Jangada Brasil – janeiro 2003 – nº 53 – Oficina: O balaio ou cesto

O BALAIO OU CESTO

 

 

José Alípio Goulart

 

Obedecendo à inspiração exógena, o balaio, é um cesto grande, feito de taquara, cipó ou lascas de bamburedondo, de boca aberta, cuja circunferência é bem maior que a do fundo, sem asas, com um palmo ou pouco mais de fundo, embora suas dimensões sejam muito variadas, e que é transportado na cabeça como o tabuleiro e a gamela. Esse instrumento de transporte é encontradiço em todo o Brasil, tanto no interior como no litoral, e sua serventia é das mais variadas.

Em Pernambuco, denomina-se balaio a cestos feitos de timbó, da casca das folhas do dendezeiro, ou de outras substâncias vegetais, de tamanhos e formas diversas. Esse instrumento presta-se ao transporte das mais diversas mercadorias desde que estas se ajustem ao seu interior e não escapem pelas frestas nele existentes. Frutas, verduras, pão, aves, peixe, postas de carne, são mercadorias, entre outras, comumente transportadas em balaio nas cidades e vilas do interior.

Há duas maneiras de carregar balaio ou balaios; uma é também aquela que mencionamos para o tabuleiro e que não vamos repetir. A outra, é a que requer o auxílio de um caibro fino, mas de madeira forte, a que chamam calão. Dependurados das extremidades do calão pendem os cestos, sustentados cada um por três pernas de cordas, que partindo de suas bordas vêm juntar-se em nó por sob o qual é enfiada a ponta do calão; colocando este sobre um dos ombros, o carregador levanta-o, suspendendo os dois cestos, parecendo o conjunto com uma balança em que os balaios são os pratos e o homem o fiel…

Ainda com auxílio do calão existe um aparelho muito curioso, utilizado na venda de verduras e frutas. Nesse aparelho é de seis o número de cestos empregados, sendo três de cada lado; e, ao invés de cordas, são utilizadas varas finas e resistentes, em número de três ou quatro de cada lado. Amarram-se juntas uma das extremidades das varas para poderem pendurá-las ao calão; depois enfiam-nas pelas bordas dos três cestos de tamanhos diferentes sendo a ordem crescente de cima para baixo; depois de atravessar as bordas do último cesto, há uma sobra das pontas das varas que servem de apoio ou tripé quando o aparelho é depositado no chão.

Pacaré

Essa é a denominação que dão na Amazônia a um tipo de cesto, arredondado, tecido com folhas das palmeiras tucum ou tucumãmiritiambé e outras. Esses cestos são fabricados especialmente por indígenas do Rio Branco, com as folhas previamente coloridas, lhes dando uma aparência e beleza originais.

Tais receptáculos são utilizados por vendedores ambulantes, e também nas residências como adorno e para guarda de materiais caseiros.

Paneiro

É também na Amazônia que vamos encontrar, com mais freqüência, o paneiro. cesto sem asas, fabricado de talas de palmeira e protegido por folhas de ubim. Usam muito esse instrumento para o acondicionamento e transporte de farinha-d’água, no que é tido até como elemento de medida. Um paneiro de farinha contém de 10 a 12 quilogramas do produto. Há desses cestos, porém, para outros misteres e de vários tamanhos. Teschauer menciona o paneiro como medida de 50 litros.

Garaguá

No Rio Grande do Norte, na Paraíba e em Pernambuco há um tipo de cesto, oblongo, que serve para a condução de peixes secos e de louça de barro, em lombo de animal ou em número de dois pendentes de um calão, no ombro de carregadores, a que dão o nome de garaguá.

Esse instrumento é composto de duas peças chatas e quadrangulares, com cerca de 66 centímetros de comprimento e 55 centímetros m de largura, formada cada peça por quatro varas presas pelas extremidades, enchendo-se o intervalo com embiras ou palhas de caunaúma tecidas em malhas longas. Em garaguás conduzem-se também galinhas e outras aves.

Gigo

É em Pernambuco que se dá essa denominação a um engradado de verga ou junco, interiormente forrado de palha, muito utilizado no transporte de louça de barro. O figo pouco diferencia do garaguá.

Baquité

Trata-se de uma espécie de cesto que os indígenas costumavam trazer preso à testa e dependurado nas costas. Esse instrumento era muito usual na região central, principalmente em Mato Grosso.

“Consistia o trabalho na cata de diamantes, que vão buscar: para isso vão sempre dois companheiros com um baquité prêso a uma corda.” [1]

Patuá

Entre os índios que observou no Nordeste, Nieuhof registrou o uso de cestos de folhas de palmeira a que chamavam de patiguá [2, p.313]. Do patiguá indígena derivou o patuá, que serve para identificar diversas espécies de receptáculos onde se arrecadam e se transportam as mais variadas coisas.

Em algumas regiões do Norte, segundo Beaurepaire-Rohan, patuá é uma bolsa de couro, de que se servem os sertanejos para o transporte de favos de mel. No Pará, é uma espécie de cesto ou balaio; e até dão particularmente o nome de patuá balaio a uma caixa com repartimentos para comida, louça, vidros e talheres, que usam nas viagens fluviais. Aramando Mendes registra patuá como sendo pequeno baú ou caixa usado pelo índio [3]. Em São Jorge de Ilhéus, na Bahia, é uma caixa com tampa de forma elíptica, a que chamam também de patiguá.

Uru

É uma espécie de cabaz, cesto ou bolsa, com tampa, fabricado com fibras de palmeira, cipó fino ou com palha. Esse instrumento de transporte era muito conhecido nas antigas províncias do Norte, onde servia de mala de viagem. Alguns eram grandes e podiam conter tanta carga quanto um caçuá. Os caboclos da Amazônia utilizavam-se muito do uru quando empreendiam viagem.

Com a mesma denominação é conhecido um tipo de cesto, feito de palha, onde os pescadores guardam, na canoa, certos objetos miúdos como cachimbo, fósforos, baralho, canivete, anzóis, tabaco e mesmo dinheiro, etc.

Sírio-Çaua

Curiosa essa denominação que, segundo Maciel Pinheiro, dão, no Nordeste, a uma espécie de cofo feito de palha e que serve para conduzir qualquer coisa [4].

Atuá — Aturá — Uaturá

É no estado do Pará onde se encontra com mais freqüência esse tipo de cesto feito de talas de guarumã ou de jacitara. De forma cônica ou cilíndrica, sua altura atinge a quase dois metros. Adicionam-lhe quatro paus exteriormente e ao comprido, a fim de lhes servir de pernas.

Os caboclos das roças são quem mais usam esses cestos para transportar mandioca ou quaisquer outros produtos agrícolas. Carregam-no pendurado às costas, suspenso por uma embira fixada na testa, ou nos ombros passando pelas axilas.

A denominação é proveniente do dialeto tupi do Amazonas. e tem por sinônimo uruçanga como ainda são tais cestos conhecidos. Há quem informe que o atuá também serve para a guarda de instrumentos de pesca.

Congá

É A. Rangel quem menciona, com essa denominação, uma espécie de cesto que servia de instrumento de transporte. São dele as seguintes palavras:

“… ou ia à visita, trasladando em congás e samburás, as roupas de muda, para o acantonamento por um dia ou mais” [5 — pág. 55].

Capoeira

No Rio Grande do Sul, para o transporte de aves, usa-se muito um instrumento feito de talas engradadas, a que dão a denominação de capoeira. É uma espécie de jacá, de que falaremos adiante.

Pera

Maciel Pinheiro [6] é quem registra essa denominação para o instrumento de transporte, feito de fôlhas verdes de palmeira, e que, segundo o autor, é construído às pressas para transportar frutos colhidos no momento.

* * *

Além desses tipos e denominação de cestos que acabamos de registrar e que realmente serviram e alguns ainda servem como instrumento de transporte há ainda o cofo, cesto oblongo, de folhas de palmeira, em que se costuma guardar caranguejos para cevá-los; o samburá, feito de estrias de cipó, muito usado pelos pescadores para recolher o pescado; o cacoá, de que nos fala Severino da Fonseca no seu Dicionário brasileiro inédito, como sendo uma espécie de cesto, alforge; o matiri, citado por Beaurepaire-Rohan como uma espécie de saco feito de fibra de tucum e conhecido no Pará; o juquiá, que é uma cesta feita de tábuas de taquara ou de cipó que serve para a caça ou pesca. Vald. Silveira o cita, dizendo: “… montara nos poldros e nos garrotes, armara jequiás de taquara-foca” [61, p.14]; o munzoá, que Teschauer se refere como sendo um cesto comprido, com boca afunilada, utilizado em pescarias [8], o pacará, conhecido no Pará e em Goiás, que é uma espécie de cesto ou pequeno baú, construído de palhetas de madeira leve e forrado por dentro e por fora de palha de grelo de palmeiras; o gangá, pequeno cesto sem tampa, conhecido no Nordeste; o tupé, que no Amazonas é cesto de canas, raso, em forma de prato.

Se não demos a esses maior destaque, é porque não conseguimos colher maiores informações a respeito dos mesmos.

Referências bibliográficas

1. Academia Brasileira de Letras. Achegas ao dicionário de brasileirismos.
2. Nieuhof, Joan. Memorável viagem marítima e terrestre ao Brasil. 2ª ed. São Paulo, Livraria Martins Editora, Biblioteca histórica brasileira, v.9.
3. Pohl, João Emanuel. Viagem no interior do Brasil. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1951.
4. Maciel Pinheiro. Linguajar nordestino [exemplar mimeografado]. Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, 1955.
5. Rangel, A. Rumos. Porto Alegre, 1914.
6. Maciel Pinheiro. Ibid.
7. Silveira, Vald. Os caboclos.
8. Teschauer, Carlos S. J. Novo dicionário nacional. Porto Alegre, Editora Livraria Globo, 1928.

(Goulart, José Alípio. Meios e instrumentos de transporte no interior do Brasil. Rio de Janeiro, Departamento de Imprensa Nacional, 1959, Coleção Vida Brasileira, p.147-152)

 

 

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