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Janeiro 2002
Ano IV - nº 41

COMO OS AMERICANOS FAZEM FOGO. DE SUA CRENÇA NO DILÚVIO.
DAS FERRAMENTAS QUE USAM.

Processo que usam os selvagens para fazer fogo. – Tatá e tatatém. – A invenção do fogo. – Vulcano, o inventor do fogo. – Crença dos selvagens relativa a um dilúvio. – Modo de contar dos selvagens. – Origem dos selvagens. – Maneira primitiva usada pelos selvagens para cortar às àrvores.


Após haver tratado de certas plantas singulares e animais desconhecidos não só em nossa terra, mas também, ao que presumo, em todo o resto do mundo habitado (uma vez que essa região só foi descoberta e conhecida de algum tempo para cá), pretendo agora descrever, continuando nosso exame das singularidades da América, a estranha maneira de fazer fogo que os nativos empregam. É bem diferente da nossa, que se baseia no uso de pedra e ferro, e que se trata efetivamente de uma invenção celeste, transmitida divinamente ao homem para ajudá-lo nas suas necessidades. Pois bem, nossos selvagens usam outro processo quase incrível, bem diferente deste nosso que consista em bater o ferro na pederneira. E há que notar que eles habitualmente se servem do fogo para suas necessidades, que são as mesmas nossas, se não maiores, já que precisam dele também para resistir ao espírito maligno que os atormenta e por causa do qual eles não se deitam jamais, onde quer que estejam, sem antes acender uma fogueirinha ao pé da rede. Por isto, tanto dentro quanto fora de casa, nas matas ou nos campos, seja onde for que os obrigue o acaso a permanecer por muito tempo, ou porque saíram em missão de guerra ou porque foram caçar, geralmente levam com eles seus instrumentos de fazer fogo.

Para isso, tomam dois bastões desiguais, um menor, de uns dois pés de comprimento, de madeira muito seca e que tenha medula, e outro mais comprido. Para acender o fogo, põem no chão o bastão maior, que tem no meio um orifício, firmando-o com os pés; colocam a ponta do outro pau dentro do orifício do primeiro, junto com uma certa quantidade de algodão e folhas secas. Aí, à força de girar continuamente o bastão, produz-se um forte calor resultante daquele movimento, fazendo com que as folhas e o algodão comecem a queimar. É assim que fazem o fogo, que chamam em sua língua de tatá, enquanto que à fumaça dão o nome de tatatém.
[1]

Dizem os selvagens que este engenhoso processo de fazer fogo lhes teria sido ensinado pelo Grande Caraíba, o profeta-mor, que transmitira a seus ancestrais este e muitos outros conhecimentos que eles antes ignoravam.

Sabe-se que existem muitas fábulas referentes à invenção do fogo. Alguns acham que foram uns pastores os primeiros que inventaram um modo de fazer fogo, semelhante ao dos selvagens, ou seja, sem usar pedra ou ferro, mas tão somente madeira. Conclui-se daí que o fogo não provém do ferro ou da pederneira, como corretamente afirmam tanto Afrodiseu, em seus Problemas, quanto o tradutor que há pouco verteu esta obra para o francês, em nota referente ao assunto. (Já Diodoro atribui a invenção do fogo a Vulcano, que por causa disto foi eleito rei pelos egípcios). Também os selvagens pensam de maneira quase igual a essa, presumindo que antes da invenção do fogo comiam apenas carnes defumadas.

Quem lhes ensinou esse conhecimento, conforme dissemos, foi o Grande Caraíba, à noite, enquanto dormiam, algum tempo depois de um dilúvio que eles dizem ter ocorrido em priscas eras, conquanto não possuam documentos escritos que o confirmem, vindo tudo o que sabem da transmissão oral de pai para filho. É este seu modo de perpetuar a memória dos fatos, ou pelo menos de conservá-la pelo espaço de trezentos ou quatrocentos anos, o que não deixa de ser uma coisa digna de admiração. Outrossim, demonstram grande interesse em ensinar e contar para os seus filhos os fatos memoráveis. Outra coisa não fazem os mais velhos, durante as horas que antecedem a manhã, logo depois que despertam, do que ministrar tais ensinamentos para os mais jovens. Ouvindo um desses anciãos, a gente até pode confundi-lo com um pregador ou um mestre de cátedra...

Quanto ao dilúvio, dizem eles que as águas subiram tanto que chegaram a cobrir até mesmo as montanhas mais altas dessa terra, fazendo com que todas as pessoas perecessem afogadas. Acreditam nisto tão firmemente quanto nós no que se refere aos fatos narrados pelas Sagradas Escrituras. Entretanto, sua história é bastante suscetível de conter erros, visto que não sabem escrever para guardar a memória dos fatos, e todo o seu conhecimento não vai além dos relatos que escutaram de seus pais.

Como os selvagens não sabem contar senão até cinco, tem que usar pedras ou outros objetos para as quantidades maiores. Outra coisa que já mencionamos anteriormente é que eles contam os meses por luas, dizendo "eu nasci há tantas luas", etc. Assim, pelo tanto de luas que atribuem à ocorrência do dilúvio, pode-se calcular que ele se deu há bem uns quinhentos anos. Eles afirmam e sustentam imperturbavelmente esta sua crença. Se alguém os contradiz, esforçam-se por confirmar suas palavras alegando diversos argumentos.

Segundo relatam, depois que as águas baixaram e se escoaram, apareceu um grande Caraíba, o maior que jamais esteve entre eles, trazendo consigo para aí, de terras muito longínquas, um povo que vivia nu assim como eles presentemente. Este povo multiplicou-se até os dias de hoje, sendo deles que os selvagens presumem descender. Não me parece estar fora de cogitação a possibilidade de ter havido outro dilúvio além daquele dos tempos de Noé. Mas desde que não dispomos de nenhum testemunho escrito deste fato, prefiro encerrar por ora este assunto.

Retornando às finalidades que os selvagens dão ao fogo, podemos acrescentar que são várias, indo desde o cozimento de carnes até à derrubada de árvores, processo que usaram até quando descobriram um modo de cortá-las por meio de instrumentos de pedra, sendo que há pouco aprenderam a usar ferramentas com os cristãos que aí vivem.

Não duvido de que na Europa e em outras regiões fosse outrora desconhecido o uso das ferramentas. Conta-nos Plínio, no Livro VII da sua História Natural, que foi Dédalo o inventor da primeira forja, na qual ele mesmo fabricou um machado, um serrote, uma lima e alguns cravos. Já Ovídio, no Livro VIII das Metamorfoses, diz que teria sido Pedris, sobrinho de Dédalo, quem inventou a serra, tomando como modelo uma espinha de peixe de dorso arqueado. Pegamos um peixe desta espécie quando passamos pela Linha Equinocial em nosso regresso. Sua espinha dorsal tinha um pé de comprimento. Infelizmente, as circunstâncias não nos permitem desenhá-lo. Contudo, esperamos poder fazê-lo em outra oportunidade.

Por fim, como alguns selvagens de uns tempos para cá passaram a preferir utilizar estas ferramentas para suas necessidades, acabaram por aprender a forjar os metais, sem que os cristãos lhes tivessem dado qualquer instrução.

Como se pode ver, sou muitas vezes obrigado a mudar continuamente de assunto, sem contudo afastar-me do objetivo deste livro, em virtude da variedades dos temas aqui tratados e de ter eu preferido diversificá-los de um capítulo para outro.


Nota:

[1]. No original, thata e thatatin.


(Thevet, André. As singularidades da França Antártica.)

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