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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
Além dos laços propriamente familiares, todas as famílias do bairro se unem umas
às outras por laços de parentesco espiritual. Portanto, ao estudar as relações de
parentesco, o compadrio não pode ser esquecido.
Quase todos os adultos em Laranjeiras estão ligados por elos de compadrio a algum morador
do bairro. Os compadres são sempre enumerados de maneira vaga: "tenho muitos",
"todos são meus compadres", "tenho mais de duzentos", confundindo-se
assim com a parentela que é também anunciada de maneira vaga, como vimos anteriormente.
A única forma de compadrio conhecida pelos moradores de laranjeiras é o batismo que une,
numa rede de obrigações mútuas, um casal, os pais e a criança. Cabe ao padrinho: zelar
pelo afilhado como se fosse seu filho, aconselhá-lo, presenteá-lo quando tiver meios, ou
então, empregá-lo como camarada preferindo-o a parentes e vizinhos. O afilhado, em
troca, deve ao padrinho o mesmo respeito que deve ao pai; deve acatar seus conselhos e
opiniões e, caso seja necessário, ampará-lo na velhice.
As relações entre compadres compreendem o respeito mútuo, a consideração "como
se fossem irmãos". Como são considerados muito próximos, suas relações são
regulamentadas. O tabu de incesto e sanções sobrenaturais vigoram com relação ao
compadre quando tiver relações sexuais com a comadre: vira "mula-sem-cabeça".
Porém, não há notícia de sanções semelhantes entre padrinho e afilhada, o que é
interessante notar, nem entre madrinha e afilhado. O tabu se dá entre as pessoas do mesmo
nível social, isto é, compadre e comadre.
Entre os moradores de Laranjeiras há nitidamente uma preferência em ligar-se por
compadrio à família de origem, estreitando os laços entre sogro e genro, entre
cunhados. Entretanto, este padrão ideal só se torna efetivo se houver proximidade de
residência; caso contrário, o compadrio tende a estender-se aos vizinhos. Vejamos um
exemplo: uma viúva tem um filho que mudou e se casou em Cotia município vizinho;
vive atualmente em terras do sogro. Ao nascer o primeiro filho, o padrinho escolhido foi o
sogro; ao nascer o segundo, a avó materna esperava, como é de praxe, ser convidada para
madrinha; o filho veio anunciar-lhe o nascimento do segundo neto e nada falou sobre o
batizado. Escolheu para compadre um vizinho, já que não mantinha com a mãe contatos
muito freqüentes.
Na escolha do compadre, ao que parece, a situação do vizinho é mais importante do que o
status econômico; assim, são compadres: sitiantes e camaradas, parceiros e
empregados de sítio sem que a diferença de situação econômica interfira.
A rede de compadrio entre moradores de Laranjeiras é grande, porque se estende aos
cônjuges em caso de segunda união. Assim, herdam-se os compadres do cônjuge anterior,
contribuindo o mesmo para integrar o novo casal dentro de uma vasta rede de relações
sociais, sem a necessidade de refazê-la através de novos ritos de parentesco espiritual.
As famílias migrantes, recentemente instaladas em Laranjeiras, embora tenham um pequeno
número de compadres no bairro, vão pouco a pouco se ligando aos moradores, integrando-se
assim na vasta rede de relações sociais da vizinhança.
A função primordial do compadrio parece ser, então, o reforço das relações de
parentesco e de vizinhança; o que pode ser ilustrado pela afirmação de uma viúva que
trabalha como camarada: "quem tem compadres nunca está só. Roupa eu ganho, comida
tenho sempre e trabalho todos me dão. Porque sair daqui se em outros lugares vou passar
necessidades? Aqui estou bem. Estou só no mundo e o que vale é que tenho
compadres". A obrigação de ajuda mútua implica, portanto, em ajuda econômica. Ao
mesmo tempo que garante mão-de-obra para trabalhar no sítio.
O compadrio em Laranjeiras pode ter suas características assim resumidas: compadrio de
batismo; a escolha ideal de compadres orientada de preferência para os parentes, efetiva
e concretamente, para os vizinhos; tem função econômica; é um sistema de apoio e
segurança individual, integrando indivíduos na parentela e no grupo de vizinhança.
Trata-se, pois, de um reforço da parentela e das relações de vizinhança. Por isso, ao
mesmo tempo figura como um elemento da estrutura da família, dada a importância dos
compadres e padrinhos no interior dela, e como um elo de ligação entre a família e as
outras famílias que compõem um bairro, uma vez que o padrinho é escolhido com
freqüência entre os vizinhos. Desse modo, o estudo do compadrio serve como elemento de
passagem também quando se procura, depois de estudar a família em suas relações
internas, passar para o estudo de família em suas relações de vizinhança, no bairro.(Fukui, Lia Freitas Garcia. Sertão
e bairro rural. São Paulo, Ática, 1979, p.162-164) |
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