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Janeiro 2002
Ano IV - nº 41

PASSAR "A FESTA" EM OLINDA...

Nos fins de agosto, proximidades de setembro, era muito comum antigamente, no Recife, até quase meados deste século, escutar-se esta pergunta nos encontros em pontos de paradas de bondes, nas portas de lojas, ou até nas conversas do Café Ruy, do cinema Helvética, do Pathé, nos intervalos do Teatro Santa Isabel:

- Aonde vai você passar a festa este ano?

Já o calor começara ameaçando forte. As moças da casa sonhando com os passeios, e o chefe da família, algo indiferente aos suspiros cochilando na espreguiçadeira da sala de jantar, enquanto a esposa sentia o desespero das meninas e arriscava um comentário, balançando suavemente o braço do marido:

- É o verão chegou brabo mesmo. Você não acha Cazuza?

E Cazuza, preguiçoso sonolento, mas lembrando como a sua situação econômica estava aos poucos melhorando, com as boas vendas de açúcar e algodão que vinha fazendo nos balcões de amostras da Associação Comercial, respondia:

- De fato. Mas vamos ver se esse ano poderemos ir para Olinda. Eu estou mesmo precisando de uns banhos salgados. E também você, com essas enxaquecas...

Passar as festas de fim de ano em Olinda: Natal, novenário do Bomfim, Ano Novo... Quanta coisa isso recorda ao velho recifense. As casas do Carmo, dos Milagres, alugadas pela temporada, no Farol (hoje Bairro Novo). A perspectiva dos banhos salgados; da colheita de cajus nas matas dos Bultrins, do Farol, do Rio Doce; as retretas no Pátio do Carmo; os sorvetes nas barracas da praça da Liberdade; as excursões pelas praias, de pés descalços, à vontade, levando balaios, fazendo piqueniques; os peixes fresquinhos, ainda bolindo, comprados na chegada da jangadas; o novenário do Bomfim; as noites do Natal; o romper do Ano Novo; as partidas (hoje chamamos assustados) em casas de vizinhos, de amigos. Dançava-se a noite inteira. Era o encanto dos moços, embora ainda no tempo das valsas e das polcas. Depois surgiram os fox-trote, os primeiros sambas. E os comentários dos mais idosos:

- Vocês! Que indecência...

Mas era aí que saíam muitos noivados e onde muitos casais de reconciliavam. Surgiram as credulidades: banho de mar provoca gestação... Muita senhora que fazia anos não dava luz, ao regressar da praia, estava grávida, era alvo de comentários:

- Está mais gordinha, heim? Para quando é o cachimbo...

E a senhora, dando um muxoxo, comentava que a culpa fora dos banhos de mar. Logo ela "que estava sem jeito para essas coisas..."

Faziam-se os vestuários. As lojas ofereciam baeta de todas as cores nos melhores preços. Costuravam-se de casacos folgados, enfeitados de galões azuis e vermelhos, deixando só os braços de fora, as calças compridas até os tornozelos, e, algum tempo depois, subindo escandalosamente até os joelhos. Os homens de calções também de baeta e camisas de listas.

Mas os meses passavam depressa: setembro, outubro, novembro, dezembro... E janeiro chegava triste, melancólico:

- Vamos voltar, minha gente. No domingo...

Faziam-se as despedidas. Os oferecimentos. Mastigava-se a saudade. Uns voltavam para a Boa Vista, outros para Madalena, Torre, para a casinha da rua Velha, da rua da Concórdia, da Soledade. Partiam do Carmo os carroções cheios de móveis. E a esperança do Carnaval próximo, consolando os moços:

- Tomara que já chegue. Este ano é nos fins de fevereiro...


II

Os banhos salgados começaram ganhando fama no Recife e subindo de importância nos primeiros anos deste século. Até então as famílias, na época do veraneio, deslocavam-se do centro da cidade mas era para ir aos banhos de rio, nos arrabaldes por onde atravessa o Capibaribe, como Poço da Pamela, Caxangá, Monteiro.

Depois foi surgindo Olinda, e a terapia do banho de mar ficando na moda. Principalmente quando a maxambomba substituiu a diligência e a antiga capital ligou-se diretamente com o Recife.

As praias teoricamente começaram revestindo-se de um aspecto de estância hidroterápica. As mulheres ainda faziam toilettes para ir a elas: coques, anquinhas, laços de fitas, sapatinhos. Seguiam até lá como se fossem a um sanatório. Os trajes de banho eram severos, pesados, de beata escura, descendo até os tornozelos, e de fora apenas os braços.

Mas nem por isso deixaram os banhos salgados de se tornar coquetes e integrados no mundanismo, bom-tom social no tempo. Passaram a ser pretextos para passeios. Quantas doenças não foram inventadas, quantos achaques não foram sentidos para justificar uma ida para Olinda? A mocinha queria se encontrar com o namorado, livrar-se da severidade paterna, pagodear com amiguinhas, começava logo tendo desmaios, queixando-se de tonturas, fraqueza nas pernas, coisas esquisitas. A sugestão chegava logo:

- Essa menina está precisando de uns banhos salgados...

Até as donas de casa, saturadas do dia-a-dia no lar, inventavam achaques, dores nas cadeiras, cansaço, para impressionar os maridos. E tinham sucesso:

- Já sei, Dondon, você vai melhorar quando for para Olinda tomar uns banhos salgados...

Os versinhos da época, em jornaizinhos humorísticos, glosavam:

Banhos salgados de Olinda,
Hoje é a ordem do dia,
Pra quem tem hipocondria,
Ou padece das cadeiras,
E mais outras frioleiras...

Velhos tempos quando ainda não se inventara os banhos de sol e os mergulhos na água salgada eram somente pela manhã bem cedo, o mais rápido possível, enquanto se temia a violência das águas nas marés de lua.

Mas os anos foram passando, o modernismo chegando, as praias se estendendo: Pina, Boa Viagem, Candeias e outras mais. As roupas sumindo do corpo, a liberdade galgando lugar de destaque, os banhos de sol imperando, o bronzeamento da pele surgindo.

Hoje vai-se à praia adoecer. Ontem ia-se tratar da saúde... Outrora a mulher vestia-se, enfeitava-se, fazia-se coquete para aparecer saltitante e feminina à beira-mar. Em nossos dias ela despe-se, atira fora os enfeites, oferece-se desnuda e liberta, encantando a vista. Não teme mais a fúria do oceano e afoitamente, como o homem atira-se à violência das ondas, buscando quase o alto mar.

Afinal de contas, ontem e hoje quantos exageros...


III

De fato a velha cidade praiana, antiga capital de Pernambuco, já foi bem importante durante a chamada época do veraneio, no período das festas natalinas. Ali se concentrava durante essa época uma verdadeira multidão saída do Recife, enchendo a praia que ia dos Milagres ao Farol, quase coberta de banheiros de palha, incluindo igualmente os trechos do Carmo e São Francisco. Eles ainda encontravam-se livres, sem haver sido atingidos, como em nossos dias, pela fúria das tempestades, que os destruiu há alguns anos, alterando completamente sua fisionomia.

Banheiros de palha em compridas fileiras pelas praias afora, quase formando arruados a beira-mar, de onde as moças e as senhoras saíam cautelosas e pudicas, envergando seus folgados trajes de baeta escura, com discretos galões azuis ou encarnados a guisa de ornamentos, e os homens de calções até os joelhos, camisetas listradas. Costumes focalizados em versinhos populares da época:

Vê-se muita Iaiá nervosa,
De fofinhas de flanela,
Nos banheiros à beira-mar,
Inda o dia não é claro,
Já indo de Milagres e Carmo afora
Sob as vistas e anteparo
De pais, irmãos, maridos e nora.

Naquele tempo ainda não se falavam nas praias de Boa Viagem, Pina, Piedade, Candeias e outras muito conhecidas hoje, de modo que Olinda era o ponto de concentração do recifense, para gozar as delícias do veraneio praieiro.

Um cronista recordou como Olinda tinha então muita coisa para oferecer aos seus eventuais moradores, ou visitantes de fim de ano. E comentou, por exemplo, as festas religiosas internas e externas do Senhor do Bonfim, com o doutor Alcoforado a frente; as cavalas e as ciobas tão apregoadas, vendidas fresquinhas, ainda pulando, à beira-mar; os papagaios de papel empinados pelas praias; as crônicas populares do tenente Ambrósio Leite; os teatrinhos familiares, como o da Boa Hora; o Cinema Guarani com as fitas de Max Linder, Francesca Bertine, Eddie Polo; a busca de cajus nas matas dos Bultrins ou de Rio Doce e Farol; as pitangueiras do Alto da Sé; os pastoris da rua do Sol; as frutas do sítio do Manguinho; o mamulengo do ator Lira; as luminárias de Santa Teresa; as retretas do Largo do Carmo; as excursões a Rio Doce; e, já nos últimos da década de vinte, as festas familiares nos palanques improvisados, como os da família Casado, com os seus filhos formando a comentada e moderna Jazz-Band Internacional, que fez furor na época. Danças muito procuradas pela sociedade recifense, sua juventude principalmente, e das quais muitas figuras importantes dos nossos dias devem se recordar.

O Jornal Pequeno em 1909 comentava: "Lembra-se que nessa terra, que já não é como dantes, ao fim de cada ano o luxo impera, só se vendo rendas, fitas, sedas e fivelas de sapatos esquisitas, trajes e modos novos".

O anedotário popular registra até o incidente havido na saída de um espetáculo do Teatro da Boa Hora, quando o namorado de uma das moças recifenses de então, ao notar que a empregada da mesma procurava aflita qualquer coisa pela rua, indagou solícito, pensando haver-se perdido a pulseira, de ouro ou o diadema de brilhantes, que a moça ostentava tão luxuosamente no teatrinho. E a doméstica, uma preta velha da família, ainda do tempo da escravidão, que procurava apenas os chumaços de pano com que sua Iaiá enchia as saias na altura dos quadris, retrucou com simplicidade:

- Inhor não, meu sinhô... Foi sinhazinha que perdeu os mulambos dela...

Uma velha cidade que brilhava realmente nos dias de fim de ano, durante os primeiros anos deste século, recordando, naqueles breves meses, quem sabe, as fases áureas do passado longínquo, quando ainda era a sede da Capitania e abrigava já os primeiros entusiasmos de brasilidade, desejos de liberdade, embora naquelas alturas jamais tivesse permitido, como então ocorria, essas intimidades com a burguesia do Recife e, antes pelo contrário, dizendo até para ela, dentro do seu cancioneiro popular, toda orgulhosa e ciosa da sua importância de cidade autenticamente brasileira:

Marinheiro pé de chumbo,
Calcanhar de frigideira,
Burguês novo do Recife,
Quem te deu a ousadia,
De casar com brasileira..."


[1972]


(Guerra, Flávio. Crônicas do velho Recife, p.81)

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