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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
Além de designar a representação plástica da cena da Natividade que a tradição
cristã localizou num estábulo, a palavra presépio ou presepe strictu sensu
estábulo ou lugar onde se recolhe o gado, designa também as representações
dramáticas do Nascimento de Jesus. Em algumas regiões do Nordeste (Pernambuco, Alagoas,
etc.) do mesmo modo que em certas regiões de Portugal (Figueira da Foz, etc.) é presépio
ou presepe também sinônimo de auto pastoril, de drama cantado rememorando o
nascimento do Salvador.
Mas assim sendo diferencia-se tanto dos bailes pastoris, forma de drama da
Natividade quase todo declamado nos quais, apesar do nome, é diminuta a parte bailada e
cantada; quanto do pastoril comum, em que a parte dramática quase não existe senão
fragmentada nas "partes" e sem qualquer ligação entre sim ou com as cantigas
dançadas ou "jornadas".
De certo modo, é também sinônimo de auto das pastorinhas e alguns autores
pernambucanos preferem chamá-lo, aliás caracterizando-o muito bem, de pastoril
dramático familiar.
Parece o presépio, ter sido a forma primitiva dos autos e danças do Nascimento no
nordeste brasileiro pois assim os denominava em Pernambuco o padre Lopes Gama no seu Carapuceiro
em 1840: "Esta parece ser uma folgança endêmica do nosso Pernambuco. Em se
aproximando o Natal, surgem de todas as partes os presépios, sendo a cidade de Olinda o
lugar mais abundante deste genêro". E pela mesma época, assim deveriam também ser
denominados em Alagoas pois no fim do século num célebre romance de costumes Traços
e troças, assim a eles se referia Pedro Nolasco Maciel: "Se ela dançou o
presépio não ficou por isso ultrajada. O general Deodoro também o dançou em 1839 na
cidade das Alagoas e nem por isso, etc..."
Talvez já então, como depois do fim do século passado ou no começo do atual, a palavra
designasse não apenas a forma mais pura, tanto do ponto de vista dramático quanto do
religioso, dos autos da Natividade, mas a própria forma profana, popular e as vezes livre
do folguedo que em nosso século seria mais comumente conhecido sob o nome de pastoril.
Pelo menos em 1884 já era a palavra empregada em tal sentido por um cronista do jornal
maceioense, O Gutenbergue: "E jurei a mim mesmo nunca mais passar por ali
(pelo Teatro Maceioense) enquanto houver representações de presepe ou digo mal,
representações de companhia pastoril, porque como sabe o leitor, os antigos
presepes foram abolidos pela polícia: é uma espécie de "combinação entre
amigos" que substitui a antiga rifa hoje expressamente proibida".
E antes mesmo, em 1861, em Pernambuco, segundo informe de Ascenço Ferreira: "No Jornal
de Recife de 15 de dezembro de 1861, lia-se na seção "Gazetilha", o
seguinte comentário: Presépios Consta-nos que este ano temos em muitas casas esse
ato religioso a que outros chamam licencioso. Entendemos que a polícia não pode proibir
que qualquer particular reze ou dance e cante em sua casa como lhe convier, uma vez que
não ofenda a moral pública e os bons costumes, mas é seu dever pôr cobro às torpes
explorações que por aí se fazem sob a capa da religião".
No fim do século passado e até agora quando o nome pastoril passa a designar a
forma profana e popular do auto das pastorinhas, a denominação presépio ou
presepe torna-se rara e emprega-se apenas para nomear a forma mais acentuadamente
religiosa do drama da Natividade. Assim é que a usou Ascenço Ferreira em seu trabalho Presépios
e pastoris: "Concluindo: o presépio era concatenado, representando a história
do nascimento de Jesus".
Em Alagoas, atualmente, ora designa os pastoris não dramáticos mas que não possuem
partidos, cores nem luta entre eles, ora, como em Pernambuco, os pastoris dramáticos,
concatenados.
Aliás, embora a outra forma de autos pastoris bailes pastoris, na Bahia,
Sergipe, Alagoas e Ceará, tenham sido abundantemente registrados por Melo Morais Filho,
Sílvio Romero, Renato Almeida, Gustavo Barroso, Almeida Prado, Martins de Oliveira,
Manuel Querino e Hildergardes Viana, não são numerosos os registros e publicações de
presépios dramáticos ou de autos do Nascimento estruturados dentro do esquema também
usado ainda hoje no sul da França na Provença, nos noéis representados: prólogo
com o Advento, primeiro ato com a chamada dos pastores, segundo, com a marcha dos mesmos
para Belém e por fim o terceiro - adoração diante do presépio.
Auto mais ou menos com essa estrutura: prólogo com a anunciação e com as ameaças de
satanás, primeiro ato, com a chamada e o sonho das pastoras, segundo, com a marcha e
tentação da pastora, e terceiro, com a adoração e ofertas, encontram-se apenas, na
integra publicados três no Brasil: o Auto das pastorinhas, de Gustavo Barroso em Ao
som da viola, o Presépio dos Irmãos Valença, de Pernambuco, velho auto
pastoril quase centenário pois data de 1865, e desde então, com pequenos intervalos,
representado todos os anos em Recife (resumo e músicas no trabalho Presépios e
pastoris, de Ascenço Ferreira) e, por fim, o Pastoril dramático familiar...
(Brandão, Téo. "Presépios
dramáticos". Diário de Notícias. Maceió, dezembro de
1955) |
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