Ano V - janeiro  2003 - nº 53

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 53
FESTANÇA
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PALHOÇA
COLHER DE PAU

setaquad.gif (95 bytes)Comer e beber no adagiário

setaquad.gif (95 bytes)Uma bebida chamada de "gongonha", por Guilherme Santos Neves.

setaquad.gif (95 bytes)Receitas de rabanadas

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


UMA BEBIDA CHAMADA DE "GONGONHA"

Guilherme Santos Neves


Sempre me causou espécie – interessado com as coisas maiores ou menores do folclore – aquele vocábulo que, por várias vezes, ouvi encaixado num romancinho em versos: o romance do velho pintor.

Para começo de conversa aqui vai uma das variantes (de Nova Venécia) por mim gravada, há tempos, na qual, como de praxe, todos os versos são bisados:

- Toc toc
–Quem bate em minha porta?
– Sou eu, velho pintor,
que tenho uma boca torta.
– O senhor entra e pode se assentar
Eu lhe mandei chamar
Para o sobrado pintar.
– A senhora diga como é que pinto
Se é com tinta preta ou se é com papé.
– A sala quero que pinte bem pintadinha
Para recordar do finado maridinho;
A cozinha eu quero uma bananeira
Para alegrar a pobre cozinheira;
No corredor quero que pinte uma careta
Para fazer medo a essa pobre negra preta,
Empregada, traz café e pão torrado
Para dar a esse velho que veio pintar o sobrado
– Rará, inda não torrei café
– Se não tiver café traga um bule de "gongonha".

Noutra versão nossa, os versos que aqui nos importam dizem assim:

- Cozinheira, traz café com pão torrado
– Rará, eu não torrei café.
– Ô conzinheira, descarada e sem-vergonha,
Se não tiver café, traga um pouco de "gongonha".

O "rará" não creio que seja riso de mofa ou desdém da "conzinheira", mas, possivelmente, desfiguração de "Iaiá", a quem a resposta é dada.

Quanto à gongonha da cantiga é que – confesso – não sabia eu bem o que era, não o sabendo as informantes (várias) a quem formulava a pergunta, após ouvi-las cantar: a resposta, quase sempre, era simplesmente esta: é uma bebida.

Os dicionários consultados não consignavam o termo. Registram alguns vocábulos Gongó: "árvore africana, de que se extrai uma bebida que embriaga, depois de fermentada", como está no Aulete. Só.

Passam-se os tempos. Chega-me as mãos o livro Missesso – literatura tradicional Angolana; de Oscar Ribas (Tipografia Angolana Luanda, 1962, v.2) e nele encontro a primeira pista para a solução do enigma. De fato, lá está no capítulo "Culinária e bebidas" (p.88): "Gongonha – sopa fria de farinha de mandioca e açúcar ou mel". E depois: "Bastante solta, é usada em Luanda, como refrigerante".

Havia, pois, na África, uma bebida chamada gongonha que, por ser africana, bem pudera ter vindo para o Brasil, onde, no correr dos tempos, se mudou facilmente em Gongonha, conforme se diz na velha cantiga popular nossa.

A conclusão – confesso – era apressada e quase sem consistência. Por isso ficou de quarentena até agora, ou melhor, até Luís da Câmara Cascudo, eterno enamorado das coisas de negro, lança Made in Africa (Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1965).

Nesse livro, interessante e informativo como todos os que escreve, mestre Cascudo – esse livro, particularmente, fruto de suas andanças e contatos diretos e pessoais com terras e gentes da África – nesse livro se encaixa o capítulo "Dêmeter bebeu Gongoenha" (p.102-104).

Começa o sábio mestre por um conselho: "Não peça Gongoenha em Luanda nem noutra qualquer paragem de Angola. É uma bebida para gente íntima, feita em casa, conhecida no mundo doméstico. Popularíssima. Não se vende em parte alguma. Faz-se e bebe-se". E depois: "Não procure nos dicionários nem a mencione conversando com amigo importante. Dará impressão de vulgaridade total".

E nos conta o que lhe ocorreu "no mercado municipal de Quinaxixe", onde viu "uma mulher preparar uma bebida e fazê-la beber ao miúdo que conduzia amarrado as costas, como um japonesa". Curioso, procurou logo saber o que era: "Atinei que era farinha de mandioca, um pouco de açúcar e água. Mexeu e serviu-se, com um sopro de satisfação regalada. Lá fui perguntar o nome: - Gongoenha! Respondeu, num sorriso integral de 32 dentes cintilantes!".

Não satisfeito em saber o nome da bebida e o como se fazia, mestre Cascudo logo dela provou: "Daí a minutos bebia em um copo de gongoenha manipulado pela minha professora reluzente. E conclui: "Era xibé amazônico. Jacuba, noutras regiões do Brasil". Aí faz remissão ao verbete ("jacuba") do seu grande Dicionário do folclore brasileiro – copioso no registro – para onde envio o leitor, acaso interessado.

Estava esclarecida a nossa dúvida? Quase. É que, mais adiante (p.103), Cascudo escreve: "O nome de Gongoenha é que me fez recordar uma bebida brasileira, indispensável no sul, a congonha, erva mate, illex congonha"...

Seria a Gongonha capixaba mera alteração de congonha? Aliás, na última versão que agora, recolhi, letra e música, a iaiá pede a negrinha: "se não tiver café traz um bule de congonha"...

Congonha é mate, bebida mais presente no sul do país. Gongonha é bebida caseira, fácil de fazer e beber. Em versões de outros estados não se encaixa, no romance do Velho pintor, o "episódio" da gongonha. Veja-se, por exemplo, a de Minas Gerais ("Senhor mestre", in Cantigas das crianças e do povo. Rio de Janeiro, s/s p.51-52; também em Melodias registradas por meios não mecânicos, publicação do Arquivo Folclórico da Discoteca Pública Municipal, São Paulo, 1946, duas versões, p. 67 e 68).

E afinal?

Gongoenha, gongonha, congonha – duas bebidas iguais ou três bebidas diferentes?

(Neves, Guilherme Santos. "Uma bebida chamada de gongonha". A Gazeta. Vitória, 1 de junho de 1969)

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