Ano V - janeiro  2003 - nº 53

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 53
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA

setaquad.gif (95 bytes)O balaio ou cesto, por José Alípio Goulart.

setaquad.gif (95 bytes)O vendedor de coco verde em meados do século XX, por Francisco Barbosa Leite.

setaquad.gif (95 bytes)Fabrico de tijolos de alvenaria no interior do Brasil, por Francisco Barbosa Leite

PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

FABRICO DE TIJOLOS DE ALVENARIA NO INTERIOR DO BRASIL

Francisco Barbosa Leite


Nos diferentes estágios em que o barro se apresenta oferece ao homem aplicação vantajosa, a começar, naturalmente, pela construção da casa onde, como é sabido, sua utilidade não se limita somente às paredes toscas ou de alvenaria; na cerâmica rudimentar ou nos mais lavorados biscuits a argila tem uso freqüente, marcando algumas das principais atividades humanas. Nossas observações se reportarão, entretanto, ao fabrico de tijolos para construção, indústria próspera em todo o país, hoje altamente mecanizada nos grandes centros. Interessam-nos, especificamente, os processos primitivos ainda empregados nos rincões mais afastados, onde a maquinaria e novas técnicas, em virtude do seu alto custo, não penetraram sensivelmente, permitindo se conservem quase sem modificações os rudimentos que a tradição vem transmitindo há vários séculos.

O local preferido para a instalação de uma olaria é o baixio ou brejo, cujos leitos rasos, mas cheios de material aluvionar, oferecem colheita fácil de boa matéria-prima, além de, pelo baixo nível do solo fornecer água em abundância, vantagem pela qual pode ainda uma olaria, apesar de situar-se em um vale, extrair barro de morros circunjacentes, como acontece repetidas vezes no estado do Rio ou em São Paulo.

Geralmente uma olaria dispõe de telheiros ou galpões, onde as peças cozidas são armazenadas, aí permanecendo resguardadas das intempéries até serem vendidas. Em grandes áreas de chão batido e limpo trabalha o oleiro, abaixando-se cada vez que maneja com agilidade de acrobata a "grade" onde o barro toma a forma do tijolo. O produto sai molhado e aos pares, permanecendo, até secar, sobre uma leve camada de areia que impede sua aderência ao solo.

À margem da área ocupada pelos tijolos recentes, chamada de "lastro", sempre fica o "barreiro", depósito de onde um ajudante retira, para suprimento constante do oleiro, o barro pronto para uso imediato. A extração é feita na véspera, ficando de molho os torrões durante a noite, para no dia seguinte, em saracoteio rítmico, o caboclo esmagá-los sob os pés até obter uma pasta vigorosa que a água amolece e torna fugidia. À medida que trabalha o oleiro, o "lastro" se assemelha a um tabuleiro de xadrez pela regularidade dos tijolos dispostos em linhas paralelas e, enquanto os mais recentes aí se conservam, os tijolos enxutos vão sendo arrumados em pilhas longitudinais nas extremidades, recebendo essa arrumação provisória, ligeira proteção de palha. Antes de serem arrumados para a queima, os tijolos são "desbarbados", tarefa que consiste em raspar com facas rústicas, sem gume, as rebarbas deixadas nas arestas, e que é executada por menores.

Nas olarias mecanizadas, a peça que mais se distingue é uma prensa movida por um boi, o qual, girando em torno de um eixo, arrasta pesado cepo que vai esmagando o barro em substituição ao trabalho excessivamente cansativo em que se emprega, comumente, o ajudante do oleiro.

Na fabricação de tijolo se alinham três fases que vão da preparação do barro ao fabrico propriamente dito e à secagem conseqüente, após o que são feitas as caieiras, tarefa que requer cuidados meticulosos. Desde a arrumação, que obedece a forma de um pirâmide retangular truncada e de inclinação suave, assentando sobre uma base vertical cuja altura permita a introdução da lenha necessária à queima, a caieira se apresenta como delicado problema cujos resultados dependem de fatores diversos; o vento, inclusive, tem sua influência, devendo sua direção atingir as bocas de fogo de modo a que o calor se distribua com uniformidade por todo o conjunto. Os tijolos são cruzados uns sobre os outros até a altura conveniente, recebendo a parte externa do bloco um reboco que lhe dá aspecto inteiriço, sem frestas, para impedir que escape o ar quente. Depois de cozida durante três dias, a caieira é desmanchada, seguindo-se a remoção do tijolo é imediato e compensa o dispêndio requerido pela telha, produto onde a qualidade do barro, da lenha e mão-de-obra mais caros não oferecem grande atrativo. Subsiste, entretanto, o seu fabrico numa olaria, por cirscuntâncias óbvias. O tipo a que nos referimos é o vulgarizado como telha-vã ou colonial.

É de consistência apurada, sem grão, o barro para telha, usando-se na sua confecção uma grade de ferro que só permite fazer-se uma peça de cada vez. O oleiro trabalha sobre um cavalete inclinado, tendo como apoio uma prancha comprida de madeira de onde a placa de ferro é empurrada para a forma definitiva, o "cágado", instrumento convexo e longo que tem uma das extremidades mais estreita, servindo esta particularidade para facilitar a junção de uma telha sobre a outra, sem deixar vazar a água. Do "cágado" é a telha removida para secadores suspenso, prateleiras ventiladas e à sombra, que permitem secagem lenta. As caieiras de telhas são fixas e podem ser utilizadas durante muitas vezes, pos sua construção é de argamassa, em formato de caixão e de muita resistência, cabendo-lhe mais propriamente o nome de forno de cremação.

Brasil adentro, as populações ainda erguem suas casas com tijolos e telhas das indústrias rudimentares, o caboclo porejando suor lustroso sobre o corpo que o sol queima, modelando placas de barro que o fogo endurece para, em agrupamentos sucessivos, fazer brotar do chão violento, muros e cidades.

In Revista Brasileira de Geografia, ano 18, nº 1


(Tipos e aspectos do Brasil; excertos da Revista Brasileira de Geografia. 5ª ed. Rio de Janeiro, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Conselho Nacional de Geografia, 1949)

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