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Janeiro 2002
Ano IV - nº 41

MODA FEMININA

I

Quando em nossos dias vemos o trajar vaporoso das mulheres, que usam vestidos exageradamente leves, maioria das vezes postos diretamente sobre o corpo, deixando perceber sem recato o desenho livre das formas, ou as exageradas minissaias, que um cronista moderno diz não ser de tantos dedos acima dos joelhos, mas de tantos centímetros abaixo do umbigo, quando vemos isso vale a pena recordar a mulher recifense de fins do século passado e princípios deste.

Mulher que raramente ia sozinha às lojas fazer compras. O andar de loja em loja, hoje tão comum, escolhendo, pechinchando, admirando, era "coisa que não assentava a uma senhora"... E quando isso acontecia só ia acompanhada do pai, do marido ou de alguma parenta velha. O mais usado era o dono da casa ir ele próprio pechinchando nas lojas as necessidades da família, mandando levar para a residência para escolher, as fazendas, os calçados, os chapéus e o que mais, quando não impunha ele próprio a sua decisão.

As peças íntimas, como os soutiens, as calçolas, os corpinhos, isso era confeccionado em casa. Qual a loja que se atreveria a anunciar, ou sequer vender, semelhantes coisas...

Quando as famílias eram numerosas, quase sempre eram compradas as peças inteiras de tecidos, com isso as moças da casa iam às procissões, às festas de igreja, as danças em casas de parentes e amigos, aos teatros, na maioria das vezes todas com trajes iguais: cambraias com salpicos, sura azul claro ou verde garrafa, barretina de cores claras, chitas com tremidos, voiles vaporosos azul ou rosa, etc.

A loja das Listas Azuis, na rua do Queimado, anunciava em 1905 vivos para enfeitar vestidos, manteletes de veludo, luvas de cores, babadinhos, baleias e miçangas. A Florida, na rua da Imperatriz, vendia leques, extratos franceses da marca Brisa da Serra e Houbigant, os enfeites para penteados, os pentes enfeitados e os artigos para as costureiras. Enquanto a Rosa de Saugali, na rua Crespo, oferecia vidrilhos para capas e capotes, coques, seda romana em listrinhas, cetim alsaciano quadriculado, esguiões, e anquinhas.

Ah, a época das anquinhas!... Vendidas já prontas nas lojas eram caras, luxo a que se entregavam as esposas e filhas dos ricaços da época. Custavam 1$300, uma fortuna ao tempo. Por isso as famílias remediadas fabricavam-nas em casa. Eram umas armações de arame que serviam para tornar as saias bem rodadas e fingir carnaduras que não existiam, pondo em relevo os quadris femininos. A Pimenta, um jornal humorístico em 1901, ironizava que "no último baile do Melpomene, as anquinhas da baronesa tal podiam sem dificuldades esconder o batalhão da cidade". Era o oposto de hoje.

Daí partiu-se para a mania também dos recheios, não somente nas ancas, mas até nos seios. Conta-se que certa noite, na ocasião de um te-deum cantado na igreja do Espírito Santo, uma sinhazinha caíra desmaiada. Reboliço, aquieta e arreda, e a moça inerte, pálida, suores frios, os seios arfando opressos. Foi carregada para a sacristia e posta em um marquesão de jacarandá. Quando os familiares desabotoaram-lhe o vestido encontraram a razão do desmaio: por debaixo das várias peças de roupas internas, procurando vaidosamente aumentar o volume de uns mimosos e pequeninos seios de donzela, lá estava comprimido um travesseiro de cama de menino.

As saias destas então nem é bom falar. Roçavam o chão, não deixando ver senão as pontas dos borzeguins. As mulheres tomavam até certas posturas, andando com uma das mãos sustentando o excesso do comprimento do vestido, ou discretamente quando tinham de subir alguma escadaria.

Assim era a vaidade feminina recifense nos fins da monarquia e primeiros anos da república. Fase de transição entre o luxo, o hábito das cortes e dos palácios presidenciais nas províncias, e o surgimento de uma nova política que atingira de certo modo a própria sociedade.

O Recife, como sempre na frente das modificações, não fugiria à regra, e, com isso, os costumes alcançando a fase das anquinhas, que afinal iria desaparecer completamente ao se aproximar as primeiras décadas do novo século, para atingir, de evolução, os dias de hoje.


II

Depois de 1910, e até quase os fins da Primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918), as famílias recifenses começaram se libertando de algum modo da tirania do lar. Mas, assim mesmo, ainda sujeitas as mulheres a uma fiscalização severa das mães sobre as filhas e dos maridos sobre as esposas.

Já havia a demanda livre rumo às lojas para fazer compras, afastando o chefe da família, desse trabalho, sem contudo se ver ainda as moças ou senhoras sozinhas indo a elas. Faziam isso sempre acompanhadas embora ultrapassando os escrúpulos de outrora e indo correr as lojas, ver as novidades, conferir, os anúncios dos jornais.

Ainda de longos trajes, embora mais curtos que os de antigamente, deixando já aparecer totalmente os sapatos, haviam as mulheres recifense livrando-se das anquinhas e dos enchimentos, oferecendo agora a influência dos espartilhos e a presença dos frondosos chapéus, as blusas afogadas, as mitenes
e os rostos cobertos por pequenos e graciosos véus.

E lá iam quase todas as tardes pelas ruas esbanjando elegância, ditando personalidade, enfeitando com a sua graça as artérias elegantes do velho Recife, como as ruas Nova, Imperatriz, Crespo, Cabugá, Queimado. Desciam dos bondes vindos no Monteiro, Torre, Madalena, Fernandes Vieira, Derbi, Espinheiro e outros bairros e subúrbios e iam colorindo as ruas, tomando conhecimento das novidades.

Na rua da Imperatriz havia o Bazar da Boa Vista, que vendia principalmente brinquedos e era muito procurado na época no Natal; um grande edifício de azulejos na esquina com a rua do Hospício; a Ave do Paraíso e a loja do Coelho, vendendo tecidos; a Carinhosa, com miudezas; o ateliê de Viegas e as Casas das modistas em voga.

Na rua do Crespo era muito procurado o Louvre, aristocrática casa de jóias e bijuterias finas; a Papelaria Pernambucana, com as suas coleções de cartões-postais; A Risonha, que vendia artigos para homens, como as gravatas de plastrons, as camisas de peito-duro, os colarinhos duros e altos de ponta virada ou simples, as meias de fios da Escócia; as perfumarias vendendo os extratos Roger Gallet, Pivet e Coty. Abundavam pela rua os vendedores de bilhetes de loteria.

Na rua Nova a coisa era mais séria, pois ali havia o Café Rui e a Confeitaria Biju, os cinemas Pathé, Vitória e Royal. Chegou-se a criar a expressão: "fazer o footing na Rua Nova". Ali estavam ainda a Casa Gondim, ponto de encontro de senhores de engenho, novos usineiros e comissários de açúcar; as alfaiatarias do Milichareii e Hermes; a Botina Inglesa e a Botina Maravilhosa, a Casa Gerard, de balcões forrados a veludo grená; a Chapelaria Adolfo, as lojas de miudezas Atrativa, o Parc Royal, Au Bom Marché, a Maison Chic, a Casa Inglesa e a Casa Júlia, esta moderníssima, em andar térreo iluminado a eletricidade, espaçosas salas, duas frentes, vitrines alegres, e oferecendo a novidade de mocinhas atendendo aos fregueses nos balcões. Uma beleza para uns e um escândalo para as moralistas.

- Que perdição, dona Eufrásia. Onde já se viu moça solteira em balcões de loja, vendendo como um homem...

- Um fim de mundo, dona Zezé, um fim de mundo... Qualquer dia destes vamos ver as mulheres trabalhando nos escritórios junto aos homens.

- Quando isso acontecer, minha negra, eu quero estar morta, para não assistir tanta pouca vergonha...

As lojas afinal eram o pretexto para sair às ruas, ir ao centro, numa espécie de fuga à prisão do lar. Uma esperança da liberdade definitiva amanhã!

Depois, à sombra disso, podia-se ter os encontros furtivos, recolher um bom dia acompanhado de um sorriso, ou até um simples olhar demorado. Era um escape naqueles tempo de namoro difícil, de severa vigilância, quando a notícia da presença de estranhos passando insistentemente por defronte de qualquer casa, por si só já era motivo de preocupações e muito cuidado com as moças.

A mulher recifense ia porém lentamente emancipando-se, livrando-se do severo controle caseiro, derramando para os dias de hoje.


III

Falando ainda sobre a moda feminina de princípios deste século XX no Recife, recordamos o tempo das chamadas saias-amarradas, ou "jupes entravés" da expressão francesa na moda do tempo.

Depois do reinado das anquinhas e das saias-balão, das armações de arame e dos chumaços para dar relevo a certas formas femininas, após o domínio dos longos vestidos moldados, surgiram essas saias esguias, bem compridas, cingidas tão exageradamente nos tornozelos e panturrilhas, que as mulheres quase tinham de andar aos pulinhos, ou dando passadas curtinhas.

Para descer as calçadas mais altas, subir nos bondes, andar mais depressa, o sacrifício então era grande. Não só provocava risadaria, como fazia surgir até situações cômicas.

No embalo da nova moda começaram aparecendo as primeiras tentativas para o uso de umas chamadas saias-calções, precursoras das calças compridas femininas dos nossos dias. Mas isso não obtivera sucesso. Era pelas alturas de 1919. Acabara a primeira grande guerra e as inovações baboteavam pelo mundo afora, atingindo afinal o Recife.

Enquanto as saias-amarradas iam despertando apenas a hilaridade, as tentativas das saias-calções, ao contrário, passaram a receber repulsa por parte da população. O Recife provinciano dos bondes de burro, das carroças puxadas por bois, dos gramofones, dos primeiros cinematógrafos, das retretas na praça da República, da vida familiar ainda recatada, sob a maior vigilância dos pais, não podia aceitar que as suas mulheres se confundissem com os homens no trajar. Havia até o medo de uma perturbadora confusão de sexo.

- Qual, dona Amelinha, isso é o fim do mundo. Onde já se viu mulher vestindo calças compridas pelas ruas como um homens...

- Não é, dona Zezé. O Cazuza me disse que ontem uma francesa da Pensão Sequeira foi vaiada em plena rua Nova, quando passava vestindo uma das tais saias-calção. Foi o diabo, minha nega. A bicha teve que se esconder na loja de Madame Brack.

Enquanto isso as saias-amarradas iam imperando. Embora com toda a rigidez de uma indumentária forçada e inconveniente, ia atravessando. Afinal de contas era um trajar autenticamente feminino. Extravagante, inconveniente, mas peculiar à mulher.

Era chic ir-se às compras, descendo, nas ruas Nova ou Imperatriz, do carro puxado por dois belos cavalos, vindo do palacete da Madalena, do Benfica ou do Monteiro. E nessa ocasião ostentando a vistosa saia-entravada, o chapéu grande de plumas, o espartilho arrochado, anéis em quase todos os dedos, mitenes, sapatos com saltos a Luiz XV, e apresentado as faces já ligeiramente rosadas à custa de artificiantes.

O velho Mário Sette conta, a propósito, o incidente ocorrido em plena rua Nova, quando umas dessas damas bem vestidas, ao haver tentado assim, toda entravada em seus movimentos, transpor num pulo um valado, que ali fora feito para consertar um cano d’água estourado, fora ao chão desastradamente. A queda tinha sido inevitável, ficando a dama toda enlameada, imunda, gemendo, sem poder levantar-se, pois tinha os movimentos tolhidos pelo aperto da saia nos tornozelos e nas panturrilhas. Risadas, correrias, auxílios e o comentário maldoso de uma velha que passava:

- É pouco! Quem já viu novilha peada pular valado?...

Era uma nova fase da indumentária feminina no Recife antigo, que daí partiria brevemente para as chamadas melindrosas, de vestidos curtos e cheios de babados, cabelos cortados à la garçone, maquilagem excessiva, tudo numa influência já dos costumes norte-americanos, com seus modismos afastando do nosso meio o antigo francesismo, imperante desde de meados do século XIX.

Por enquanto ficava-se no domínio das "jupes-entravés", ou sejam as saias-amarradas. A dama da rua Nova limitara-se a voltar para casa, tomar um demorado banho com muito sabonete Houbigant e muita água de colônia, para após vestir novas saias entravadas e continuar comandando as extravagâncias da moda no velho Recife.


(Guerra, Flávio. Crônicas do velho Recife, p.187)

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