Ano V - janeiro  2003 - nº 53

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 53
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

setaquad.gif (95 bytes)"Além dos laços propriamente familiares, todas as famílias do bairro se unem umas às outras por laços de parentesco espiritual". Compadrio, por Lia Freitas Fukui.

setaquad.gif (95 bytes)A moda feminina no tempo dos bandeirantes, por Alcântara Machado.

setaquad.gif (95 bytes)O corte de cabelo dos índios

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


O CORTE DE CABELO DOS ÍNDIOS

O penteado dos homens é uma calota com tonsura. O cabelo é penteado, em forma de raios, do vértice para os lados; na frente cai sobre a testa, nos lados alcança a entrada do orifício auricular, atrás não atinge completamente a inserção do pescoço. Enquanto os Suyá, habituados a rapar totalmente a parte anterior da cabeça, possuem a tonsura do apóstolo Paulo, os índios do Kulisehu têm todos a tonsura do apóstolo Pedro, uma calva circular, no vértice, cujo diâmetro pode atingir sete centímetros. O jovem bakairi Luchu passeando pela aldeia com o poncho de cotim pardo de Vogel, recordava-me vivamente um jovem frade do Ekkehard. Acreditou-se, quanto à tonsura, que os índios a tomaram emprestada aos padres, o que sem dúvida corresponderia à mentalidade deles; entretanto a tonsura é, na América, anterior aos sacerdotes católicos. Era muito generalizada entre os aborígenes sul-americanos, e, como os portugueses chamassem os tonsurados de coroados, nome derivado de coroa, tonsura, esta denominação dada confusamente a tribos completamente diferentes. Relata o padre Dobrizhoffer que entre os Abipones do Paraguai a tonsura servia de distintivo da casta superior. A observação não tem valor em relação às tribos por nós visitadas. Os rapazes recebiam a tonsura ao atingirem a puberdade, e Antônio me contou que chorou e se opôs tenazmente, quando seu pai lhe rapou pela primeira vez o cimo da cabeça. Disseram que esse, costume antiquíssimo era dos ancestrais. Nem sempre a coroa era rapada muito assiduamente. Sobretudo nas pessoas idosas a tonsura cobria-se freqüentemente os restolhos. Explicavam-no dizendo que "com o avançar da idade e depois de mortos pai e mãe", a gente se incomodava menos com isso.

Entre os bakairi havia homens jovens e vaidosos que encaracolavam completamente o cabelo com papelotes de madeira semelhante à cortiça, entalhados numa concha. Com eles cobriam a cabeça; os feixes de cabelo que se deviam anelar, eram entalados entre os papelotes. Mas o sistema parecia raramente empregado.

As mulheres usavam o cabelo na fronte como os homens, mas nos lados e atrás caía livremente. As orelhas eram quase sempre cobertas, e o cabelo que corria para trás repousava entre os ombros. Pode-se, pois, admitir que a tonsura dos homens não é outra coisa senão uma conseqüência da diferenciação da cabeleira usada por ambos os sexos. O homem encurtava o cabelo atrás e nos lados, a mulher só acima da fronte. O homem, a fim de facilitar o encurtamento desejado, ainda foi mais longe, cortando na raiz uma parte dos cabelos que ao caírem para trás e para os lados o incomodavam. E isso tinha ainda a vantagem de fazer com que, ao pentear, o cabelo se repartisse comodamente, com uniformidade, para todos os lados. A tonsura dos índios estendia-se principalmente para baixo, pelo occipício. Os homens suyá, pelo contrário, com sua tonsura do apóstolo Paulo, encurtaram mais o cabelo que cobria a testa; em compensação usavam o cabelo pendente sobre o ombro ou atado na nuca. Não se encontra ao mesmo tempo a cabeleira comprida atrás e a tonsura do vértice. Para esse processo simples não foi necessário imitarem os padres.

(Steinen, Karl Von Den. Entre os Aborígenes do Brasil Central. Departamento de Cultura de São Paulo, São Paulo, 1940)

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