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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...


setaquad.gif (95 bytes)O calendário no folclore

setaquad.gif (95 bytes)Janeiro

setaquad.gif (95 bytes)Pelo correio eletrônico

setaquad.gif (95 bytes)Calendário

setaquad.gif (95 bytes)Latrinália

setaquad.gif (95 bytes)No estradão

setaquad.gif (95 bytes)Na parede do boteco

setaquad.gif (95 bytes)Provérbios

setaquad.gif (95 bytes)Escrito em papel moeda

Janeiro é um bom e prestativo camarada. É um digno mês. Eu considero janeiro um misto de filósofo epiteteano e de médico psiquiatra – Zenon e Juliano Moreira ao mesmo tempo. Janeiro é o mês da calma, da reposição do valores.

É sabido que em dezembro a Humanidade perde coletivamente o juízo, isto é, piora o seu já aflitivo estado de ilusão com um furioso ataque da esperança na felicidade. Os réveillons, a árvore de Natal, o sapato do Pai Noel, os grandes prêmios da loteria são as provas do curioso delírio coletivo.

- O ano que vem vai ser melhor!

Todos repetem o anelo com tanta insistência que, quando chega o fim de dezembro, estamos absolutamente convencidos de que o ano futuro vai ser mesmo muito melhor. As esperanças são terríveis achincalhes da imaginação. Já dizia isso o velho Ésquilo pela boca do seu Prometeu. Assim o último dia de dezembro é uma epilepsia da ilusão universal. E só o sábio pode descobrir o vácuo da esperança na felicidade. Se todos a desejam – é que ninguém a tem

Exatamente, à meia-noite do dia de São Silvestre, janeiro aparece no vasto hospício. É metade Juliano Moreira e metade Epitecto. Agarra a multidão que estrebucha na licença alucinada (licença que na Grécia tinha o véu sagrado de ser mistério divino) – e força-a a deitar-se. Tal qual Juliano Moreira com os loucos furiosos. E o dia de Ano Bom é afinal de contas um dia de sono, de vago jejum, de lassidão, de cansaço. O rico ergue-se e nem pensa. Tomou champanhe e o champanhe, se faz pensar muito enquanto é bebido, deixa como efeito o embrutecimento. O pobre pensa no dia seguinte, nos afazeres que lhe dão o sustento, na noite de excesso que lhe desorganiza o horário entre a labuta e o repouso. O miserável não pensa. Se todos os miseráveis pensassem um dia inteiro de comum acordo na própria condição, há muito o mundo seria outro...
No dia seguinte janeiro Juliano Moreira aplica o vasto hospício em exercícios – nos exercícios de que cada um gosta mais ou mais habituado está em fazer. Volta então o manicômio à mesma ordem anterior. As mulheres tentam e invejam-se, os homens trabalham, roubam, infamam e invejam-se. Tudo como d’antes. Uma ou outra vez, janeiro encontra o sonhador renitente, o que se lembra com tristeza do seu delírio pela felicidade.

Então janeiro deixa de ser o sábio Juliano Moreira, toma a impassibilidade de Epitecto e diz:

- A felicidade é indiferente. Não há felicidade nem infelicidade. No mundo existem apenas opiniões. Tudo é aparência. Nada existe.

E o ano inteiro corre até dezembro – de novo... Durante esse novo ano há outros delírios da Humanidade, no Hospício Mundo – delírios coletivos ou parciais – o Carnaval, as guerras. Mas o grande delírio, o pior ataque, a esperança na felicidade só rebenta em dezembro para ser logo curado pelo grande janeiro.

Também existiria ainda a Humanidade, se sob a ação das devastadoras esperanças, da frenética fúria de felicidade, não tivesse logo o socorro de janeiro?

Janeiro é um bom e positivo camarada. É um digno mês. Põe o Hospício da Humanidade de novo em seu lugar...

Joe (13/01/1917)


(João do Rio. Crônicas Efêmeras)

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