Jangada Brasil, nº 11, julho de 1999: Colher de Pau – Da bebida chamada Cauim

DA BEBIDA A QUE CHAMAM CAUIM

Voltando ao meu assunto, antes de falar nas carnes, peixes, frutas e outros mantimentos bem diversos dos da Europa, direi qual a bebida que usam os selvagens e o modo de fazê-la. Cumpre, desde logo, notar que os homens não se envolvem em maneira nenhuma na preparação da bebida, a qual, como a farinha, está a cargo das mulheres. As raízes de aipim e mandioca, que servem de principal alimento aos selvagens, são também utilizadas no preparo de sua bebida usual. Depois de as cortarem em rodelas finas, como fazemos com os rabanetes, as mulheres as fervem em grandes vasilhas de barro cheias de água, até que amoleçam; tiram-nas então do fogo e as deixam esfriar. Feito isso acocoram-se em torno das vasilhas e mastigam as rodelas jogando-as depois em outra vasilha, em vez de as engolir, para uma nova fervura, mexendo-as com um pau até que tudo esteja bem cozido. Feito isso, tiram do fogo a pasta e a põem a fermentar em vasos de barro de capacidade igual a uma meia pipa de vinho de Borgonha. Quando tudo fermenta e espuma, cobrem os vasos e fica a bebida pronta para o uso. Esses vasos têm o feitio das grandes cubas de barro nas quais vi fazer-se a lixívia em alguns lugares do Bourbonais e da Auvergne; são entretanto mais estreitos no alto que no bojo.

Fazem o mesmo com a avatí, a fim de preparar uma bebida de milho. São as mulheres como já disse, que tudo fazem nessa preparação, tendo os homens a firme opinião de que se eles mastigarem as raízes ou o milho a bebida não sairá boa. Consideram tão indecente ao seu sexo meter-se neste trabalho quanto nós consideraríamos indecente que os camponeses seminus da Bresse ou de outras regiões pegassem na roca para fiar. Os selvagens chamam essa bebida cauim, é turva e espessa como borra e tem como que o gosto do leite azedo. Há cauim branco e tinto tal qual o vinho.

Como tais raízes e o milho crescem bastante durante o ano todo no país, os selvagens fazem a sua bebida em qualquer estação e às vezes em grandes quantidades, tendo eu visto em certa ocasião mais de trinta potes grandes cheios, dispostos em fila à espera do momento de cauinar. Antes porém de entrar no assunto, seja-me permitido dizer que nem alemães, nem flamengos, nem soldados, nem suíços, todos enfim que se dedicam à bebedeira em França, nada sabem do ofício em comparação com os nossos americanos aos quais têm que ceder a primazia.

Quando querem divertir-se e principalmente quando matam com solenidade um prisioneiro de guerra para o comer, é seu costume (ao contrário do que fazemos com o vinho que desejamos fresco e límpido) beber o cauim amornado e a primeira coisa que fazem as mulheres é um pequeno fogo em torno dos potes de barro para aquecer a bebida. Começam então por uma das extremidades a descobrir o primeiro pote e a remexer e turvar a bebida de que vão tirando cuias cheias, algumas de três quartilhos de Paris; os homens passam dançando, uns após os outros, junto das mulheres que entregam a cada um a sua cuia cheia; e enquanto os homens bebem de um trago elas, no desempenho do ofício de despenseiras, não se esquecem de bebericar sofrivelmente e isso tantas vezes quantas necessárias para que na centena de potes ali enfileirados não fique uma só gota de cauim. Com efeito, eu os vi não só beberem três dias e três noites consecutivas, mas ainda, depois de saciados e bêbados a mais não poder, vomitarem quanto tinham bebido e recomeçarem mais bem dispostos do que antes; deixar a função fora em verdade expor-se a ser considerado efeminado, pior que schelm entre os alemães. O curioso é que os tupinambás nada comem durante as bebedeiras do mesmo modo porque não bebem às refeições muito estranhando ver-nos entremear uma e outra coisa à nossa moda. Dirão que eles fazem como os cavalos; mas, como dizia um indivíduo galhofeiro de nossa companhia, além de não ser preciso conduzi-lo ao rio para beber não correm o perigo de romper o rabicho.

Cumpre notar que embora não observem horas de jantar, merendar ou cear, como o fazemos, nem trepidem em comer à meia-noite ou ao meio-dia, só o fazem quando têm fome e pode-se dizer que são tão sóbrios no comer quanto excessivos no beber. Alguns têm o bom hábito de lavar as mãos e a boca antes e depois da comida; quanto à boca creio que o fazem porque do contrário a teriam sempre viscosa em razão das farinhas de raízes e de milho que consomem em lugar de pão. Quando comem observam admirável silêncio e se têm alguma coisa para dizer, esperam até acabar a comida. E quando nos ouviam tagarelar alegremente às refeições, como entre franceses é costume, punham-se a motejar.

Prosseguindo no assunto, direi que enquanto dura a cauinagem os nossos brejeiros americanos, para melhor esquentar o cérebro, cantam, assobiam e se incitam uns aos outros a portarem-se valentemente e a fazerem muitos prisioneiros na guerra; enfileiram-se, como grous, e não cessam de dançar, de entrar e sair da casa em que se reúnem, até que tudo se conclua, isto é, que se tenha esgotado toda a bebida. E como são refinados beberrões, alguns há que em uma reunião sorvem mais de vinte potes de cauim

Mas é principalmente quando emplumados e enfeitados que matam e comem um prisioneiro de guerra em bacanais à moda pagã, de que são sacerdotes ébrios, que se faz interessante vê-los rolar os olhos nas órbitas. Mas também acontece sentarem-se em redes de algodão e uns em frente dos outros beberem modestamente; mas como o seu costume é de se reunirem todos, de um aldeia ou de muitas para beber (o que nunca fazem para comer), esses beberetes especiais são muito raros. Bebam pouco ou muito porém, como não sofrem de melancolia congregam-se todos os dias para dançar e folgar em sua aldeia. Os moços casadoiros adornam-se com um desses grandes penachos a que chamam araroy e que são atados à cintura; empunhando às vezes o maracá e dispondo nas pernas os chocalhos de frutos secos de que acima falei, não fazem outra coisa todas as noites senão entrar e sair de casa dançando e saltando. Ao vê-los assim fazerem tantas vezes a mesma coisa vinham-me à lembrança aqueles sujeitos que em certas aldeias nossas são conhecidos por valets de la fête, os quais nos dias de festa ao padroeiro das paróquias andam vestidos de bobos com cetro em punho e guizos nas pernas, brincando e dançando à mourisca pelas casas e praças. Cumpre notar que em todas essas danças, quaisquer que sejam, nunca as mulheres se misturam aos homens; se querem fazem-no em grupo separado.

Antes de terminar este assunto, e a fim de que os leitores se convençam de que se tivessem vinho à vontade enxugariam galhardamente o copo, vou contar uma história tragicômica que em sua aldeia me contou um mussacá, isto é, um bom e hospitaleiro pai de família.

“Supreendemos uma vez, disse ele na sua rude linguagem, uma caravela de perôs (isto é, portugueses, que como já referi são inimigos mortais dos nossos tupinambás) na qual, de mortos e comidos todos os homens e recolhida a mercadoria existente, encontramos grandes caramemos(tonéis e outras vasilhas de madeira) cheias de bebida que logo tratamos de provar. Não sei de que qualidade de cauimera, nem se o tendes no vosso país; só sei dizer que depois de bebermos ficamos por três dias de tal forma prostrados e adormecidos que não podíamos despertar”. É verossímil que fossem tonéis de bom vinho da Espanha, com os quais os selvagens, sem o saber, festejaram a Baco. Não é pois de admirar que o nosso homem se tivesse sentido tão repentinamente atordoado.

No que nos diz respeito, ao chegarmos a esse país procuramos evitar a mastigação no preparo do cauim e fazê-lo de modo mais limpo. Por isso pilamos raízes de aipim e mandioca com milho, mas, para dizer a verdade, a experiência não provou bem. Pouco a pouco nos habituamos a beber o cauim da outra espécie embora não o fizéssemos comumente, pois tendo cana à vontade púnhamo-la de infusão por alguns dias na água depois de refrescá-la um pouco por causa do grande calor; e assim açucarada bebíamos a água com grande prazer. Quanto à água das fontes e rios, incomparavelmente melhor e mais sadia que a nossa, nós a bebíamos sem mistura. Os selvagens chamam a água doce uh-ete e a água salgada uh-een; esta dicção obtêm-na com a garganta, como os hebreus fazem com as guturais e por isso era para nós a mais penosa de reproduzir entre todas as do idioma indígena.

Às pessoas que, em vista do que disse acima acerca da mastigação das raízes e do milho no preparo da bebida, enjoem e engulem, lembro o modo pelo qual entre nós se fabrica o vinho, Pois se tivermos em vista que nos lugares onde crescem os bons vinhedos os vinhateiros, no tempo da vindima, metem-se dentro das tinas e das cubas e com os lindos pés, às vezes calçados de sapatões, machucam as uvas e ainda as enxovalham na lagariça, veremos que nesse mister se passam muitas coisas talvez menos aprazíveis do que a mastigação das mulheres americanas. Pode-se dizer que o vinho ao azedar e fermentar lança fora de si toda a impureza; em verdade o cauim também se purga…

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(LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil)

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