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| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
O HOMEM QUE SE JULGAVA SÁBIO |
Uma das lendas contadas por muitos dos antepassados deixou registrado que em uma certa
ocasião se deu um grande roubo que chegou a abalar diversas cidades, e cuja tentativa a
fim de descobrirem tão grande quadrilha de ladrões, causadores de semelhante atentado
nos haveres alheios, causou grandes dificuldades. O roubo foi de tamanho vulto que o rei
anunciou uma conferência, com todos os sábios da terra e de outros lugares, para se
reunirem, a fim de consultarem a maneira que deveria ser empregada, com todos os
esforços, para descobrirem o paradeiro dos objetos roubados.
Nessa mesma cidade, em um bairro um pouco afastado do meio social, existia um homem por
nome Ologbon que, confiado num grande trabalho que Eleda (anjo da guarda ou creador) lhe
mandou fazer, se intitulava de muito sábio e tinha a mania de dizer que havia de ser rico
um dia.
No dia que o rei determinou, foi realizada a conferência no palácio, sem que nenhum
daqueles grandes sábios chegasse à conclusão do que haviam de fazer para descobrir a
quadrilha dos ladrões.
Depois que terminou a audiência e que todos se retiraram, o rei, bastante aborrecido e
preocupado com aquela situação, andava de um lado para outro pensando de que forma podia
solucionar aquele grande problema. Foi quando apareceu um dos sentinelas, acompanhado de
um homem que, por despeito, foi dizer ao rei para mandar chamar Ologbon, porque, na
qualidade de sábio, era o único que podia dar a solução daquele grave problema. O rei
imediatamente fez vir Ologbon à sua presença, sob pena de morte, e disse o que queria
dele.
Ologbon não se fez de rogado, respondendo ao rei que era com grande prazer que aceitava
aquela incumbência de descobrir todos os respectivos larápios, e pediu que lhe
concedessem trinta dias para poder resolver o problema, os quais foram pelo rei
concedidos. Ologbon voltou para casa pensando como ia se ver livre daquilo que tinha
prometido fazer ao rei para resolver o caso.
No primeiro dia ele pegou um caroço de milho e disse: Nenhum deles (querendo dizer
com isso que esgotava o primeiro dia dos marcados), e botou o caroço do milho dentro de
uma latinha. É de notar que a quadrilha de ladrões foi sabedora de que o rei tinha
incumbido aquele homem, que se chamava Ologbon, arvorado a grande sábio, para descobrir o
roubo e, por desconfiança, o chefe da quadrilha mandou um dos ladrões ficar na beira da
casa de Ologbon, para escutar qualquer coisa a respeito deles; foi quando o ladrão ouviu
a voz de Ologbon dizendo dentro de casa:
Este é um deles pegando em um caroço de milho e jogando dentro da latinha.
E assim sucessivamente, cada dia vinha um dos ladrões, e Ologbon sempre colocando mais um
caroço de milho na latinha dizendo Esse é mais um deles , até quando
completou treze dias. Aí os treze ladrões resolveram ir diretamente à casa de Ologbon,
confessaram tudo o que tinham feito e pediram a ele para não descobrir o nome deles como
autores do roubo. Ologbon ficou todo confuso e atrapalhado, com a surpresa inesperada,
porém logo se refez, prometendo fazer o que fosse possível por eles.
Imediatamente, Ologbon foi ao palácio do rei em companhia dos ladrões, comunicar que
não precisava do prazo de 30 dias para resolver o problema, pois já estava senhor de
todo o ocorrido, e pediu ao rei misericórdia para os ladrões que ele ia denunciar. O
rei, muito contente pela notícia que Ologbon já tinha dado, prometeu diminuir a pena dos
ladrões o máximo possível.
Ologbon então contou tudo o que sabia do roubo e apresentou os ladrões, que logo fizeram
a entrega do roubo, quase intacto, ao rei.
O rei, muito satisfeito, convidou a todos os prejudicados para irem apanhar seus
pertences, gratificando Ologbon com muito dinheiro, juntamente com todas as pessoas que
tinham sido roubadas, ficando Ologbon milionário e com o título de primeiro conselheiro
da coroa.
Ele disse e esperou, até que o dia de ser rico e sábio chegou.
Como se está a ver, é uma versão obtida da tradição africana na Bahia, que narra
apenas o episódio principal do raconto, sem a menor referência aos episódios
secundários das demais versões brasileiras ou universais.
(Em Brandão, Téo. Seis contos populares do Brasil. Rio de
Janeiro, Instituto Nacional do Folclore; Maceió, Universidade Federal de Alagoas, 1982,
p.60) |
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