz, com sua gamela ou seu tabuleiro na cabeça, vendendo de porta em porta as saborosas talhadas, ou no fundo de sua casa despachando a freguesia que vinha com o prato e a moeda buscar um quinhão, deixava que sua vida se ruminasse naquele eterno acordar madrugador. Assim, muitas delas comeram e beberam, criaram filhos e compraram casa.

As de agora simplificam a técnica, mas não demonstram maior paixão pela profissão. Não fazem daquilo profissão. Apenas um bico para quem não está bem de vida e tenta se equilibrar. A mulher do cuscuz, assim como a mulher do mingau, perdeu a sua fisionomia, a sua personalidade. Será que ainda existe discípulas daquelas mulheres que faziam cuscuz de milho sem precisar recorrer à mistura com farinha de guerra?


(VIANA, Hildegardes. A Bahia já foi assim; crônicas de costumes)

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