
A procissão de São Benedito no
Lagarto, Sergipe, descrita por Melo Morais Filho.
A
oração do anjo Custódio ou As treze palavras, As quinze palavras ditas e
retornadas, Divina oração do anjo Custódio sendo as quinze palavras ditas e retornadas
de meu Senhor Jesus Cristo.
O "não
presta" em nosso folclore, por Júlio Mariano.
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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
O "NÃO PRESTA" EM NOSSO FOLCLORE |
O sentencioso "não presta" para a gente do povo justifica muito do que aí
topamos como tabu e puxa com ele um comprido rosário de abusões.
Não presta passar debaixo de escada.
Não presta por quê?
- Dá atraso de vida. A escada foi feita para subir por ela, e quem lhe passa por baixo ao
invés de subir desce.
Não presta a gente caminhar em enterro na frente de caixão.
Ué, por quê?
- Porque se acontece da sombra de quem está na frente do caixão lhe cair em cima, pode a
pessoa ser levada na cova com o defunto.
Não presta mulher que está esperando nenê passar embaixo das rédeas de um
animal.
O que acontece à mulher?
- Terá o parto amarrado.
Não presta uma pessoa beber água à meia-noite.
Por quê?
- Porque a água é também vivente e carece de descanso como nós. Diz que uma vez um
homem sentindo sede a horas mortas da noite foi ao pote beber água, mas quando meteu a
caneca dentro do pote, pra tirar a água, a água falou: - "Arre! Que nem a estas
horas me dão descanso?"... Em isto ouvindo o homem caiu prá trás, sem fala!
O curioso desta estória, de que não presta beber água à meia-noite, é que ao tempo de
nossa meninice, lá pelas bandas de Itatiba, também ouvimos esta outra estória, contada
por uma tia velha, que a contradiz com o seu "não presta":
Diz que houve um homem, vivo e são inda de véspera, que amanheceu morto esticado na
cama, que nem era de se duvidar. O acontecimento botou em pranto a mulher e os filhos e
fez pasmar deveras os vizinhos.
Fulano, morto? Não me digam! Se ontem à noitinha estivemos conversando e se rindo
juntos...
Enfim, desde que a vida é assim mesmo e que para uma pessoa morrer basta estar viva,
houve que se cuidar do defunto, que retirado da cama foi estendido sobre a esteira, na
sala, coberto com um lençol, aguardando que se providenciasse a rede para o enterro.
A viúva, desconsolada a pobre, que fazia dó, imaginando no que lhe seria a vida dali por
diante, com a récua dos filhos pequenos pra dar de comer e acabar de criar, botando o
coração à lágrima foi fazendo o servicinho caseiro de costume. Assim, ela fez isto e
mais aquilo, até que se lembrou de trocar a água do pote. Passando a mão na bojuda
vasilha de barro, a mulher chegou até a porta que dava para o terreiro, e num gesto de
vai-e-vem pinchou a água velha do pote todinha lá fora.
Esparramados no chão seco, fio dágua deslizaram aqui e ali. Foi então que uma
coisinha verde, que não era bicho e nem folha de árvore, saiu correndo de em meio ao
enxurro e ganhando a porta ante os olhos assombrados da viúva embarafusou-se para os
lados da sala, rolou até a esteira do defunto e enfiou-se debaixo do lençol que fazia
às vezes de mortalha. Nisto, o morto se mexeu, soergue o corpo na esteira e se firmou com
os cotovelos, assustando e apavorando até à fuga as poucas criaturas que ali se achavam
fazendo o velório.
Não mais houve enterro. O que acontecera foi que o homem, tendo dormido com sede, sonhou
e não ressitiu à vontade de beber água. E indo o seu espírito até o pote, caiu dentro
dele e não pôde sair para retornar ao corpo. Foi pinchando no terreiro a água velha do
pote que a mulher, providencialmente, libertou o espírito do marido, que assim voltou à
vida.
Estória essa transmitida de pais para filhos pela tradição oral, fez com que
perdurrasse entre a gente simples daquelas bandas de itatiba o costume feito sentença: -
"Defunto em casa, água nova no pote!".(Mariano,
Júlio. Badulaques. São Paulo, Conselho Estadual de
Artes e Ciências Humanas, 1979 , p.61-62) |
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