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Aymoré bateu na pedra

Presta-me atenção senhores
Vejam como está escrito
De um caso que aconteceu
Na ilha deste destrito.

No dia 23 de julho
A meia-noite seria
Vinha um vapor lá do Sul
Para o Rio se derigia
Na ilha foi encalhar
Por um farol que em terra via.

Assim que viu-se encalhado
Falou no radiograma
Resposta veio do Rio
Recebeu por telegrama
Na ilha quando souberam
O povo bateu palmas.

Aymoré era o seu nome
Trazia mercadorias
Carne-seca, leite e banha
E mais outras iguarias
Fósforos e mate derramado
No porão era o que se via.

Quando amanheceu o dia
Veio um rebocador
Em companha o Laguna
Para tirar o vapor
Mais de balde não saiu
Do lugar onde encalhou.

Veio ordem do Governo
Que se o vapor não saía
Carne-seca que trazia
Com os pobres repartisse
O capitão quando soube
Em palavras altas disse.

Com ordem do seu patrão
Aviso o pessoal
Que de amanhã em diante
Carne-seca tem pra dar
O povo soube a notícia
Vamos a todos convidar.

O senhor João de Alfaia
Como o mais espertalhão
Foi logo quem deu princípio
Entrou dentro do porão
Trabalhar com sangrarelho
Mandado do capitão.

O Bernardo Margarida
Já desprezou seu
tresmalho
Diz que rede não vale mais
Por que tem vapor encalhado
Vai lidar com carne-seca
Pois lhe dá menos trabalho.

Quando o destino assim quer
A sorte por bem faculta
Quem saiu bem protegido
Foi Alfaia com Baduta
Que foram por derradeiro
Só trouxeram carne enxuta.

Augusto e João da Mata
Por serem boas pessoas
Tiraram carne a pamparra
Por ser quinhão da canoa
A moça quando tal viu
Disse, ó que carne mais a toa.

Vou mandar o João Negro
Na cidade de manhã
Que vá lá com toda pressa
Comprar dez litros de sal
Vou lavar bem essa carne
Vou de novo ressalgar.

Vou salgar bem cinco quilos
A mais melhor que puder
Para mandar pra mamãe
Arrepartir com José
Que vejam como está boa
Carne-seca do Aymoré.

Os urubus lá no mato
Fizeram combinação
Para no Cabelo Gordo
Fazerem sua função
Por causa da carne-seca
Que está ladrilhando o chão.

Dedinho e Chico Jacinto
Não estão muito contentes
Comeram assim muita carne
Mas foi dada de presente
De amigos conterrâneos
De seu cunhado e parentes.

Tinha um fulano Júlio
O sobrenome não sei
Foi quem tirou muita carne
Porque foi primeira vez
Desta carne que tirou
Eu não sei o que ele fez.

O Tião Alfaia filho
Não saiu do vapor
O seu amigo Conrado
Ainda não se comentou
A saúba já comeu
A mandioca que plantou.

Aurélio Tião Moreira
Foi quem não aproveitou
Mas foram lá trabalhar
O capitão do vapor
Para ver se traziam banha
Mas nada disto ganhou.

Leonel e João de Ramos
Souberam se aproveitar
Da carne que eles tiraram
Já deu para negociar
Já venderam cinco arrobas
Da Praia Grande pra lá.

Leonel vai no vapor
Venina fica na praia
Já leva a faca prontinha
Para a manta ir cortando
a boa vai para a casa
E a ruim vai se enterrando.

Amigo Dito Farias
Como é trabalhador
Com o dinheiro da carne
Dez camarada pagou
A quatro mil réis por dia
Sua roça já limpou.

Agora vamos falar
Também em Baraquiçaba
Nem que passe quatro anos
Carne-seca não se acaba
Já não falam mais em rede
Não pescam não fazem nada.

O Guerra e João dos Reis
Fizeram combinação
Abriram venda da carne
Mais não fizeram balcão
Já tem o prelo marcado
Meio quilo dez tostão.

David e Pedro Botelho
Só vendem por atacado
Já tem a placa na porta
Não posso vender fiado
De lidar com esta carne
Me deixou bem machucado.

Eu já fiz minha proposta
Com David e meu irmão
De não fazer mais viagem
Para Santos no chatão
Mais sempre havemos de ir
No vapor fazer oração.

Levaremos quatro velas
Remaremos com bom gosto
Porque foi quem nos livrou
Da crise do mês de agosto
Também foi quem nos mandou
Dinheiro do nosso bolso.

Nesta viagem de Santos
Não achamos rendimentos
Quero ver se nesta carne
Ganhamos cento por cento
Deixaremos quatro arrobas
Para o nosso mantimento.

Diogo como medroso
Não chegou lá no navio
Da pouca carne que teve
Com o sogro repartiu
Tomou chuva no caminho
Quase morreu de frio.

Falamos no Gaecá
Eduardo e Constantino
Que tanta carne comeram
Que fez mal aos intestinos
Foram consultar o doutor
Receitou estriquinino.

Mais gente do Gaecá
Não posso contar quem é
O que se via era gente
Dia inteiro na maré
Tirar carne da canoa
Jogar pra cima com o pé.

Um rapaz lá do portinho
Queria que repartisse
Fizeram combinação
Em toda carne que saísse
Com palavras muito baixas
Chegou pra mim e disse.

Gente do Cabelo Gordo
Por aqui é o que não se vê
Quando é tempo de savelha
Aqui não venham vender
Porque o lugar é pedra
Tenham medo de morrer.

Agora tudo mudou-se
De costeira agora é praia
Vai-se pra lá é Conrado
Vem-se pra cá é Alfaia
A gente de lá da terra
De certo que não trabalha.

Não sabem bem trabalhar
Não querem ouvir conselho
Vejam que serviço ruim
Fez o tal Pedro Botelho
Trouxe o pobre do Alfaia
Ferrado no sangarelho.

Não fica por esquecido
Senhor Antônio Delicado
Não fizestes como os outros
Fostes lá bem sossegado
Diz que não tirou nenhum
A muita gente tem negado.

Mais o nosso companheiro
Em Toque-Toque contou
Que se acharam sozinho
Lá no porão do vapor
Que tiraram dez arrobas
Quando a canoa pegou.

Guerra foi na cidade
Trouxe notícia de lá
Que o doutor delegado
A carne vinha enterrar
Proibido foi do médico
Que estava fazendo mal.

Veio a notícia de noite
Antes de amanhecer
Quando via-se era gente
Já cansada de correr
De tanto carregar carne
Que levaram para esconder.

Se via muitas mulheres
Correrem na capoeira
Uma por baixo do café
Para esconder na taquareira
Até carregaram carne
Em um pedaço da esteira.

Se via gente no mato
Muitas fazendo varal
E outras tomando conta
Para os corvos não carregar
Que já vinham mato abaixo
Com fome pra devorar.

Umas choravam da sorte
Trabalho de seu marido
Outras diziam que era
A tentação do inimigo
Outras então respondiam
É praga ou então castigo.

A gente que não tem sorte
Só perde o merecimento
Anda girando no mundo
Somente perdendo tempo
Tanta carne que nos tinha
Ficamos sem mantimento.

Outra chorando dizia
Levei do sertão para baixo
Eu carreguei na peneira
João carregou no tacho
Quando a gente tem farinha
O demônio carrega o saco.

Façamos uma promessa
Àquela Santa da Penha
Pagaremos com farinha
E quatro feixes de lenha
Para fazer todo o jeito
Que o delegado não venha.

O pessoal lá da ilha
Tenham sido afortunado
Porque de tempo em tempo
Tem um vapor encalhado
Dos materiais que tiraram
Tem muita gente arranjado.

Do Aymoré tiraram carne
Banha e leite condensado
Só não tiraram congonha
Por já está derramado
O povo de lá da ilha
O vapor tenham surgido.

Dos Astúrias tiraram louças
E muitas coisas se perdeu
Só da louça que venderam
Muita gente enriqueceu
Mas não foi com o seu suor
E a custa de quem perdeu.

Muitas cousas se vendeu
Lá em São Sebastião
Canecas pratos e tigelas
Bacias e lampiões
Bandejas de porcelana
Talheres de prata em porção.

Por isso que não se importam
Que a mandioca apodreça
Porque lá tem muita gente
Que alevanta a cabeça
Já tem dinheiro no cofre
Só de vender carne-seca.

No Perequé tenham medo
Deste vapor encalhado
Porque lá de sua banda
Foi um homem processado
Porque não apresentou
Os bens que tinha tirado.

Do Terezinha foi saco
Que o povo aproveitou
Trabalharam todos os dias
Lá no convés do vapor
Gente que não tinha nada
Vendeu saco e se arranjou.

Do Astúrias foi só joias
Que o povo ia buscar
Cortavam dedos dos mortos
Para assim anel tirar
Diziam para as mulheres
Oh! Que riqueza estava lá.

Esta gente lá da ilha
Não é rico quem não quer
Pois estão gordos e fortes
Pela ponta do nariz
Quem não tem então se queixa
Diabo, não sei o que eu fiz.

Pode fazer oração
O povo que enriqueceu
A custa do vapor encalhado
Que aqui apareceu
Quem ganhou fica em lembrança
Quem não ganhou fez como eu.

Acenda uma vela benta
Nos vapores encalhados
Eu já não falei no Velasque
Por já não ter me lembrado
Mas ainda tem muitas coisas
Que tem os trastes guardado.

Quem este pasquim notou
Não culpem mais a ninguém
foi arranjado na ilha
Pela gente dos Belém
Eu que sou vizinho dele
Ajudei a notar também.

Quem estes versos tirou
Desta carne não comeu
Foi uma pessoa mal
Que nem presente mereceu
Só quando via cheirar
De fome o beiço mordeu.

Este pasquim foi notado
Na noite de quarta-feira
Na porta do cemitério
Bem perto de uma caveira
Dos ossos formou um lápis
Do corpo fez cabeceira.

Eu já vi um cego escrever
Um mudo que notou
Um surdo com atrevido
Foi quem de longe escutou
Na noite de quarta-feira
Foi ele quem me contou.

Meu senhores me desculpem
Dos versos que for errado
Foi o primeiro que fiz
Não estou acostumado
Faço aqui um ponto final
De notar estou cansado.


Recolhido em São Sebastião. Autor Ignorado. Informante: Severiano Quintino, trabalhador da Light. Data da colheita: 19 de dezembro de 1959.


(LIMA, Rossini Tavares de (et alii). O folclore do litoral norte de São Paulo)


Pasquim

Sabe-se que a palavra pasquim ou "pasquinho", como vimos chamar no bairro de São Francisco, em São Sebastião, procede de Pasquino, estátua mutilada da velha Roma, que se encontrava em Parione, um dos lugares mais populares da cidade, e na qual se costumava inscrever versos, de início de caráter sério e depois, satírico. Com o passar do tempo, designou as produções populares, fixadas em lugar público, impressas ou não, verdadeiros libelos, em prosa ou verso, contra pessoas ou ocorrências ou pelo menos de comentário crítico a elas.

No geral, este é o espírito dos pasquins que encontramos na região de Ilha Bela e São Sebastião e que parecem ser velha usança ali. Já em 1868, o Código de Posturas Municipais de Vila Bela da Princesa, hoje Ilha Bela, condenava o pasquim dizendo: "É expressamente proibido a publicidade dos pasquins ou outros papeluchos ultrajantes e obscenos e que afetam a moralidade pública. Os que forem encontrados com estas publicações ou delas derem notícias, divulgando-as e
indigitando o nome de qualquer pessoa, incorrerão na multa de 6 a 8$000 e sofrerão dois dias de prisão".

Atualmente na referida região, o pasquim é uma forma litero-musical, mais literária do que musical mesmo, que se difunde de maneira predominantemente escrita, no geral a lápis em folha de papel de formato vário. Seu objetivo é a crítica social e especialmente individual, manifestada por ocasião de acontecimentos que impressionam o meio popular; alguns documentos, porém, podem apresentar um conteúdo lírico ou simplesmente narrativo e nesse aspecto a forma se confunde, então, com as modas de viola.

Se é verdade que no início de sua elaboração o pasquim possui um autor individual, logo ele passa a receber a colaboração de outros e só se completa quando reflete com autenticidade a opinião do meio popular a respeito do tema que aborda. E quando começa a circular, o nome do seu primeiro autor desaparece depressa, mesmo porque, em virtude de possuir, no geral, características de crítica, não seria de bom
alvitre que este o acompanhasse.

Cancioneiro

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