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Janeiro 2002
Ano IV - nº 41

TROPAS E TROPEIROS

(...) Quem mais padece semelhante incúria é o pobre do tropeiro, que aliás paga não pouco ao fisco. Acompanhe-mo-lo um dia.

Chegaram as cargas à estação onde as espera a tropa. O tropeiro percorre a receita e confere os volumes. Tudo vem acondicionado para esse gênero de transporte, mas são ainda necessários os arranjos in situ.

Alcear, sopesar, carregar!

Os topes vermelhos, pregados à cabeça do volume, mostram que não é indiferente pendurá-lo à direita ou à esquerda. Os tocadores gemem ao peso, as alças ringem, o couro se acama no alto, a sobrecarga estala no couro e o arrocho aperta o já impaciente cargueiro. Está pronto o primeiro lote.

Soltar!

É o lote da guia. A cabeçada tine na mula da frente e os tocadores falam animadamente à mulada. Lá vão os cargueiros, um após outro, pela batida estreita, como uma carreira de formigas. O primeiro dia é mau. A carga só acerta no correr da marcha: eis corre o tocador; ali está uma carga torta. Ao grito "tió, tió, tió, tió, volta, mula!" o animal pára. Couro abaixo, dobros por cima e toca a consertar. A cangalha está acuando: calça daqui, calça dacolá, suspender, apertar, prompto! Os outros cargueiros não pararam; mal puderam furtar, se não lhes impedem os açaimos de taquara, umas bocadas de capim.

Prosegue a marcha ao som das campainhas. Lá em baixo, numa curva do caminho, aponta o último lote. Vem gemendo a mula crioula mascarada, mas... "burro que geme, a carga não teme". Empenha-se a tropa na subida do morro. Os animais, que instintivamente obedecem à lei do menor esforço, vão fazendo zig-zags, até vingá-lo. Depois, desdobra-se a baixada.

Há um atoleiro adiante, e a tropa carregada não pode parar. Então, o tocador do lote da guia entrega o lote ao cozinheiro, toma da enxada e da foice, pula no lombo do madrinha, que vem solto, e dispara.

Quando a mula da guia chega ao atoleiro, enrista as orelhas e cheira o chão, descobre logo a passagem que acabou de fazer o tocador com estivas de ramos verdes e grossos torrões.

Adiante!

Está tudo encarreirado, vai tudo bem: pode-se pitar agora. E enquanto a faca aparelhada vai picando vagarosamente o fumo de rolo, enche-se a amplidão com a cantiga saudosa:

Vocês todos tão se rindo
Eu chorei!
Da minha camisa rota
Eu chorei!
Não vejo ninguem dizer
Eu chorei!
Dê cá esta e tome outra!
Eu chorei!

Nos arbustos do brejo, um bando de corrupiões selvagens entoa também seu canto nostálgico. Por aí, arvores, flores, quadrúpedes, homens, passarinhos - tudo se irmana na mesma liberdade e na mesma harmonia da criação. À cantilena do tocador, que sofre não sei que mágoas, responde o gemido do cargueiro, cujo olhar manso e escuro, olhar eloqüente de mudo, parece compreender as desditas do homem e contém no seu brilho sereno uns toques suaves de consolação.

* * *

Mas, o sol já virou; é hora de pousar. Vê-se uma fumaça ao longe, entre verduras de terra cultivada. Toca para o rancho. A mula de guia vai se approximando e rouqueja ao ver outra tropa, de embornal à boca, amarrada nas estacas, a roer milho. A primeira que chega ocupa o extremo do rancho e arruma o acampamento sempre de modo a ficar espaço para acomodar outras. Os tocadores da tropa acampada, ao verem chegar a outra, levantam-se em silêncio e, antes de qualquer saudação, ajudam a descarregar o primeiro lote. Nesse interim, o cozinheiro, espontaneamente, prepara o café para oferecer aos recém-chegados.

É de estilo entre tropeiros, conheçam-se ou não se conheçam: quem chega tem direito ao auxílio e ao café de quem já está no pouso.

Enquanto se arrumam as cargas e os animais não há conversa. É’ preciso chegar ao pouso com dia alto para haver tempo de dispor tudo na ordem do costume. As cargas são postas no chão dentro do rancho, em linha perpendicular à cumeeira. Nota-se que entre as cargas de uma e de outra tropa fica sempre de permeio o chamado corredor, espaço reservado para abrigo de qualquer viandante que venha ter aí.

Antes, porém, de enfileiradas as cangalhas, uma como que embutida na outra, cumpre deixá-las ao sol para secarem os suadores, os quais, depois de secos, são raspados e afofados, afim de não magoarem o animal. O cozinheiro recém-chegado arma logo a sua tripode, dependura ao gancho o caldeirão, vai buscar agua à fonte próxima, lava o vasilhame e pede ao vizinho um tição de fogo para fazer o seu. A carga, assim como os arreios de cada burro e de cada lote, estão juntos e separados, afim de não haver confusão no dia seguinte. Refrescado o lombo dos animais, vai-se ao rancheiro comprar milho e encher os embornais. Distribuídas as rações, o tropeiro, ou o arneiro, examina os lombos, atalha alguma cangalha que esteja pisando, limpa um casco a puxavante, assenta uma ferradura, mete um cravo em outra abalada, etc.

Há vinte annos, mais ou menos, era ainda preciso trazer, no surrão da ferramenta, a bigorna para atarracar os cravos. Saber atarracar era indispensável ao ferrador. Agora, porém, a indústria vulgarizou os chamados cravos paulistas, já preparados. O arrrieiro é, de certo, bom casqueiro; sabe nivelar bem um casco, bater os cravos na linha da taipa, a fim de evitar que alcancem e produzam brocas, freqüentes no tempo das águas.

Enquanto a tropa tritura o milho, os tocadores procedem à raspagem. Depois, toca para o pasto, ou para o encosto, se não há pasto conveniente. O tropeiro e o cozinheiro ficam de guarda ao rancho. Nem todo o campo, abundante de pastagem serve de encosto. É preciso que reúna uma série de condições, entre as quais ter boa aguada e impedir o desgarro da tropa. Sim, que é um horror a falha de um ou dois dias num pouso, por causa de burros sumidos.

Todos os machos e mulas têm seus nomes. No momento de carregar, ou de soltar; na hora do perigo, nos terríveis roladores ou precipícios, onde, resvalando um cargueiro, dele nada se aproveita, o tropeiro chama o animal, acalma-o ou estimula-o, pelo seu nome próprio. Conhece-lhes as baldas, as nicas, as manhas, e as qualidades.

Chegaram os tocadores do pasto. A janta está pronta. O tropeiro-chefe, recostado a matutar, ou já tendo começado a ingerir a pitança da tarde, assentado num fardo, terminou a tarefa do dia. Uma marcha de menos: - 2 ½, 3, ou, conforme o caminho e a carga, até 4 léguas. Os rapazes, em diversas posições, quais em pé, quais agachados, comem calados, batendo os garfos nos pratos de estanho. Bebida de espírito, pouca, ou nenhuma, em marcha; agua à discreção: ali está o ancorete ou borracha, com água fresca do rego próximo.

A tarde vem caindo. Ouve-se, ao longe, o pio em coro de um bando de urus ao galgarem o pouso comum. O gado da porta vem chegando, mugindo. A brisa crepuscular remexe as folhas sombrias, onde o passaredo pipilante saltita, procurando o abrigo da noite, e, no esmorecimento da luz, soam hesitantes os primeiros acordes da viola. Todo o rancho está acocorado à beira do fogo.

Trava-se a conversação. Indagam uns dos outros, conhecem-se, contam as peripécias das marchas. Depois, manso e manso, cada qual vai arranjando seu ninho, ali mesmo pelo chão. Mais tarde, quando vai alta a noite e o cão de guarda cochila com a cabeça entre as patas, a tropeirada dorme escondida nas dobras dos couros. Um ou outro insone, vigia, com os olhos arregalados, a banzar na vida, ouvindo os grilos e os vagos rumores do ermo.

[1921]


(Arinos, Afonso. Histórias e paisagens p.118-125)

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