Ano V - janeiro  2003 - nº 53

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 53
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

setaquad.gif (95 bytes)A procissão de São Benedito no Lagarto, Sergipe, descrita por Melo Morais Filho.

setaquad.gif (95 bytes)A oração do anjo Custódio ou As treze palavras, As quinze palavras ditas e retornadas, Divina oração do anjo Custódio sendo as quinze palavras ditas e retornadas de meu Senhor Jesus Cristo.

setaquad.gif (95 bytes)O "não presta" em nosso folclore, por Júlio Mariano.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


O "NÃO PRESTA" EM NOSSO FOLCLORE

Júlio Mariano


O sentencioso "não presta" para a gente do povo justifica muito do que aí topamos como tabu e puxa com ele um comprido rosário de abusões.

– Não presta passar debaixo de escada.

– Não presta por quê?

- Dá atraso de vida. A escada foi feita para subir por ela, e quem lhe passa por baixo ao invés de subir desce.

– Não presta a gente caminhar em enterro na frente de caixão.

– Ué, por quê?

- Porque se acontece da sombra de quem está na frente do caixão lhe cair em cima, pode a pessoa ser levada na cova com o defunto.

– Não presta mulher que está esperando nenê passar embaixo das rédeas de um animal.

– O que acontece à mulher?

- Terá o parto amarrado.

– Não presta uma pessoa beber água à meia-noite.

– Por quê?

- Porque a água é também vivente e carece de descanso como nós. Diz que uma vez um homem sentindo sede a horas mortas da noite foi ao pote beber água, mas quando meteu a caneca dentro do pote, pra tirar a água, a água falou: - "Arre! Que nem a estas horas me dão descanso?"... Em isto ouvindo o homem caiu prá trás, sem fala!

O curioso desta estória, de que não presta beber água à meia-noite, é que ao tempo de nossa meninice, lá pelas bandas de Itatiba, também ouvimos esta outra estória, contada por uma tia velha, que a contradiz com o seu "não presta":

Diz que houve um homem, vivo e são inda de véspera, que amanheceu morto esticado na cama, que nem era de se duvidar. O acontecimento botou em pranto a mulher e os filhos e fez pasmar deveras os vizinhos.

– Fulano, morto? Não me digam! Se ontem à noitinha estivemos conversando e se rindo juntos...

Enfim, desde que a vida é assim mesmo e que para uma pessoa morrer basta estar viva, houve que se cuidar do defunto, que retirado da cama foi estendido sobre a esteira, na sala, coberto com um lençol, aguardando que se providenciasse a rede para o enterro.

A viúva, desconsolada a pobre, que fazia dó, imaginando no que lhe seria a vida dali por diante, com a récua dos filhos pequenos pra dar de comer e acabar de criar, botando o coração à lágrima foi fazendo o servicinho caseiro de costume. Assim, ela fez isto e mais aquilo, até que se lembrou de trocar a água do pote. Passando a mão na bojuda vasilha de barro, a mulher chegou até a porta que dava para o terreiro, e num gesto de vai-e-vem pinchou a água velha do pote todinha lá fora.

Esparramados no chão seco, fio d’água deslizaram aqui e ali. Foi então que uma coisinha verde, que não era bicho e nem folha de árvore, saiu correndo de em meio ao enxurro e ganhando a porta ante os olhos assombrados da viúva embarafusou-se para os lados da sala, rolou até a esteira do defunto e enfiou-se debaixo do lençol que fazia às vezes de mortalha. Nisto, o morto se mexeu, soergue o corpo na esteira e se firmou com os cotovelos, assustando e apavorando até à fuga as poucas criaturas que ali se achavam fazendo o velório.

Não mais houve enterro. O que acontecera foi que o homem, tendo dormido com sede, sonhou e não ressitiu à vontade de beber água. E indo o seu espírito até o pote, caiu dentro dele e não pôde sair para retornar ao corpo. Foi pinchando no terreiro a água velha do pote que a mulher, providencialmente, libertou o espírito do marido, que assim voltou à vida.

Estória essa transmitida de pais para filhos pela tradição oral, fez com que perdurrasse entre a gente simples daquelas bandas de itatiba o costume feito sentença: - "Defunto em casa, água nova no pote!".

(Mariano, Júlio. Badulaques. São Paulo, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1979 , p.61-62)

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