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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
A MODA FEMININA NO TEMPO DOS BANDEIRANTES |
... E as modas femininas?
No espaço de cento e muitos anos, que vai dos primeiros aos últimos inventários
divulgados, não parece ter-se modificado grandemente o figurino, por que se orientam na
colônia vicentista as senhoras de qualidade.
Chama-se vestido de igreja o vestido de gala. Onde, com efeito, se não nas
festividades religiosas, podiam as senhoras daquele tempo dar o espetáculo de sua beleza
e galanteria?
Compreende a vasquinha, saia de roda exuberante, franzida na cintura; e, ajustado
ao busto, o corpinho; e por cima deste, o gibão, ou jubão; e sobre
o jubão o saio, casacão rabilongo de mangas perdidas, com abertura ao
nível dos cotovelos, dando passagem e liberdade aos braços; e, a cobrir tudo isso, como
se tudo isso não bastasse, o manto. Com muito menos se supõem vestidas as damas da
atualidade. E têm razão. Entre outros motivos, porque, parecendo obedecer à intimação
das modas peregrinas, se inspiram de fato no figurino guaianás das filhas de Caiubi e
Tibiriçá.
Em meados do século XVIII mudam de nome algumas peças da indumentária mulheril. Passam
a chamar anágua à vasquinha, roupetilha ao gibão, e roupão ao
saio. E é tudo.
Mais do que no feitio, as flutuações da moda se fazem sentir no capítulo dos tecidos. A
princípio não há senhora de categoria que não tenha uma saia do reino de londres
florentino, ou portoalegre. De tafetá ou cetim flamengo encarnado, de holanda ou
holandilha se fazem os gibões e corpinhos. Os mantos, de sarja, recamadilho, baeta,
burato, sarjeta do senhor. Menos apreciadas naturalmente, são a palmilhada, a raxa e a
raxeta fradenha. Ainda menos as fazendas de algodão; picote, picotilho, calhamaço,
canequim.
Afinal, com a prosperidade, apareceram os panos finos de lã: camelão (de pêlo de
cabra), serafina, perputuana, partuto, milanesa. E os de seda e lã, como a catalufa. As
sedas triunfam. De algumas lembramos há pouco os nomes sonoros e luminosos, que parecem
refletir os esplendores do oriente: pinhoela, melcochado, tabi, tafetá da China
encastosolado ou aleonado, damasco, tiruela, macaio, chamalote, damasquilho da Índia.
A formosura do vestido não depende somente da qualidade do estofo. Está na razão direta
dos passamanes e espiguilhas, dos debruns de veludo, dos botões de ouro e prata e
colchetes de prata sobredourados, que o enriquecem.
Um grande assombro alarga os olhos de todos os fiéis, quando dona Catarina de Siqueira
entra na igreja do Colégio, casa do Senhor São Paulo, levando, a sua vasquinha e
o seu saio de veludo roxo e amarelo, este guarnecido de seis passamanes e aquela de
quinze. Pertencem-lhe os mais formosos gibões da época: um, de tela azul, enfeitado
de carassulilho de ouro sobre pestana lavrada; outro, de tabi amarelo, com
passamanes pretos.
Igual sensação produz a chegada de dona Maria Bicudo. Vale vinte mil réis o seu
vestido. A vasquinha de cetim negro, adamascado, tem doze passamanes. Dois, o saio
de melcochado.
Anos depois é dona Catarina de Góis, mulher do capitão Valentim de Barros, que empunha
o cetro da elegância. Avalia-se em trinta e dois mil réis um vestido de seda pinhoela,
anáguas forradas de tafetá preto, roupão e gibão. Mas em preço nenhum sobrepuja o de
veludo lavrado com seu manto de seda, no valor de quarenta mil réis, que opulenta o
espólio de dona isabel Ribeiro.
O manto de gala, também chamado de glória, arreado de rendas e fitas, completa o
vestuário de cerimônia.
Há, no entanto, quem lhe prefira uma capinha de pano de prata, bandada de cetim
lavrado, ou de cetim carmesim, forrado de tafetá e arrendado de rendas pretas,
ou, ainda de penas de cores com topetes de penas. O manto de filete fino,
antepassado horrendo das mantilhas beatas, aparece em 1700.
Nenhuma senhora elegante pode dispensar o calçado de Valença, composto de chapin e
botinas ou sapatos vermelhos. Viterbo esclarece que formados, como são, pela
justaposição de quatro ou mais solas de cortiça formosamente cobertas e pespontadas, os
chapins acrescentam um côvado, no mínimo, à estatura. Os de dona Maria da Silva são
franjados de prata e forrados de veludo. Digna de nota é a voga em que se mantêm durante
largo tempo os sapatos mourados, morados amorados, isto é, cor de amora. Está
claro que, ao lado do calçado de luxo, para a igreja, há o calçado mais simples, para
casa.
Outro acessório indispensável é a cinta vermelho de cachotilha ou de tecido igualmente
precioso.
Chapéus de mulher se encontram em muitos espólios. Uns negros, com o seu véu de tafetá
cor-de-rosa. Outros, passamanados e revestidos por fora de melcochado preto. Dentre todos
o mais belo é um de veludo negro, forrado de cetim carmesim e rendado de prata, que
pertence a dona Agostinha Rodrigues, mulher de Pascoal Leite Paes.
Há também, em abundância, toalhas de toucar de mulher encrespadas, redes de linhas e
algodão, toucas de volante, coifas de seda rica e de canequim modesto, umas de cores
vivas, outras de luto. Tem cinqüenta e quatro alfinetes de prata o rolete de cabeça
de mulher descrito num dos inventários.
Do que aí fica se conclui que os vestidos são poucos e muita a fazenda. O contrário do
que se vê hoje em dia. Verdade seja que, a partir de 1680, só por exceção vem descrito
e alvidrado o fato de vestir. É pena. Porque é então que o descobrimento das minas traz
para todos a fartura, e o luxo deixa de ser um privilégio de escol, infiltrando-se nas
classes inferiores e sobretudo entre as cativas de estimação. Para impedir escândalo
tamanho a ordem régia de 20 de fevereiro de 1696 proíbe que as escravas "de todo
esse estado do Brasil, em nenhuma das Capitanias dele, possam usar de vestido algum de
seda, nem se sirvam de cambraias ou de holandas, com rendas ou sem elas, para nenhum uso,
nem também de guarnições de ouro ou prata nos vestidos".
Não passaram à história os nomes das costureiras e modista de Piratininga. Sabe-se
apenas a modéstia de suas pretensões. Cincos cruzados, por exemplo, custa o feitio de um
daqueles vestidos copiosos e complicados de que falamos.
O que encarece o vestuário são os côvados de fazenda e varas de fita que requer. Esse o
motivo por que, em se tratando de órfã, reclama o curador nada menos de vinte e quatro
mil réis, para lhe fazer uma limpeza para poder ouvir a missa, ou para um
vestido de igreja, que necessita muito, por ser já mulher. Ou por estar
desbaratada de roupa.
Sem jóias não há dama que se considere suficientemente vestida. A paulista,
sobretudo, filha de português, em que é ingênito o gosto por essas coisas, e do índio,
tão amigos de atavios e bugiarias.
Os brincos de orelha variam ao infinito; escudos, orelheiras, argolas de ouro de
canotilho, pelicanos com suas argolas, arrecadas de duas e três voltas, arrecada de ouro
ou prata sobredourada com pernas de aljofres, cabaças e cabacinhas esmaltadas de verde,
brincos de aljofres esmaltados de prata com onze cabaças, brincos castelhanos com suas
pérolas. Outros de filigranas esmaltados de branco e verde com aljofres por
pingente. Outros, ainda pendentes de ouro com quatro pensamentos. Pensamentos
se dizem certas argolinhas, por causa de sua finura extrema. A explicação de Viterbo.
Sobra-lhe em autoridade o que lhe falta em clareza.
No colo se penduram gargantilhas, afogadores, cadeias.
Das gargantilhas as de mais aparato são as duas pertencentes a dona Ana de Proença,
mulher de Pedro Dia Leite. Ambas, de ouro esmaltado de verde, branco e azul. Uma tem
vinte, e outra vinte e quatro pedras verdes e mais uma peça grande no meio, com pedras da
mesma cor. A profusão de gemas verdes traz a lembrança o nome do caçador de esmeralda,
que é, com efeito, cunhado da possuidora dessas jóias. Jóias, que, aliás, não
representam grande coisa: somadas, quatorze mil réis.
Mais valem os afogadores e gargantilhas de ouro, com suas pedras brancas e pingentes de
ouro e aljofres, ou guarnecidos de pérolas e pedras verdes, que figuram no espólio de
Valentim de Barros. Ainda mais, as cadeias de ouro. Cem mil réis é o alvidramento de uma
que está marcada com um fuzil, aonde está um fio azul com a marca real; cento e
setenta e oito e cento e noventa e dois mil e quatrocentos, respectivamente, o do cordão
grosso engranzado, com um crucifixo grande, e o do cordão de cadeia, com um crucifixo
pequeno, arrolados no inventário do riquíssimo Matias Rodrigues da Silva.
Das cadeias não pendem somente cruzes, luas, crucifixos. Pendem também, à
maneira de berloques, esgaravatadores de ouro. Por esse nome se conhecem uns
instrumentos pequeninos, de ponta recurva, à imitação da unha dos pássaros, e
trabalhados a primor, com figurinhas em relevo. Destinam-se prosaicamente à limpeza dos
dentes. Outros, de forma um pouco diferente, servem para a desobstrução dos ouvidos.
Introduzidos em França por Antônio Peres (informa Cabanês), ganham rapidamente o favor
da alta sociedade, e ninguém se anima a aparecer em público, sem trazer à mostra, num
requinte de elegância, o seu palito de metal. Os inventários testemunham a aceitação
que logrou essa usança galante em São Paulo de Piratininga.
Em vez de fios de pérolas e cadeiras de ouro, algumas senhoras adotam gargantilhas de
azeviche e voltas de coral ou de alambre. Por alambre se entende, no dizer inflamado de
Rocha Pita, "aquele âmbar gris que, para aumentar as riqueza da América Lusitana
lhe lança o mar por muitas partes de suas costas". Contas de ouro e de alambre,
peras de ouro cheias de ambre, gargantilhas de corais com seis folhas de ouro a modo de
coração, voltas de alambre grosso com extremos de azeviche e no extremo grandes corais
vermelhos, ramais de valorio com extremos de corais, tudo isso aparece de vez em vez.
Nos dedos refulgem anéis e memórias. Estas, singela. Aqueles, de laçada ou
revestidos de pedras postas em ordem: brancas, verdes, roxas, vermelhas, azuis. As
gemas são assim nomeadas pela cor, e não pelo nome. Por exceção aludem dois
inventários a esmeraldas e ametistas. É mesquinho o valor que lhes atribuem os
avaliadores. Estimam-se em oitocentos réis um anel de pedra azul; em mil e duzentos, um
de nove pedras verde e outra vermelha no meio; em igual garantia, um com sete pedras
brancas. É que se trata, provavelmente, de turmalinas. Fala-se às vezes em anéis e
outras jóias com muitas pedras de cristal.
No chapéu cintilam por vezes laçadas de filigrana ou rosas de filigrana com aljofres por
cima. Nos chapins fuzilam chapas de prata.
Alude-se algures a uns aljofres de trazer em braços, com seus extremos de ouro e
de ramais de corais de três fios cada um, de braço, de mulher.
Se as pulseiras são raras, os rosários aparecem com freqüência. Constituem eles o
complemento indispensável do vestuário feminino de grande gala. É só na igreja que a
mulher tem ocasião de fazer-se e de mostrar-se bela. De modo que o rosário faz naquele
tempo as vezes do petit sac de nossos dias. Assim, aquele de corais, com extremos e
cruzes de ouro, e aquele outro engranzado de prata, com verônica do mesmo, de que
se guarda notícia.
(Machado, Alcântara. Vida
e morte do bandeirante. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, p.91-96) |
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