Janeiro
2002
Ano IV - nº 41 |
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Antes de abrir o cadeado que fechava a
vitrina, nosso atencioso anfitrião, ofereceu-nos gentilmente sua caixa de rapé, costume
comum entre os brasileiros. Isso nos lembra aqueles que, ao contarem longas e áridas
histórias, começam acendendo seu cachimbo ou se regalando com uma pitada de rapé. Pois,
neste momento, vamos imitá-los:
Os modernos apreciadores do cachimbo poucas vezes pensam no quanto são devedores pela
liberdade de desfrutarem tal prazer. E dos que se deliciam com o rapé, poucos alguma vez
se lembraram das perseguições, comparáveis às de Diocleciano, que seus predecessores
sofreram por terem acreditado nas virtudes do tabaco e de haverem transmitido a mesma fé
a seus descendentes.
A Europa cerrou o cenho, a Ásia ameaçou. Reis pagãos, maometanos e cristãos acordaram
em esmagar os fumantes. Espumando de raiva, Jaime I emitiu seu "contra-ataque";
o semi-selvagem governante moscovita o seguiu; o rei da Pérsia, Amurat IV da Turquia, o
imperador Jehan-Geer e outros juntaram-se à cruzada. Estabeleceram a pena de morte para
todos os que fossem encontrados inalando o fumo da planta através de um canudo, ou
apanhados com uma bolinha de tabaco embaixo da língua. Os que o usassem como
esternutatório sofreriam apenas a amputação do nariz. A fim de aperfeiçoar o
padecimento dos delinquentes, Urbano VIII foi com toda a pompa ao Vaticano, onde, trêmulo
de cólera sagrada, sacudiu as vestes, exigiu que o sangue dos criminosos fosse derramado
sobre as próprias cabeças e lançou a excomunhão contra todos os que levassem para o
interior das igrejas, sob qualquer forma, a maldita substância.
Perder a vida por acender um cachimbo! Sofrer mutilação por tomar uma pitada! Torturas
aqui, tormentos sem fim acolá, e tudo por uma tragada ou pitada de tabaco! Admira-nos,
hoje, como os padecentes conseguiram passar incólumes pelo fogo, ou mesmo escapar ao
aniquilamento. E ainda assim, a maior parte escapou, e fez mais: converteram os
Nabucodonosores que procuravam sua destruição.
Que espetáculo! O mundo em armas contra uma erva, e logo depois prostrado diante dela!
Altivos governantes prestando culto ao ídolo a cujos admiradores haviam tão
horrivelmente ameaçado! Legisladores transformados em violadores confessos de suas
próprias leis! As maneiras adotadas para o extermínio da planta aumentaram a sua
demanda, até tornar-se procurada com uma avidez que nenhuma sanção penal era capaz de
suprimir. O clamor dos reis e da igreja aumentara dez mil vezes o seu consumo. A maré
retornou, e todos puseram-se a louvar aquelas folhas mágicas. As senhoras acompanharam
seus senhores no hábito de fumar depois das refeições; os meninos levavam cachimbos em
suas sacolas quando iam à escola, e em certas horas pedagogos e alunos tragavam juntos.
Assunto este que não é mau para um pintor. Houve mães, no século XVI, que enchiam os
cachimbos dos filhos de manhã cedo, servindo-os de tabaco como desjejum. Havia gente que
se deitava, à noite, com charutos e cachimbos na boca e levantavam-se durante a noite
para acendê-los.
Todas as classes tornaram-se consumidoras, e nem sequer os padres fizeram exceção, desde
que se abstivessem até a hora da missa. A fim de acomodar os viajantes, os pobres e os
transeuntes, foram licenciadas, na Europa continental, em todos os portos e cidades do
interior, casas de fumo, ou Tabagies, onde marinheiros e itinerantes podiam, por
preço módico, sentir-se felizes, seja inalando os vapores do popular estimulante, seja
fazendo cócegas com ele em suas membranas nasais. Os ambiciosos procuraram adquirir fama
ligando-se à introdução da planta e seu cultivo, e assim vemos o nome do tabaco
associado com o de cardeais, legados, embaixadores, e até, em homenagem a Catarina dos
Médicis, foi chamado "a erva da Rainha". Alguns soberanos não perderam tempo
em lançar-se ao comércio do tabaco. Foram os reis de Espanha que se puseram à frente e
se tornaram os maiores fabricantes de rapé e de charutos, da Cristandade. As fábricas
reais de Sevilha são ainda hoje as maiores da Europa. Outros monarcas monopolizaram o
negócio em seus domínios, e todos começaram a colher enormes lucros com ele, tal como a
maioria faz ainda hoje.
Muito tem sido escrito a respeito de uma revolução tão singular em sua origem, que não
foi ultrapassada em incidentes e resultado, constituindo um dos mais curiosos episódios
na história da humanidade. Mas quase nada ficou registrado sobre a origem dos vários
processos de fabricação de rapé. Alguns imaginam que o popular alimento para o nariz
seja originário do Velho Mundo, porém tal não ocorre. Colombo viu fumantes, pela
primeira vez, nas Antilhas; Pizarro encontrou, no Peru, mascadores de tabaco; mas foi no
país descoberto por Cabral que o grande esternutatório foi pela primeira vez encontrado.
Os índios brasileiros foram os pais do rapé e seus melhores fabricantes. Embora
considerados dos menos requintados dentre os selvagens, seu gosto, quanto a isso, nada
ficava a dever ao da gente civilizada do leste. A qualidade de seu rapé nunca foi
ultrapassada, e tampouco os seus aparelhos para fabricá-los.
Eis a seguir os aparelhos para moer e aspirar o rapé usado pelos índios, e cuja
ilustração, acreditamos, é pela primeira vez publicada.
F é uma tábua
de jacarandá, de dez polegadas de comprimento, das quais a metade corresponde ao cabo. A
tábua tem aproximadamente meia polegada de espessura, com uma cavidade no meio. A
extremidade do cabo representa uma cabeça de cobra, com a língua para fora. E é
uma vara cilíndrica de jacarandá, de nove polegadas de comprimento e três quartos de
polegadas de diâmetro. Estes dois elementos constituem a moenda, ou gral. O dono tira de
uma "chuspa" bolsa geralmente dependurada no ombro direito
alguns pedaços de folhas secas de tabaco, coloca-as na cavidade, e, raspando com a
varinha, mói-as, atritando-as, para um e outro lado, e em poucos momentos transforma-as
em rico e fragrante rapé. Mas o odor não se deve inteiramente à substância moída,
senão também ao material de que é feita a moenda. O calor desenvolvido pela fricção
das duas peças de madeira odorífera evola um agradável aroma que vai impregnar o pó.
Estando o artigo assim preparado, a próxima coisa a fazer é levá-lo a destino antes que
esfrie ou que o odor enfraqueça pela evaporação. Para esta parte da operação, o
aparelho usado é mostrado pela figura A . Consiste num tubo duplo, feito de dois
ossos cilíndricos unidos por linha, com as extremidades superiores guarnecidas por dois
pequenos bulbos de madeira. O resto da operação já é prevista pelo leitor: mal termina
o processo de trituração e a varinha que serviu de pilão para moer é posta de lado, as
extremidades lisas dos dois tubos conjugados são introduzidas no pó odorífero, o qual,
por meio de forte inalação, num instante se espalha pela mucosa nasal! D
representa outra moenda em que o recipiente das folhas a serem moídas tem a forma de uma
calha cavada até a extremidade da tábua. C é mesmo objeto visto de lado, e B
a varinha para esfregar.
Suspenso por um cordão preso em torno do pescoço, o índio mantinha este aparelho sempre
à mão. Num dos lados, ou em ambos, há uma reentrância para nela se produzir fogo pro
fricção, unindo deste modo num mesmo conjunto uma caixa de rapé, moenda e isqueiro.
Os índios modernos apreciam tanto o rapé quanto seus antepassados; seu aparelho para
fazer e tomar o rapé é semelhante aos já descritos. Vi moendas de formato circular,
muito bem feitas, de duas a cinco polegadas de diâmetro, com pilões curtos e cônicos, e
também canudos para inalar, mais portáteis do que os especificados acima. Às vezes são
unidos três ossos um para ser posto sobre o rapé, ligado a outros dois para serem
enfiados nas narinas como se fosse um tudo para outros dois de sucção.
Um decidido inimigo de todos os estimulantes, úmidos ou secos, poderia, depois de ler a
descrição acima, perguntar: "E não teria o tabaco vingado, de certo modo, o Novo
Mundo pelo sangue de seus filhos assassinados pelos conquistadores do Velho Mundo, em seus
efeitos físicos e morais, na saúde que já retirou e continua a retirar dos seus
consumidores? Todos os conquistadores se tem manchado com o veneno; os mais cruéis são
os que mais profundamente se poluíram. Outrora as primeiras potências da terra e
agora desprezíveis por suas fraquezas, dissenções e crimes foram escravas de
cegas superstições, ignorância, pobreza, orgulho, e uma planta venenosa."
(Ewbank, Thomas. Vida no Brasil) |
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