Ano V - janeiro  2003 - nº 53

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 53
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

setaquad.gif (95 bytes)A procissão de São Benedito no Lagarto, Sergipe, descrita por Melo Morais Filho.

setaquad.gif (95 bytes)A oração do anjo Custódio ou As treze palavras, As quinze palavras ditas e retornadas, Divina oração do anjo Custódio sendo as quinze palavras ditas e retornadas de meu Senhor Jesus Cristo.

setaquad.gif (95 bytes)O "não presta" em nosso folclore, por Júlio Mariano.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


A PROCISSÃO DE SÃO BENEDITO NO LAGARTO
- Sergipe

De uma curiosidade, verdadeiramente rara e deleitável são os costumes do Norte, derivados de várias épocas da colônia, e ali transformados segundo condições múltiplas.

Quer se estude aquele povo em suas festas locais e religiosas, quer em sua vida íntima exterior, a sua fisionomia desenha-se de modo distinto, e relevo próprio o assinala, marcando-lhe um lugar saliente e à parte.

Pitoresco e interessante em suas usanças tradicionais, expansivo e inteligente em manifestações variadas, seu viver o distancia da gente do Sul, que, arrebatada por outras correntes, desprendeu-se do passado, antecipando-se a um futuro que supõe melhor.

Assim, quem perlustrasse aquelas províncias, quem habitasse aquelas cidades e povoados, ora decadentes, veria que o povo tomava parte em todos os acontecimentos da vida nacional, e aparecia como individualidade representativa no que o país possuía de original e autônomo.

A procissão de São Benedito, que se fazia anualmente no Lagarto, em Sergipe, descortinava uma nesga de tela moldurada à antiga, a restauração de uma dessas cenas em que se confundiam classes e castas, constituindo um todo harmônico, estranho e significativo.

Na plaga sergipana, a tradicional festa de São Benedito celebrava-se na graciosa e elegante matriz de Nossa Senhora da Piedade, no dia 6 de janeiro.

Qual a causa desse anacronismo no calendário romano da localidade, não procuramos verificar; mas o que é exato é que a festa em questão, naquelas paragens, fechava o ciclo das janeiras, tal a sua pompa, tal o esplendor absorvente das do Natal e Reis.

Verdade era que um ou outro rancho de pastores, um ou outro terno da burrinha, do bumba-meu-boi, da caiporinha, dos marujos, etc., percorria as ruas, dançando nas casas, representando a tradição do Natal; porém não era menos evidenciado que o entusiasmo geral preferia a devoção de São Benedito para tocar ao seu apogeu, ficando por conseguinte prejudicado o regozijo dos natais e das lapinhas.

Como que para fazer compensação, a procissão de São Benedito opulentava-se característica, distanciando-se das demais que conhecemos, pelos personagens extravagantes que nela figuravam.

A magna festa tinha por prólogo, no dia 1º de janeiro, a retirada do mastro consagrado ao santo e que se achava fincado no largo do Rosário, em frente à igreja.

Esse mastro, que ficara do ano antecedente, deixava flutuar no topo uma bandeira branca com a estampa de São Benedito, e logo abaixo meadas de cordéis, que recordavam os deliciosos ananases e estimados frutos, ali suspensos outrora como embelezamento e para prêmios.

Essa folia, esta festança preliminar era exclusivamente dos negros: vestidos como de costume, ufanos de seu padroeiro, arrancavam do chão o enorme e pesado caibro, e o levavam carregado, procissionalmente, dançando e cantando, em torno da igreja e em giro pelas ruas.

Negras trajadas de branco, um rancho de mulatas taieiras e muita gente perfaziam o alvissareiro cortejo do mastro, que ia para de novo ser enfeitado, mudar a bandeira e receber frutas, garrafas de vinho, caixas de doces, etc., que das alturas aguçariam o desejo do povo miúdo, da molecada infrene, a disputar-lhe a posse.

E o festivo mastro, no borborinho da multidão, como a verga de um navio nas ondas da tempestade, se avançava ondulando, à porfia das danças, à alegria dos foliões e ao canto dos congos:

Meu São Benedito
É santo de preto;
Ele bebe garapa,
Ele ronca no peito!.

E ao estribilho plangente das taieiras:

Inderé, ré, ré,
Ai! Jesus de Nazaré!.

* * *

Até o dia da festa nenhum cuidado atraía mais as famílias do Lagarto, do que o objetivo do culto. As sagradas imagens passavam, à noite, para casas particulares, onde por devoção as adornavam com o maior gosto e riqueza.

Para enfeitar os andores havia mulatas prendadas, mucamas escolhidas.

Os fogueteiros aviavam as encomendas, as rainhas estrelavam seus mantos roçagantes, os congos e taieiras ensaiavam suas evoluções, suas cantigas.

Na praça da Matriz os preparativos tendiam a concluir-se, terminando pela colocação dos copinhos de cores listrando a fachada do templo, o fincamento de estacas para o fogo de artifício, a pintura do palanque para o clássico leilão de prendas.

Isto durava até a véspera de Reis.

Ao amanhecer do dia da festa,já o povo afluía à igreja, vindo de léguas de distância muitas pessoas para assistir ao pomposo ato.

Na esplanada o olhar entretinha-se no pitoresco dos trajos vistosos, esquisitos e de colorido vivíssimo das sertanejas, cada qual com sua saia mais espantada, lenço de chita na cabeça, e belo xale azul ou encarnado, que realçava aos raios do sol.

Os tabaréus, de chapéu de couro ou de palha, véstia nova e calça de riscado, passeavam desconfiados, conversando entre si ou com algum habitante do lugar, em amistosa confidência.

A vila em peso, pode-se dizer, participava do folguedo: os senhores de engenho abalavam-se de léguas; o povaréu formigava nas estradas; negros escravos, dispensados do trabalho, festejavam o seu santo, descuidosos, contentes, felizes!

E aos garridos repiques dos sinos, os fiéis enchiam o templo; São Benedito, que tinha vindo cedo para a festa, achava-se presente; e o vigário, paramentado, encaminhava-se com os demais sacerdotes para o altar-mor, começando a cerimônia.

Ocupadas as tribunas, repleto o corpo da igreja, apenas a missa estava no altar, as bombas estouravam, os foguetes sibilavam fechando o espaço, e lá fora, o povo em penca, no adro, impacientava-se pelo sermão, que era sempre pregado por afamado orador.

E num crescendo ia a solenidade, o deslumbramento religioso, terminando a missa cantada, a festa da manhã, com a retirada, aos encontrões, dos reverentes devotos, trazendo cada um o seu registro enrolado e atado de fitas.

À tarde, desta mesma igreja saía a procissão de São Benedito.

No largo do Rosário, como nesta praça, havia galhardetes, folhagens, fogueiras armadas que alumiarão a noite com sua chama brilhante.

À porta das casas que circulavam a Matriz, alongavam-se filas de cadeiras, em que as famílias sentavam-se, para apreciar os festejos e esperar a procissão.

E o sineiro subia à torre... Movimento confuso alvoroçava a multidão... A procissão saía.

Rompendo a marcha, o porta-estandarte da irmandade, vergado para trás e olhando para cima, aprumava o guião, equilibrado igualmente por quatro indivíduos que sustinham as pontas das cordas.

A este grupo precursor, sucediam-se irmãos da confraria, com tochas acesas, conduzindo pela mão os anjos primorosamente vestidos, habilmente caracterizados.

E ao som da música, à toada popular de conhecidas trovas, destacava-se em aparatoso andor a imagem de Santo Antônio, de tamanho natural, que recolhia cultos e louvores.

A irmandade o seguia com seus anjinhos de asas de seda e escomilha, de saiotes e corpinhos com lantejoulas, refletindo-lhes na pedraria dos diademas as luzes das tochas, avermelhadas e baças.

E as vozes soavam mais fortes, ao choque surdo de pancadas sem eco, à queda de passos que batiam no chão...

Logo depois, balançando em outro andor, avultava aéreo e bonito São Benedito, rindo, com os dentinhos de fora, para o Menino Jesus, que trazia deitado nos braços.

E três negras, fantasiadas de rainha, arrastando compridos mantos, com suas coroas douradas, caminhavam após, ladeadas de congos vestidos de branco e com enormes barretinas de linho, enlaçadas de fitas e recamadas de miçangas.

Em trânsito, seguindo o andor, uma luta travava-se entre as duas alas de negros, que disputavam, batendo-se, a coroa da que ocupava o centro, e a quem chamavam a Rainha Perpétua.

E, degladiando-se com espadas de ferro, dando vira-voltas e cadenciando os flancos, os congos adiantavam-se no préstito, cantando, ao calor da peleja, no renhido do combate:

Fogos em terra,
Fogos no mar,
Que nossa rainha
Nos há de ajudar!...

Nesta procissão havia andores de comparecimento obrigado, bem assim o de Santa Efigênia, que a gente da terra assegurava ter sido parda, o que acreditamos ser um recurso dos padres para agradar à mestiçagem e encaminhá-la aos deveres do culto.

E a congada, infatigável na ação, no manejo das espadas, repetia o seu canto, em diapasão vibrante e bárbaro:

Fogos em terra,
Fogos no mar,
Que nossa rainha
Nos há de ajudar!...

O efeito dessa luta, que nem sempre terminava pela vitória de um dos partidos contendores, era geralmente apreciado; cabendo ao que conquistava pelas armas a régia coroa, um prêmio, uma dádiva em homenagem.

Continuando a desfilar o préstito, regularmente precedido de irmãos de opa e anjinhos, o pesado andor de Nossa Senhora do Rosário aproximava-se, custoso de aparato e deslumbrante de riqueza.

Os preciosos adereços da Virgem faiscavam aos reverberos do sol poente e a prataria brilhava como escudos reluzentes.

De Nossa Senhora do Rosário o formoso séquito eram as taieiras.

Esse grupo, encantador e original, compunha-se de faceiras e lindas mulatas, vestidas de saias brancas entremeadas de rendas, de camisas finíssimas e de elevado preço, deixando transparecer os seios morenos, buliçosos e lascivos.

Um torço de cassa alvejava-lhes à fronte trigueira, enfeitado de argolões de ouro e lacinhos de fita; ao colo viam-se-lhes trêmulos colares de ouro; e grossos cordões do mesmo metal volteavam-lhes, com elegância e mimo, os dois antebraços, desde os punhos até o terço superior.

E uma das taieiras, girando no ar a sua varinha enfeitada, acompanhando o andor, cantava:

Virgem do Rosário,
Senhora do mundo...
Dê-me um coco d’água
Senão vou ao fundo!...

E todas, em coro, nas danças saracoteadas, nos requebros mais preciosos, respondiam, cantando também:

Inderé, ré, ré,
Ai! Jesus de Nazaré!...

Taieira
Meu São Benedito
Não tem mais coroa,
Tem uma toalha
Vinda de Lisboa...

Coro
Inderé, ré, ré,
Ai! Jesus de Nazaré!...

Taieira

Virgem do Rosário,
Senhora do norte...
Dê-me um coco d’água
Senão vou ao pote!...

Coro
Inderé, ré, ré,
Ai! Jesus de Nazaré!...

E adiantada seguia a procissão nas ruas da vila, vencendo o itinerário estabelecido, ao som da música e das canções populares, onde o elemento religioso confundia-se com o profano.

De longe em longe, quando as Taieiras emudeciam o canto, espalhavam-se outras vozes, rudes, sensivelmente incultas.

— Eram os congos:

Fogos na terra,
Fogos no mar,
Que nossa rainha
Nos há de ajudar...

Os irmãos do Santíssimo, de capas vermelhas, precediam então o pálio, debaixo do qual o vigário da Matriz e mais sacerdotes resguardavam a custódia passando por entre a turba genuflexa.

Atrás, fechando o préstito, vinham dois grandes grupos separados, distintos: o mulherio na frente e em continuação os homens.

Enquanto esta cena movimentada e de tons cromáticos se desdobrava, durante todo o tempo que a procissão se achava na rua, no largo do Rosário uma segunda festa se realizava, festa estrondosa de algazarra e turbulenta.

O mastro, untado de sebo, lá estava, cercado de pretos e de gente da ralé.

Eis senão quando, um molecote, para ganhar um prêmio, trepava à custo, subia até mais de meio, e, ao alarido geral, às pateadas, aos assobios, às vaias. escorregava lá de cima, a sentar-se no chão, com as pernas arreganhadas e disfarçando o tombo.

A imitação, está claro, era contagiosa: e daí o maior entretimento para aquela ordem de povo, que preferia este aos outros festejos.

Ao anoitecer, a procissão se recolhia, havia Te-Deum, a esplanada iluminava-se, e os ranchos de congos e taieiras dispersavam-se, indo dançar e cantar em algumas casas.

Às 10 horas queimava-se esplêndido fogo de artifício, no leilão de prendas se apregoavam sortes; as matutas olhavam embasbacadas para as rodas de girassóis que ardiam, para o barbeiro que amolava a navalha, para a fragata que combatia com duas fortalezas.

O povo inteiro passeava na praça, gozava do espetáculo da noite, divertia-se, na pureza de seus costumes e à sombra de suas tradições religiosas...

Disso nos informou Sílvio Romero, o escritor que com tanto zelo cultiva esses assuntos, e cujo nome resplende solitário no ápice da pirâmide de nossa literatura contemporânea.

(Morais Filho, Melo. Festas e tradições populares do Brasil. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1979. Reconquista do Brasil, 55, p.69-75)

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