Ano V - janeiro  2003 - nº 53

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 53
FESTANÇA

setaquad.gif (95 bytes)São Sebastião num reis de boi, por guilherme Santos Neves.

setaquad.gif (95 bytes)Pastoris e maracatus em Alagoas.

setaquad.gif (95 bytes)Presépios dramáticos, por Téo Brandão.

CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


PASTORIS E MARACATUS

Pastoris... Eram cheios de verdadeiros encantos, os pastoris organizados por meu pai, conhecido por Dão.

De um lado, os partidários do cordão azul, o saudoso major Honório Goulart e os fortes baluartes daquela época, Antônio Barbosa, Américo Melo, Antônio Lopes, Francisco Vasconcelos e outros e, do outro lado, do cordão encarnado, elementos também poderosos como os citados acima. O apito estrilava...

Subia o pano e aparecia o palco iluminado, os bastidores representando cidades de Belém... Ouvia-se vozes, como que vindo dos céus, despertando as pastoras... Sob vibrantes e entusiásticos aplausos, surgiam as pastoras, lindas senhoritas, todas de azul e todas de encarnado, dos gorros aos sapatos, cantando o seguinte:

Descemos dos campos
A praia brincar,
Cigana Diana,
Vamos festejar...

Em seguida, a Diana cantava:

Eu sou a pastora,
Do lindo cordão
Que abraço o vosso coração.
Eu sou a Diana,
Não tenho partido,
Sempre dançando
Com satisfação.

Depois a parte do Fúria e da Libertina. O Fúria (que era o velho Dão), saltava com destreza para o palco, vestido com uma roupa de lã encarnada bem ligada ao corpo, calçado com botinas de pontas viradas, chifres pretos e asas da mesma cor e começava a cantar com a libertina que se encontrava recostada num divã:

- Tu és a pastora formosa
– Meu Deus como sou ditosa.
– Vem comigo nesta hora
– Não posso partir agora
– Deixe o dia clarear
– Minha amada, minha bela,
- Serás minha na procela.
– Não quero a tua riqueza
- Que abisma toda a natureza
– Aquela estrela que irradia,
- Tem de ser minha luz e guia.

E uma estrela aparecia, feita de papel dourado e encarnado, presa num arame.

O Fúria continuava dirigindo galanteios à Libertina, até o momento em que procurando abraçá-la e beijá-la, não o podia fazer, devido ao desencadeamento de trovoadas horrorosas, relâmpagos eletrizantes e um cheiro forte de enxofre.

E o pano descia vagarosamente, sob os protestos dos partidários vivamente entusiasmados...

Maracatus... Eram sessenta homens vestidos de camisas pretas, de meia, máscaras da mesma cor, tocado e camisas brancas, de mulher e mais sessenta figuras: rei, rainha, príncipe, princesa, vassalos, músicos, lanceiros, baliza, porta-bandeira e secretário.

Saíam à rua no domingo de carnaval. O reinado, ia debaixo de enorme chapéu de sol, de panos de diversas cores, com cabo de bambu, conduzido por dois homens musculosos, seguindo-lhe uma orquestra rústica de caixas de guerra, bombos, trompas, bombardinos, cornetas e adufos... OsSecretário, o velho Dão, conduzia uma calunga preta, de nome Quitéria, de grande tamanho e vestida de africana. Esta calunga, era enfeitada com cordões, brincos, pulseiras, pedras raras e caras e moedas antigas, pertecentes às negras da Costa, tias Felicidade, Marcelica, Raquel, Maria, Cordolina, Maria Cabet, Constância, Rosa, Alexandra e outras.

A primeira visita era feita à Igreja do Rosário, onde cantavam o seguinte:

Ou lélê, sete de ouro
Brilhando as nuvens
Deus do céu com seus poderes
Ajoelhem-se os vassalos,
Viva a Virgem do Rosário.

Em seguida, iam à praça da igreja dos Martírios, onde da sacada do Palácio, o Governador assistia as voltas e reviravoltas das figuras que cantavam alegremente:

Cabinda do Porto
Como vem contente
Trazendo na frente,
Toda a sua gente
Porta bandeira
Com sinal de Nação
E a estrela brilhando,
No meu pavilhão
Onde vai dona Rita com sua Nação.

Calurinda, tenda, tenda
Calurinda é de pópórou...

E depois, saíam da praça do Palácio e pelas ruas da cidade cantavam:

Queremos saias, camisas bordadas,
Pelas paredes, meu bem,
Assungai, assungai, assungai.

À noite, com grande acompanhamento, recolhiam-se as figuras dos maracatu. A Quitéria, devido ao ouro com que estava enfeitada, era guardada na rua do Cravo, por quatro sentinelas e dez vassalos que usavam espadas emprestadas por antigos oficiais da Guarda Nacional, como [?], rei de Espada, capitão [?] Baixa, coronel Francisco Zé e outros.

E eram assim os maracatus de um bom tempo que passou...


("Pastoris e maracatus". Gazeta de Alagoas. Maceió, 25 de dezembro 1953, 3º Cad., p.1-2)

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