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| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
UM SANTO QUE CUMPRIU PENA NA CADEIA |
Alceu Maynard Araújo
julho de 1957 |
Em São Sebastião, cidade do beira-mar paulista, conta-nos a lenda, havia um homem
valentão, turbulento que se comprazia emï acabar com as procissões e festas religiosas.
Graças à sua valentia, ninguém ousava repreendê-lo. todos o temiam e respeitavam.
Certa manhã é encontrado morto. Segundo alguns depoimentos, seu corpo inanimado estava
na porta da igreja matriz, segundo outros, na praia.
Quem teria assassinado o valentão?
Tem início o processo, que, segundo afiançam antigos moradores da cidade, ainda se
encontra no cartório local. Várias pessoas são inquiridas.
Alguém disse: para matar esse homem só mesmo São Sebastião, nosso padroeiro, que foi
homem guerreiro. Um valentão como este só poderia ter sido morto por ele, principalmente
pelo fato de ter acabado com várias procissões em seu louvor.
Certa pessoa ao depor informou ter visto na manhã do crime, correndo pela praia, um moço
loiro, com os traços fisionômicos de São Sebastião.
Correu célebre a notícia de que foi São Sebastião quem abateu o valentão com sua
lança de guerreiro, pois o ferimento indicava ter sido por tal arma. Outros chegaram a
afirmar que uma das setas que se encontram em seu ícone, foi utilizada, pois até sangue
tinha.
Levado a juízo, São Sebastião não contestou. Continuou mudo como todas as imagens. E o
velho ditado "quem cala, consente", foi o veredito.
O santo padroeiro é julgado e condenado a vários anos de prisão pelo crime de morte do
valentão caiçara.
Dizem os antigos moradores que, de fato, São Sebastião esteve preso na cadeia local e
que por ocasião das festas do santo, a 20 de janeiro de todos os anos, pagava um alvará
de mil e seiscentos réis para que pudesse acompanhar as procissões. Havia, porém, uma
exigência: o santo sairia na procissão, acompanhado por um soldado de arma embalada para
que não fugisse, voltando depois para a cadeia, pois estava cumprindo pena de reclusão.
Cumprida essa, foi São Sebastião liberto, voltando para o altar, onde até hoje se
encontra.
(Araújo, Alceu Maynard; Taborda, Vasco José (org.).
Estórias e lendas de São Paulo, Paraná e Santa
Catarina. São Paulo, Literart, sd, t.1. Antologia ilustrada do folclore
brasileiro) |
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