Hermógenes Lima Fonseca
Se cair um aguaceirozinho no dia 1º de janeiro, recebemo-lo com alegria, é sinal de que
teremos um ano com fartura. A água dessa chuvinha boa de janeiro é benéfica, tem suas
virtudes terapêuticas e uma delas é dar para as crianças que estão custando a falar e,
então se for bebida num chocalho, até mudo fala. Daí se dizer dos pimpolhos tagarelas:
"Esse menino parece que bebeu água de janeiro!" ou "Arre, parece que bebeu
água de chocalho".
No Nordeste tomam-se os doze primeiros dias de janeiro como previsão do tempo durante o
ano. Se chover no segundo dia choverá em fevereiro, e cada dia que chover corresponderá
ao mês em que haverá chuva.
Mas, o que se fizer no primeiro de janeiro far-se-á durante o ano todo. Melhor, então,
que nada se faça para que do dia seguinte em diante, siga a rotina com novo alento, com
novas esperanças. Quem trabalha no dia primeiro de janeiro trabalhará sem descanso todo
ano. No primeiro dia do ano deve-se "envergar" uma fatiota nova porque é um bom
presságio.
Janeiro é verão e verão tem cheiro de abacaxi, assim como junho é inverno e inverno
tem cheiro de sumo de laranja. Observação curiosa que me fez um banqueiro do mercado.
Na feitura do nosso atual calendário conservaram-se os nomes de alguns deuses da
mitologia romana e Janeiro era um deus de duas caras, naturalmente, porque uma ficava
olhando o passado e outra para o futuro, para o novo ciclo a se iniciar. Talvez tenha suas
raízes nessa representação mitológica a expressão: indivíduo de duas caras, isto é,
pessoa de duas palavras, negando adiante o que afirmou antes, não merecendo crédito as
suas palavras. Mas, nessa mudança do calendário, segundo a observação de um amigo,
prevaleceu o "puxa-saquismo", já existente naquela época, ou o engrossamento
como denominava esses atos bajulatórios o nosso Graciano. Observava, então, o amigo:
Sabe porque julho e agosto, dois meses juntos com trinta e um dias cada um? A
denominação foi em homenagem aos dois imperadores romanos Júlio e Augusto e não
era possível ficar um com trinta dias e outro com trinta e um, vez que os homenageados
estavam no mesmo plano. Tiraram então, um dia de fevereiro para colocar em agosto. Isso,
porém, trouxe uma vantagem para o processo mnemônico para se saber o número de dias de
cada mês, contando-se na mão aberta com os dedos formando ângulos, do mínimo para o
indicador. Na ponta do dedo mínimo janeiro com 31 dias; no vértice do ângulo
formado com o anular fevereiro, na ponta do anular março e assim
sucessivamente. Ou com a mão fechada (como eu uso), fazendo nas articulações do
metacarpo com a falange, de sorte que julho termine na cabeça do indicador, voltando-se a
contar o restante do semestre e seguinte, recaindo agosto na ponta do dedo mínimo ou em
sua articulação. É um processo melhor sem dúvida, do que a sextilha: |
Trinta dias tem setembro
Abril, junho e novembro
Fevereiro vinte e oito tem
Se for bissexto mais um lhe dêem
Trinta e um todos terão.
Na crendice popular o pior mês é agosto, porque agosto traz desgosto. É um mês
azarento, um mês de desatres, um mês de desgraça. E quando o dia 13 de agosto cai numa
sexta-feira? Muita gente sai de casa.
Além dos horóscopos, baseados no signos do zodiaco, os meses têm grande influência em
muitas coisas. Os meses que têm R e os que não têm, influem nas plantações, nos
frutos, nos mariscos. "Purgante de vermes não se deve dar às crianças nos meses de
R". "Não adianta que não bota vermes". Não sei se o doutor Jolindo sabe
disso. Se ignorar talvez o doutor Cristiano, que também é mestre no folclore,
esclarecerá com seus conhecimentos folclóricos da medicina.
Todos os meses têm os seus significados e a sua importância na vida do povo. Maio é o
mês das flores, mês de Maria, mês das novenas e as tardes mais lindas são de abril.
Setembro é a primavera e dezembro o mês das festas. Fevereiro é carnaval, embora caia
em março ou nos princípios de abril seguido da quaresma com as tortas e mexidos. Junho
é o mês das fogueiras, das festas de caipira, das quadrilhas, das mazurcas, das canjicas
e batata-doce. São as festas juninas ao som da sanfona ou cabeça de boi, embora tenha a
freqüência do acordeom que é sanfona de rico no dizer do povo. Novembro é mês dos
mortos e do dia de São Nunca, dia das dívidas do esquecimento, dia em que os caloteiros
devem ser lembrados, mas como esse santo deixou de ter os seus devotos e fazer os seus
milagres, o imposto de renda permite as provisões e as deduções em lucros e perdas,
desde que se declare o nome dos "canos de ferro" e os motivos. (É bom frisar
que a permissão é para as pessoas jurídicas, para depois não amolar o Guaracy). Julho
é um mês sem cartaz e em outubro está o dia dos cachorros, designação desairosa que
não gosto de usar pelo que merece a classe dos Barnabés.
E assim decorre a vida em mais um ano que iremos viver, meus amigos. Comemorarei minha
primaveras, já estou contando a minha idade pelos janeiros e daqui há pouco estarei no
outono da vida. Mas, apesar de tudo isso, vamos entrar o ano com o pé direito.
(Fonseca, Hermógenes Lima. "O calendário no folclore". A Gazeta. Vitória, 31 de dezembro de 1957)
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