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| CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre
música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios;
romances; cantos religiosos; quadras, pasquins... |
AS PERGUNTAS DO REI E AS RESPOSTAS DE JOÃO GRILO |
Leitor leia este romance
Prestando toda atenção
Falando sobre João Grilo
Este grande advinhão
Que decifrava na hora
Qualquer advinhação.
João Martins de Ataíde
Fez um romance versado
As proesas de João Grilo
Assim é intitulado
Este livro hoje pertence
Ao editor Zé Bernado.
Outro livro publicado
Por Paulo Nunes Batista
Novas proezas de João Grilo
E uma velha anarquista
A viúva de Cancão
Que foi grande vigarista.
Afinal acerca dele
Há diversas narrações
Eu também vou escrever
Porque achei condições
Para contar de João Grilo
Suas adivinhações.
João Grilo era franzino
Amarelo e preguiçoso
Pançudo e boca grande
Sonso e astucioso
Quando falavam em trabalho
Ele ficava nervoso.
Era casado e morava
Numa pequena casinha
Levando com sua esposa
Uma vida pobrezinha
Porque para trabalhar
Coragem João não tinha.
A mulher dizia João
Meu velho vá trabalhar
Para ver se arruma um meio
Que dê bem para nos passar
Que talvez esta pobreza
Se acabe de nosso lar.
João sempre respondia
Uma charada qualquer
Dizendo desta maneira
A sua boa mulher
Eu não gosto de fazer
O que a vontade não quer.
Mas ela sempre xingando
Da preguiça de João
Que ele uma certa vez
Respondeu nesta razão
Vou ser de agora em diante
Grande mestre adivinhão.
A mulher lhe respondeu
És uma pessoa lerda
Grilo o que estás dizendo
São coisas que não se herda
Tuas advinhações
No fim vão tornar-se em merda.
João Grilo não deu ouvido
À resposta da mulher
E disse eu vou viajar
Porque meu destino quer
E largou-se pelo mundo
Enfrentando que vinher.
Até que um dia chegou
Num reino desconhecido
E declarou-se que era
O João Grilo destemido
Advinhador das coisas
Inteligente e sabido.
Todo povo admirou-se
Da conversa de João Grilo
Porque João conversava
Com muita base e estilo
Todos diziam este homem
Faz gosto a gente de ouvi-lo.
Porém neste dito reino
Estava uma confusão
Porque haviam roubado
O tesouro da nação
E ninguém sabia ainda
Quem tinha sido o ladrão.
E correndo a notícia
Que ali tinha chegado
Este mestre adivinhão
O rei mandou um recado
Pra João comparecer
Lá na corte do reinado.
Chegando João na corte
O rei lhe interrogou
Quero saber com quem falo
João assim respostou
Sou o Grilo mais falado
Que este mundo gerou.
E o senhor adivinha
Lhe perguntou o sultão
João Grilo lhe respondeu
Conforme a adivinhação
Que não der muito trabalho
A minha imaginação.
João Grilo você me diga
Quem roubou o meu tesouro
Se me disser a verdade
Vai ganhar bastante ouro
Mas se disser o contrário
Eu mando tirar-lhe o couro.
João disse: Majestade
Sou positivo em dizer
Que esta sua pergunta
É dura de responder
Quero o prazo de três dias
Prá dar tempo eu resolver.
Com isto o rei se sentiu
Cheio de ódio e vingança
E mandou prender João Grilo
Num quarto de segurança
Vigiado por três negros
De inteira confiança.
Pela manhã muito cedo
Foi feita esta prisão
Durante o dia só tinha
Direito uma refeição
Às seis da noite um dos negros
Leva a bóia de João.
Leitor eu agora aqui
Vou dar uma explicação
Que estes citados negros
Cada um era o ladrão
Foram eles quem roubaram
O tesouro da nação.
Tanto o rei como os vassalos
Eram bons amigos deles
Por isto que as suspeitas
Nem uma caía neles
Pois ninguém não esperava
Que os ladrões fossem eles.
Falo em João que estava
Lá na prisão em jejum
O negro levou a ceia
Ele, comeu sem lundum
Depois exclamou meu Deus!
Dos três agora vi um.
Porém João se referiu
Foi a sua dura sina
Porque de adivinhar
Não sabia patavina
E nos três dias entregava
Seu pescoço a guilhotina.
O negro inexperiente
Disto não compreendeu
Pegou os pratos e saiu
Como quem enloqueceu
Foi contar aos seus amigos
Tudo que aconteceu.
Chegando lá disse a eles
A coisa não está boa
Aquele adivinhão
Vai deixar nós tudo à toa
Assim que ele me viu
Conheceu minha pessoa.
Os dois negros duvidaram
Como isto não se deu
Então o segundo disse
Amanhã quem vai sou eu
Quero vê se ele adivinha
Também o segredo meu.
Falo no segundo negro
Que foi na hora marcada
Levar a ceia a João Grilo
Com a mente pertubada
João que estava com fome
Da bóia não deixou nada.
João assim que comeu
Exclamou logo depois
Pensando em sua sentença
Dessa maneira propôs
Há meu senhor! Grande Deus!
Dos três eu já vi os dois.
O negro sentiu um choque
Que quase caiu no chão
Correu e disse aos amigos
Está feita a perdição
Já vi que aquele amarelo
É um grande adivinhão.
O terceiro negro disse
Eu só creio quando eu vê
Amanhã quem vai sou eu
Levar o seu de comer
Quero vê o tal João Grilo
Comigo o que vai dizer.
Afinal o negro foi
Por certo no outro dia
Deu o almoço a João Grilo
Que na prisão padecia
João nesta hora comeu
Toda comida que ia.
O negro ficou de parte
Desconfiado talvez
João findando o almoço
A mesma exclamação fez
Há meu senhor! Grande Deus!
Dos três já vi todos os três.
O negro neste momento
Caiu nos pés de João
Dizendo eu agora vi
Que és grande adivinhão
Por conhecer que roubei
O tesouro da nação.
E fazendo a João Grilo
As maiores implorações
Para não dizer ao rei
Estas vergonhosas ações
Que ele com seus amigos
Eram os terríveis ladrões.
Na hora os outros dois negros
Chegaram num desadouro
Caíram nos pés de João
No mais alarmante choro
Oferecendo ao Grilo
Grande quantia de ouro.
Disse João vão buscar
Todo o tesouro do reiPara o seu legítimo dono
Pois isto é de pura lei
E a vida de vocês
Vou vê se defenderei.
Os negros foram e trouxeram
Todo o tesouro real
E entregaram a João Grilo
O imenso cabedal
E gratificaram a ele
Com bastante capital.
Daí a poucos momentos
O rei mandou um soldado
Dizer a João que o prazo
Já havia completado
E ele vinhesse ugente
Para a corte do reinado.
Grilo trancou os três negros
Naquela mesma prisão
E saiu com o soldado
Cheio de satisfação
Levando ali a resposta
Da sua adivinhação.
A corte estava repleta
Da mais alta fidalguia
Ansiosos para ouvirem
O que João Grilo dizia
Já tenho quase a certeza
Que o amarelo morria.
Grilo saudou ao rei
No seu trono bem sentado
E lhe entregou nas mãos
Seu tesouro desejado
O rei teve uma supresa
Que quase cai desmaiado.
E perguntou a João Grilo
Me diga os ladrões quem são?
Respondeu são os três negros
Da vossa estimação
Que me levavam o café
E vigiavam a prisão.
O rei já muito nervoso
Disse assim para João Grilo
Estou muito satisfeito
Por ter prazer em ouvi-lo
E me peça alguma coisa
Que eu poderei servi-lo.
João respondeu eu tenho
Dois pedidos a lhe fazer
É perdoar os três negros
Pelo o seu mal-proceder
E deixar eu ir embora
Que já cumpri meu dever.
O rei lhe disse eu perdôo
Aqueles negros safados
Mandou chamá-los e disse
Todos três estão perdoados
Porém ao fizerem outra
Serão todos degolados.
E disse para João Grilo
Gostei das suas ações
Quero que você demore
Para dar outras lições
Que eu vou lhe perguntar
Outras adivinhações.
João disse eu faço tudo
Que sua alteza quiser
Faça lá suas perguntas
Como bem lhe convier
Que garanto responder
Na altura que souber.
O rei particularmente
Com a rainha combina
Para ela quando for
Defecar na lá na latrina
Colocar as suas fezes
Dentro de uma terrina.
Feito isto o rei botou
A terrina numa mesa
E na hora do jantar
O rei cheio de aspereza
Fez ao pobre João Grilo
A mais tremenda supresa.
Perguntou: Grilo o que tem
Dentro daquela terrina?
Eu sei que você conhece
Tudo que a gente imagina
Pois você parece ter
Uma inspiração divina.
João disse esta parada
Eu não sei quem é que herda
Lembrou-se da esposa quando
Chamou-lhe pessoa lerda
Minhas adivinhações
No fim se tornaram em merda.
O rei disse é isto mesmo
Que na terrina contém
A tudo quanto eu lhe pergunto
Você me responde bem
Um grilo como você
No mundo todo não tem.
O rei pegou uma porca
Que era do seu agrado
E botou-a num barril
Bonito bem asseado
E depois mandou cobrir
Deixando tudo fechado.
E depois de tudo pronto
O rei bem calmo e sutil
Perante ali muita gente
Fez um pensamento vil
João: o que é que tem
Dentro daquele barril?
Grilo disse dessa vez
Parece que me acabo
Estou igual um toureiro
Enfrentando um touro brabo
Chegou agora o momento
Onde a porca torce o rabo.
O rei nesta hora deu
Uma longa gargalhada
Soltando a porca que estava
Dentro do barril trancada
E disse para João
Não tem pergunta enrascada.
O rei avistou um grilo
E pegou-o com atenção
Escondeu e perguntou
Na mesma hora a João
Diga o que é que tenho
Trancado na minha mão.
João disse esta pergunta
Pelo que já estudei
Parece que vai sair
Da maneira que pensei
O pobre do grilo vai
Se acabar nas mãos do rei.
O rei disse muito bem
Bravo João adivinhou
E abrindo a sua mão
O grilo fora saltou
E logo outra charada
O rei assim perguntou.
Manda cá porém lá não
Todo gosto não se faz
Nove letras no seu nome
Em consoantes e vogais
Andando nu sem camisas
Como quem não tem bons pais.
João Grilo lhe respondeu
Isto é o mandacaru
Uma planta espinhosa
E de folha todo nu
Começa na letra m.
E finda na letra u.
João Grilo você aqui
Está sendo professor
Onde é o meio do mundo?
Me responda por favor
Respondeu é onde está
O grande rei meu senhor.
Então me diga por que?
Diz o rei todo iracundo
Porque o globo é redondo
Respondeu João num segundo
E em qualquer um lugar
Pode ser o meio do mundo.
O rei perguntou João
Quanto eu posso valer?
Estude bem direitinho
Como pode responder
Repare que eu sou um rei
Que tenho um grande poder.
É 29 dinheiro
O teu principal valor
Jesus Cristo valeu 30
Nosso rei e salvador
Tu que só és rei na terra
É o mais inferior.
Grilo eu tenho outra pergunta
Para fazer ao senhor
Por cima do pinho o linho
Por cima do linho a flor
E a flor é preparada
Para receber o amor?
O pinho é uma mesa
De madeira construída
O linho é a toalha
Sobre esta mesa estendida
A flor representa o prato
O amor é a comida.
Diga qual é a mulher
Que eu lhe tenho honraria
Ela é irmã legítima
Da minha legítima tia
Porém não é tia minha
E ninguém não desconfia.
A mulher que é irmã
Da tua legítima tia
É a tua própria mãe
Que tanto te auxilia
E assim de qualquer um
Entenda quem não sabia.
Grilo você me responda
Nesta mesma ocasião
Qual é a coisa no mundo
Usada em qualquer nação
Que dá pra encher uma casa
E não enche uma mão?
(Em Brandão, Téo. Seis contos populares do Brasil. Rio de
Janeiro, Instituto Nacional do Folclore; Maceió, Universidade Federal de Alagoas, 1982,
p.54-58) |
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