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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
Pastoris... Eram cheios de verdadeiros encantos, os pastoris organizados por meu
pai, conhecido por Dão.
De um lado, os partidários do cordão azul, o saudoso major Honório Goulart e os fortes
baluartes daquela época, Antônio Barbosa, Américo Melo, Antônio Lopes, Francisco
Vasconcelos e outros e, do outro lado, do cordão encarnado, elementos também poderosos
como os citados acima. O apito estrilava...
Subia o pano e aparecia o palco iluminado, os bastidores representando cidades de
Belém... Ouvia-se vozes, como que vindo dos céus, despertando as pastoras... Sob
vibrantes e entusiásticos aplausos, surgiam as pastoras, lindas senhoritas, todas de azul
e todas de encarnado, dos gorros aos sapatos, cantando o seguinte:
Descemos dos campos
A praia brincar,
Cigana Diana,
Vamos festejar...
Em seguida, a Diana cantava:
Eu sou a pastora,
Do lindo cordão
Que abraço o vosso coração.
Eu sou a Diana,
Não tenho partido,
Sempre dançando
Com satisfação.
Depois a parte do Fúria e da Libertina. O Fúria (que era o velho Dão), saltava com
destreza para o palco, vestido com uma roupa de lã encarnada bem ligada ao corpo,
calçado com botinas de pontas viradas, chifres pretos e asas da mesma cor e começava a
cantar com a libertina que se encontrava recostada num divã:
- Tu és a pastora formosa
Meu Deus como sou ditosa.
Vem comigo nesta hora
Não posso partir agora
Deixe o dia clarear
Minha amada, minha bela,
- Serás minha na procela.
Não quero a tua riqueza
- Que abisma toda a natureza
Aquela estrela que irradia,
- Tem de ser minha luz e guia.
E uma estrela aparecia, feita de papel dourado e encarnado, presa num arame.
O Fúria continuava dirigindo galanteios à Libertina, até o momento em que procurando
abraçá-la e beijá-la, não o podia fazer, devido ao desencadeamento de trovoadas
horrorosas, relâmpagos eletrizantes e um cheiro forte de enxofre.
E o pano descia vagarosamente, sob os protestos dos partidários vivamente
entusiasmados...
Maracatus... Eram sessenta homens vestidos de camisas pretas, de meia, máscaras da
mesma cor, tocado e camisas brancas, de mulher e mais sessenta figuras: rei, rainha,
príncipe, princesa, vassalos, músicos, lanceiros, baliza, porta-bandeira e secretário.
Saíam à rua no domingo de carnaval. O reinado, ia debaixo de enorme chapéu de sol, de
panos de diversas cores, com cabo de bambu, conduzido por dois homens musculosos,
seguindo-lhe uma orquestra rústica de caixas de guerra, bombos, trompas, bombardinos,
cornetas e adufos... OsSecretário, o velho Dão, conduzia uma calunga preta, de nome
Quitéria, de grande tamanho e vestida de africana. Esta calunga, era enfeitada com
cordões, brincos, pulseiras, pedras raras e caras e moedas antigas, pertecentes às
negras da Costa, tias Felicidade, Marcelica, Raquel, Maria, Cordolina, Maria Cabet,
Constância, Rosa, Alexandra e outras.
A primeira visita era feita à Igreja do Rosário, onde cantavam o seguinte:
Ou lélê, sete de ouro
Brilhando as nuvens
Deus do céu com seus poderes
Ajoelhem-se os vassalos,
Viva a Virgem do Rosário.
Em seguida, iam à praça da igreja dos Martírios, onde da sacada do Palácio, o
Governador assistia as voltas e reviravoltas das figuras que cantavam alegremente:
Cabinda do Porto
Como vem contente
Trazendo na frente,
Toda a sua gente
Porta bandeira
Com sinal de Nação
E a estrela brilhando,
No meu pavilhão
Onde vai dona Rita com sua Nação.
Calurinda, tenda, tenda
Calurinda é de pópórou...
E depois, saíam da praça do Palácio e pelas ruas da cidade cantavam:
Queremos saias, camisas bordadas,
Pelas paredes, meu bem,
Assungai, assungai, assungai.
À noite, com grande acompanhamento, recolhiam-se as figuras dos maracatu. A
Quitéria, devido ao ouro com que estava enfeitada, era guardada na rua do Cravo, por
quatro sentinelas e dez vassalos que usavam espadas emprestadas por antigos oficiais da
Guarda Nacional, como [?], rei de Espada, capitão [?] Baixa, coronel Francisco Zé e
outros.
E eram assim os maracatus de um bom tempo que passou...
("Pastoris e maracatus". Gazeta de Alagoas. Maceió, 25 de dezembro
1953, 3º Cad., p.1-2) |
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