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Trovas

Atirei um limão verde
Na janela do meu bem
Deu na clara e na morena
E na mulata também

Eu fui lá não sei aonde
Visitar não sei a quem
Sou assim não sei como
Morrendo não sei por quem

O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou

A mulher se espirrasse
Toda vez que nos ilude
Vivia o mundo ocupado
Só em dizer: Deus te ajude!

Três coisas velhas são boas
Pote, sapato e café
Três eu gosto bem fresquinha
Água, paçoca e mulher

Moça bonita é veneno
Mata tudo que é vivente
Embebeda as criaturas
Tira a vergonha da gente

Dizem que o mate afoga
As mágoas do coração
Mate sobre mate tomo
As mágoas boiando vão

O amor tem vista curta
E vê tudo de feição
Diz que é pálido o mulato
Diz que é moreno, o carvão

Seja menos confiado
Sua cara de pamonha
Bem que diz lá o ditado
Quem ama não tem vergonha

Quem quiser ser bem querido
Não se mostre afeiçoado
Que um afeto conhecido
É certo ser desprezado

Se eu soubesse com certeza
Que tu me tinhas amor
Caía nesses teus braços
Como o sereno na flor

Tudo muda neste mundo
Só meu mal não tem mudança
O bem de ontem é saudade
O bem de hoje é esperança

Quatro flores no meu peito
Fizeram sociedade
Sempre-viva, amor-perfeito
Martírio roxo e saudade

Minha mãe chama-se Caca
Minha avó Caca Maria
Em casa tudo era Caco
Sou filho de Cacaria

Menina bonita ou feia
Tudo tem sua procura
Amor não enjeita nada
Porque tudo é criatura

Eu quero dar um conselho
A quem o quiser tomar
Quem quiser viver no mundo
Há de ouvir, ver e calar

Depois de um dia, vem outro
Depois de outro, outro vem
Não te entregues ao primeiro
Espera o que te convém

Tudo que nasce no mundo
Tem seu fim particular
Tudo tem o seu destino
Eu nasci para te amar

O sol prometeu à lua
Uma fita de mil cores
Quando o sol promete prenda
Quanto mais quem tem amores

A bonina é flor da noite
Não abre senão de tarde
Não há mal que sempre dure
Nem há bem que nunca acabe

O coqueiro de sabido
Foi-se pôr naquela altura
Pensando que eu não sabia
Quando tem fruta madura

Quando eu era galo novo
Comia milho na mão
Hoje sou galo velho
Bato com o bico no chão

Estas meninas de agora
Só querem é namorar
Botam panela no fogo
E não sabem temperar

Se os olhos fossem alfinetes
Para dar alfinetada
Tu estarias, meu benzinho
Como a renda da almofada

Dois beijos tenho memória
Que jamais esquecerei
O último de minha mãe
E o primeiro que te dei

Canta o galo. Rompe o dia!
Cai o sereno no chão
Eu também quero cair
Dentro do teu coração

Oh, menina, não te cases
Aproveita a boa vida
Que eu já vi muita casada
Chorando de arrependida

Sou meiga por natureza
Sensível por condição
Sei amar eternamente
A quem dei meu coração

Bogari que tanto cheiras
Na cabeça do meu bem
Bogari, eu desconfio
Foste dado por alguém

Você me chamou de feia
Chamou-me de cousa má
Agora quer agradinho
Acabou-se. Já não há

Mulher não é pela cara
Que se escolhe. É pela raça
Cachorro solto na rua
Nunca chega a cão de caça

Adeus, cabelinhos pretos
Adeus, boca de rubi
Adeus, olhos matadores
Adeus, cheiro de alecrim

Quem quiser comprar saudade
Eu tenho semente e dou
Um canteiro tenho cheio
Que aquele ingrato deixou

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