Ano V - janeiro  2003 - nº 53

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 53
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PALHOÇA

setaquad.gif (95 bytes)"Além dos laços propriamente familiares, todas as famílias do bairro se unem umas às outras por laços de parentesco espiritual". Compadrio, por Lia Freitas Fukui.

setaquad.gif (95 bytes)A moda feminina no tempo dos bandeirantes, por Alcântara Machado.

setaquad.gif (95 bytes)O corte de cabelo dos índios

COLHER DE PAU
PANACÉIA
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ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


COMPADRIO

Lia Freitas Garcia Fukui


Além dos laços propriamente familiares, todas as famílias do bairro se unem umas às outras por laços de parentesco espiritual. Portanto, ao estudar as relações de parentesco, o compadrio não pode ser esquecido.

Quase todos os adultos em Laranjeiras estão ligados por elos de compadrio a algum morador do bairro. Os compadres são sempre enumerados de maneira vaga: "tenho muitos", "todos são meus compadres", "tenho mais de duzentos", confundindo-se assim com a parentela que é também anunciada de maneira vaga, como vimos anteriormente.

A única forma de compadrio conhecida pelos moradores de laranjeiras é o batismo que une, numa rede de obrigações mútuas, um casal, os pais e a criança. Cabe ao padrinho: zelar pelo afilhado como se fosse seu filho, aconselhá-lo, presenteá-lo quando tiver meios, ou então, empregá-lo como camarada preferindo-o a parentes e vizinhos. O afilhado, em troca, deve ao padrinho o mesmo respeito que deve ao pai; deve acatar seus conselhos e opiniões e, caso seja necessário, ampará-lo na velhice.

As relações entre compadres compreendem o respeito mútuo, a consideração "como se fossem irmãos". Como são considerados muito próximos, suas relações são regulamentadas. O tabu de incesto e sanções sobrenaturais vigoram com relação ao compadre quando tiver relações sexuais com a comadre: vira "mula-sem-cabeça". Porém, não há notícia de sanções semelhantes entre padrinho e afilhada, o que é interessante notar, nem entre madrinha e afilhado. O tabu se dá entre as pessoas do mesmo nível social, isto é, compadre e comadre.

Entre os moradores de Laranjeiras há nitidamente uma preferência em ligar-se por compadrio à família de origem, estreitando os laços entre sogro e genro, entre cunhados. Entretanto, este padrão ideal só se torna efetivo se houver proximidade de residência; caso contrário, o compadrio tende a estender-se aos vizinhos. Vejamos um exemplo: uma viúva tem um filho que mudou e se casou em Cotia – município vizinho; vive atualmente em terras do sogro. Ao nascer o primeiro filho, o padrinho escolhido foi o sogro; ao nascer o segundo, a avó materna esperava, como é de praxe, ser convidada para madrinha; o filho veio anunciar-lhe o nascimento do segundo neto e nada falou sobre o batizado. Escolheu para compadre um vizinho, já que não mantinha com a mãe contatos muito freqüentes.

Na escolha do compadre, ao que parece, a situação do vizinho é mais importante do que o status econômico; assim, são compadres: sitiantes e camaradas, parceiros e empregados de sítio sem que a diferença de situação econômica interfira.

A rede de compadrio entre moradores de Laranjeiras é grande, porque se estende aos cônjuges em caso de segunda união. Assim, herdam-se os compadres do cônjuge anterior, contribuindo o mesmo para integrar o novo casal dentro de uma vasta rede de relações sociais, sem a necessidade de refazê-la através de novos ritos de parentesco espiritual.

As famílias migrantes, recentemente instaladas em Laranjeiras, embora tenham um pequeno número de compadres no bairro, vão pouco a pouco se ligando aos moradores, integrando-se assim na vasta rede de relações sociais da vizinhança.

A função primordial do compadrio parece ser, então, o reforço das relações de parentesco e de vizinhança; o que pode ser ilustrado pela afirmação de uma viúva que trabalha como camarada: "quem tem compadres nunca está só. Roupa eu ganho, comida tenho sempre e trabalho todos me dão. Porque sair daqui se em outros lugares vou passar necessidades? Aqui estou bem. Estou só no mundo e o que vale é que tenho compadres". A obrigação de ajuda mútua implica, portanto, em ajuda econômica. Ao mesmo tempo que garante mão-de-obra para trabalhar no sítio.

O compadrio em Laranjeiras pode ter suas características assim resumidas: compadrio de batismo; a escolha ideal de compadres orientada de preferência para os parentes, efetiva e concretamente, para os vizinhos; tem função econômica; é um sistema de apoio e segurança individual, integrando indivíduos na parentela e no grupo de vizinhança. Trata-se, pois, de um reforço da parentela e das relações de vizinhança. Por isso, ao mesmo tempo figura como um elemento da estrutura da família, dada a importância dos compadres e padrinhos no interior dela, e como um elo de ligação entre a família e as outras famílias que compõem um bairro, uma vez que o padrinho é escolhido com freqüência entre os vizinhos. Desse modo, o estudo do compadrio serve como elemento de passagem também quando se procura, depois de estudar a família em suas relações internas, passar para o estudo de família em suas relações de vizinhança, no bairro.

(Fukui, Lia Freitas Garcia. Sertão e bairro rural. São Paulo, Ática, 1979, p.162-164)

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