Ano V - janeiro  2003 - nº 53

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


 
SUMÁRIO - EDIÇÃO 53
FESTANÇA

setaquad.gif (95 bytes)São Sebastião num reis de boi, por guilherme Santos Neves.

setaquad.gif (95 bytes)Pastoris e maracatus em Alagoas.

setaquad.gif (95 bytes)Presépios dramáticos, por Téo Brandão.

CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


PRESÉPIOS DRAMÁTICOS

Téo Brandão


Além de designar a representação plástica da cena da Natividade que a tradição cristã localizou num estábulo, a palavra presépio ou presepe strictu sensu – estábulo ou lugar onde se recolhe o gado, designa também as representações dramáticas do Nascimento de Jesus. Em algumas regiões do Nordeste (Pernambuco, Alagoas, etc.) do mesmo modo que em certas regiões de Portugal (Figueira da Foz, etc.) é presépio ou presepe também sinônimo de auto pastoril, de drama cantado rememorando o nascimento do Salvador.

Mas assim sendo diferencia-se tanto dos bailes pastoris, forma de drama da Natividade quase todo declamado nos quais, apesar do nome, é diminuta a parte bailada e cantada; quanto do pastoril comum, em que a parte dramática quase não existe senão fragmentada nas "partes" e sem qualquer ligação entre sim ou com as cantigas dançadas ou "jornadas".

De certo modo, é também sinônimo de auto das pastorinhas e alguns autores pernambucanos preferem chamá-lo, aliás caracterizando-o muito bem, de pastoril dramático familiar.

Parece o presépio, ter sido a forma primitiva dos autos e danças do Nascimento no nordeste brasileiro pois assim os denominava em Pernambuco o padre Lopes Gama no seu Carapuceiro em 1840: "Esta parece ser uma folgança endêmica do nosso Pernambuco. Em se aproximando o Natal, surgem de todas as partes os presépios, sendo a cidade de Olinda o lugar mais abundante deste genêro". E pela mesma época, assim deveriam também ser denominados em Alagoas pois no fim do século num célebre romance de costumes – Traços e troças, assim a eles se referia Pedro Nolasco Maciel: "Se ela dançou o presépio não ficou por isso ultrajada. O general Deodoro também o dançou em 1839 na cidade das Alagoas e nem por isso, etc..."

Talvez já então, como depois do fim do século passado ou no começo do atual, a palavra designasse não apenas a forma mais pura, tanto do ponto de vista dramático quanto do religioso, dos autos da Natividade, mas a própria forma profana, popular e as vezes livre do folguedo que em nosso século seria mais comumente conhecido sob o nome de pastoril.


Pelo menos em 1884 já era a palavra empregada em tal sentido por um cronista do jornal maceioense, O Gutenbergue: "E jurei a mim mesmo nunca mais passar por ali (pelo Teatro Maceioense) enquanto houver representações de presepe ou digo mal, representações de companhia pastoril, porque como sabe o leitor, os antigos presepes foram abolidos pela polícia: é uma espécie de "combinação entre amigos" que substitui a antiga rifa hoje expressamente proibida".

E antes mesmo, em 1861, em Pernambuco, segundo informe de Ascenço Ferreira: "No Jornal de Recife de 15 de dezembro de 1861, lia-se na seção "Gazetilha", o seguinte comentário: Presépios – Consta-nos que este ano temos em muitas casas esse ato religioso a que outros chamam licencioso. Entendemos que a polícia não pode proibir que qualquer particular reze ou dance e cante em sua casa como lhe convier, uma vez que não ofenda a moral pública e os bons costumes, mas é seu dever pôr cobro às torpes explorações que por aí se fazem sob a capa da religião".

No fim do século passado e até agora quando o nome pastoril passa a designar a forma profana e popular do auto das pastorinhas, a denominação presépio ou presepe torna-se rara e emprega-se apenas para nomear a forma mais acentuadamente religiosa do drama da Natividade. Assim é que a usou Ascenço Ferreira em seu trabalho Presépios e pastoris: "Concluindo: o presépio era concatenado, representando a história do nascimento de Jesus".

Em Alagoas, atualmente, ora designa os pastoris não dramáticos mas que não possuem partidos, cores nem luta entre eles, ora, como em Pernambuco, os pastoris dramáticos, concatenados.

Aliás, embora a outra forma de autos pastoris – bailes pastoris, na Bahia, Sergipe, Alagoas e Ceará, tenham sido abundantemente registrados por Melo Morais Filho, Sílvio Romero, Renato Almeida, Gustavo Barroso, Almeida Prado, Martins de Oliveira, Manuel Querino e Hildergardes Viana, não são numerosos os registros e publicações de presépios dramáticos ou de autos do Nascimento estruturados dentro do esquema também usado ainda hoje no sul da França – na Provença, nos noéis representados: prólogo com o Advento, primeiro ato com a chamada dos pastores, segundo, com a marcha dos mesmos para Belém e por fim o terceiro - adoração diante do presépio.

Auto mais ou menos com essa estrutura: prólogo com a anunciação e com as ameaças de satanás, primeiro ato, com a chamada e o sonho das pastoras, segundo, com a marcha e tentação da pastora, e terceiro, com a adoração e ofertas, encontram-se apenas, na integra publicados três no Brasil: o Auto das pastorinhas, de Gustavo Barroso em Ao som da viola, o Presépio dos Irmãos Valença, de Pernambuco, velho auto pastoril quase centenário pois data de 1865, e desde então, com pequenos intervalos, representado todos os anos em Recife (resumo e músicas no trabalho Presépios e pastoris, de Ascenço Ferreira) e, por fim, o Pastoril dramático familiar...

(Brandão, Téo. "Presépios dramáticos". Diário de Notícias. Maceió, dezembro de 1955)

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