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Cornélio Pires (São Paulo, 1884-1958). Foi empregado do comércio, jornalista, professor de educação física e conviveu muito com os caboclos do interior paulista, fixando-lhes história e o linguajar em Musa Caipira, Conversas ao Pé do Fogo e Quem Conta um Conto...; a passagem reproduzida a seguir é da história dessa última obra e tem o título de Deus Perdoa..., em cujo enredo dois rapazes ricos de Campinas, Nhonhô e Carlos, foram atacados de febre amarela e a mãe preta de ambos, muito aflita, fez a seguinte promessa:

(...)

- Ai, meu Deus! Jezuis, Maria e José, co’a graça do Divino Espírito Santo! Sarvai Nhonhô Taliba e Nhô Carro e eles hão di intê o çumitério, andando, cheio de grão de mio dentro das butina! Sacrifício em agardecimento da sarvação por vóis!

(...)

Aconteceu que os dois rapazes ficaram curados e não quiseram cumprir a promessa. Mas a mãe preta insistiu, que eles encheram as botinas de grãos de milho e lá se foram a caminho do cemitério:

(...)

Carlos, cortado de dor, pé-pé pela tortura, gemia arcado, encostando-se pelas paredes. Nhonhô, lampeiro, causava-lhe admiração...

Finalmente chegaram ao portão. Carlos, suando frio trêmulo, sacode as botinas, desgrudando das solas do pé os milhos que se enterravam na carne, avermelhando a pelo onde deixavam estampada a sua forma.


Admirados ante a resistência de Nhonhô, viram o tirar os sapatos...

– Que é isso? Essa pasta?

- Ave Maria, Nhonhô... Já se viu só que moço? É canjuca!...

Você não disse a Deus como era o milho... Eu pus milho... cozido!

- Que terrive!... Num faz má; Deus perdoa...


(RUI, Jota. A Alegre história do humor no Brasil)

O COXO

Certa vez
Um homem descortês
Vendo um coxo passar amuletado
Chamou-lhe sacripante,
Ignorante,
Tratante,
Estúpido, demente
Mal-criado
E o coxo, sem dar mostras de zangado
Seguia o seu caminho, paciente
E tão indiferente,
Que até nem parecia o insultado!

E seguia,
E seguia,
E apenas traduzia
A sua quase compaixão
Em um muxoxo
Quando o homem descortês, contrariado
Por ver que o insultava sempre em vão
Começou a gritar: "O" coxo!
"O" coxo!
Pois o coxo, que não se molestara
Com os insultos que o homem lhe atirara,
Ficou como uma fera,
A ponto de agredi-lo com a muleta
Batendo-lhe na cara
Somente porque o homem lhe chamara
De coxo, exatamente o que ele era!

***

O CAVALO CEGO
A Leonardo Mota

O nosso caipira, o tabaréu
O capiau, o matuto
Por várias vezes já tem sido réu
De preguiça incurável
Sendo o acusador
Um escritor
Notável

Eu não discuto
Se tem razão
Ou não,
Criminando o matuto

Mas que ele seja sempre, sempre jeca,
É um erro, uma ilusão
Se é esse o seu pecado,
Ele não peca!
"Finório", é o que devia ser chamado!

Vamos ao caso que me foi contado
Um senador
Ou deputado
Comprou, e por um preço exagerado
Um bonito cavalo a um sertanejo

O seu maior desejo
Era ter um cavalo marchador
E esse belo alazão
Não tinha no sertão
Competidor

Mas, depois de comprado,
O senador
Ou deputado
Descobriu que o bichano era zarolho
Isto é, não tinha um olho!

Furioso, foi ter com o vendedor
Que dava pelo nome de – Burrego
"Então?!"
Perguntou ao espertalhão:
"Isso tem jeito?!

Como é que me vendeste, seu ladrão
Um cavalo que tem um olho cego?!

Não era mais bonito
Que antes de o vender tivesses dito?!"

- Seu doutô, - replicou-lhe o seu Burrego:
- Nesse porém, cum todo o arrespeito
Lhe agaranto pra vossa sinhoria
Que eu pensava que vasmicê sabia
Que o cavalo era cego!

"Eu quando lhe comprei esse animal
Comprei como perfeito!
Eu pensei que você fosse leal!"

- Seu doutô, eu cunheço o que é liardade!
O cavalo tá são e tá prefeito!
Não tou dizendo mais do que a verdade!
Oie! Sê cego, nunca foi defeito!
É infilicidade!!

(CEARENSE, Catulo da Paixão. Fábulas e alegorias)

O vendedor de pinhão em Piracicaba

Sempre aparecia nas noites de inverno e postava-se à frente da Pastelaria Chinesa, esquina da Boa Morte com a Quinze de Novembro. Sentado num banquinho, diante de suas panelas fumegantes, ia soltando o seu:

Pinhão quente!
Quem não come fica doente!


(FERNANDES, Waldemar Inglésias. Lendas e crendices de Piracicaba e outros estudos)

O juiz cristão

Era Raimundo Corrêa juiz no Rio de Janeiro quando lhe foram a despacho os papéis de um processo-crime, sobre um ferimento, a facão, num açougueiro, feito pelo seu próprio empregado.

Raimundo mandou chamar as partes. Declarou que ia absolver o culpado, porque havia sido ofendido no insulto. Mas, só o faria com uma condição: se os dois não guardassem ódio. Fez-lhes uma preleção sobre a violência, e terminou:

- Vocês têm religião?

- Sim, senhor.

E aproximando-os:

- Então, vão, e sejam amigos…


(Mário de Alencar. Revista da Academia Brasileira de Letras, nº 7, 1912)

***

O homem e a natureza

Ao iniciar Machado de Assis a publicação, em folhetins diários, do seu romance A mão e a luva, Francisco Ramos Paz, um dos seus poucos amigos e seu confidente literário, lembrou-lhe a conveniência de descrever, em um dos capítulos da obra, o soberbo parque do conde de São Mamede, no Cosme Velho.

– A natureza inspirará uma bela página ao teu romance… - disse-lhe

Machado recusou, porém, de pronto:

- A natureza não me interessa…

E definindo-se:

- O que me interessa é o homem!

(Alfredo Pujol. Machado de Assis)

(CAMPOS, Humberto. O Brasil anedótico)



São trem!

- Me contaro, nha Bebê
Que o seu fio tá ficano
Mermo, um cutuba, no piano
– Puis, é certo. Pode crê!

O danado do Bibiano
É pianêro a mais num sê
Sabe tuda as musga. É vê
A Guiomá Novais, nhô Arbano!

Magine só que o tratante
Toca, inté de traiz pra diante
Os noturno de Chopêin!

- Ih! Num me vire pro avesso!
Os noturno que eu conheço
Num são musga, não: são trem!

(COSTA, Fontoura. Matutices)

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• Homem galinha, se tomar banho vira canja
• No decote do horizonte vejo o seio da saudade
• Beijo é que nem ferro elétrico, liga em cima esquenta em baixo
• 1 bêbado 60 no bar, 70 beber sem dinheiro, vem 1 guarda e lhe diz: 20 prender, seu 100 vergonha
• Eu dirijo e Deus me guia
• O mundo não piorou nos últimos 20 anos, a cobertura jornalística é que melhorou muito
• Oportunidade é igual a bola cruzada, tem que cabecear na hora certa
• O volante é o troféu de um herói sem medalha
• Meu pára-choque é meio violento e nele só bate a chuva, a saudade e o vento
• Garagem de louco

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• Cachorro que engole osso, nalguma coisa se fia
• Largos dias têm cem anos
• De noite, à candeia, não há mulher feia
• A mentira corre, mas a verdade a apanha
• Falar sem pensar é atirar sem apontar
• Entende primeiro, e fala derradeiro
• Em terra pequena, tudo se sabe
• Quem tem mazela, todos falam nela
• Pólvora pouca, chumbo até a boca
• Pra égua de cidade, não há cabresto nem palanque

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Menina a la moda
(Joaquim Manuel de Macedo)

- Ai, Maria! Vem depressa
Desaperta este colete!
Eu me sufoco… ai, já temo
Estourar como um foguete

(Antologia brasileira; coletânea em prosa e verso de escritores nacionais)

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