Janeiro é um bom e prestativo
camarada. É um digno mês. Eu considero janeiro um misto de filósofo epiteteano e de
médico psiquiatra Zenon e Juliano Moreira ao mesmo tempo. Janeiro é o mês da
calma, da reposição do valores.
É sabido que em dezembro a Humanidade perde coletivamente o juízo, isto é, piora o seu
já aflitivo estado de ilusão com um furioso ataque da esperança na felicidade. Os réveillons,
a árvore de Natal, o sapato do Pai Noel, os grandes prêmios da loteria são as provas do
curioso delírio coletivo.
- O ano que vem vai ser melhor!
Todos repetem o anelo com tanta insistência que, quando chega o fim de dezembro, estamos
absolutamente convencidos de que o ano futuro vai ser mesmo muito melhor. As esperanças
são terríveis achincalhes da imaginação. Já dizia isso o velho Ésquilo pela boca do
seu Prometeu. Assim o último dia de dezembro é uma epilepsia da ilusão
universal. E só o sábio pode descobrir o vácuo da esperança na felicidade. Se todos a
desejam é que ninguém a tem
Exatamente, à meia-noite do dia de São Silvestre, janeiro aparece no vasto hospício. É
metade Juliano Moreira e metade Epitecto. Agarra a multidão que estrebucha na licença
alucinada (licença que na Grécia tinha o véu sagrado de ser mistério divino) e
força-a a deitar-se. Tal qual Juliano Moreira com os loucos furiosos. E o dia de Ano Bom
é afinal de contas um dia de sono, de vago jejum, de lassidão, de cansaço. O rico
ergue-se e nem pensa. Tomou champanhe e o champanhe, se faz pensar muito enquanto é
bebido, deixa como efeito o embrutecimento. O pobre pensa no dia seguinte, nos afazeres
que lhe dão o sustento, na noite de excesso que lhe desorganiza o horário entre a labuta
e o repouso. O miserável não pensa. Se todos os miseráveis pensassem um dia inteiro de
comum acordo na própria condição, há muito o mundo seria outro... |
No dia seguinte janeiro Juliano
Moreira aplica o vasto hospício em exercícios nos exercícios de que cada um
gosta mais ou mais habituado está em fazer. Volta então o manicômio à mesma ordem
anterior. As mulheres tentam e invejam-se, os homens trabalham, roubam, infamam e
invejam-se. Tudo como dantes. Uma ou outra vez, janeiro encontra o sonhador
renitente, o que se lembra com tristeza do seu delírio pela felicidade.
Então janeiro deixa de ser o sábio Juliano Moreira, toma a impassibilidade de Epitecto e
diz:
- A felicidade é indiferente. Não há felicidade nem infelicidade. No mundo existem
apenas opiniões. Tudo é aparência. Nada existe.
E o ano inteiro corre até dezembro de novo... Durante esse novo ano há outros
delírios da Humanidade, no Hospício Mundo delírios coletivos ou parciais
o Carnaval, as guerras. Mas o grande delírio, o pior ataque, a esperança na felicidade
só rebenta em dezembro para ser logo curado pelo grande janeiro.
Também existiria ainda a Humanidade, se sob a ação das devastadoras esperanças, da
frenética fúria de felicidade, não tivesse logo o socorro de janeiro?
Janeiro é um bom e positivo camarada. É um digno mês. Põe o Hospício da Humanidade de
novo em seu lugar...
Joe (13/01/1917)
(João do Rio. Crônicas Efêmeras) |