Janeiro
2002
Ano IV - nº 41 |
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Retirei-me e segui para o Campo, espaçoso terreno quadrado, nos lados do qual se
elevam vários edifícios públicos, inclusive o prédio do Senado. Coberto de capim
enfezado, e local de umas das principais fontes, o Campo é o grande estabelecimento para
lavar e corar roupa existente na cidade, sempre animado pela presença das lavadeiras.
Mais de duzentas espalhavam-se agora pelos terrenos, sem falar nos grupos juntos à fonte.
Vistas do alto das montanhas circunvizinhas, devem parecer um bando de gralhas ruidosas ou
de pegas irrequietas. E como estão todas atarefadas, cada uma no meio de um círculo de
roupas a corar! A enorme bacia de madeira que, quando elas vem e voltam, lhes serve de
cesta, é agora o tanque de lavar roupas, e o barril serve de suporte para a bacia. A
maioria delas, como suas irmãs das Laranjeiras, usa roupas leves. Para a maior parte, é
bastante uma simples camisola, que ao ser lavada põe fim ao trabalho do dia. Algumas são
moças minas ou de Moçambique, como evidenciam suas formas superiores e seu cuidado no
vestir. Se outras se mostram nuas da cintura para cima, com essas isso poucas vezes
acontece. E entre elas vêem-se algumas tão graciosas como as que mais o sejam nas fontes
do leste.
Os céus simpatizam com este trabalho que se realiza no Campo, porque, enquanto o capim
fica meio oculto pelas peças de roupa a corar ao sol, o firmamento azul está salpicado
de nuvens cor de neve, indicando um dia seco. Para os bairros mais antigos e densamente
povoados do Rio de Janeiro, aquele é o único lugar para se lavar roupa, e, como tal,
nunca está vazio a não ser em tempo chuvoso, quando podemos imaginar que são os anjos
que estão torcendo sua própria roupa lavada.
A fonte abastece dágua um amplo distrito, e por isso não pequena parte da
população de cor está passando constantemente por ela, chegando e saindo. E que
algazarra! Uma feira hotentote não pode ser mais agitada. Aqueles dois polícias fardados
podem impedir que um negro forte se meta na fila antes de sua vez, empurrando para o lado
o barril, ainda pela metade, de um negro fraco, mas não conseguem silenciar o vozerio. O
líquido que não é retirado corre para duas cisternas de pedra, de trinta pés por
quinze, mantendo-as cheias até a altura do joelho. Nas bordas, tem baixa amurada de
granito, que, em aclive para o exterior, forma como que uma tábua de lavar contínua para
as negras que estão dentro dos tanques. E em cada um deles, uma dúzia ou mais de negras
trabalham. E toca a bater e enxaguar! E novamente mergulhar, bater, torcer como uma corda,
sacudir por cima da cabeça, bater novamente sobre a margem de pedra. Vinte daquelas
chibatas são sacudidas no ar ao mesmo tempo, brandidas por mulheres agitadas, cujas
risadas e gritos quebram a monotonia da incessante tagarelice junto à fonte. E é muito
justo que a rua do Sabão venha dar no Campo.
As lavadeiras não têm o seu santo padroeiro, e no entanto bem merecem um, ainda que
fosse apenas para livrá-las uma vez por ano, do trabalho de lavagem. Nenhuma outra classe
tem mais direitos junto à igreja ou perante os próprios santos. Sem as lavadeiras, missa
nenhuma pode ser celebrada, nem comemorada festa alguma. Os festejos da igreja são
bênção para todos; mas que significam para as lavadeiras escravas? À medida que a data
se aproxima torna-se mais pesado o trabalho das lavadeiras, e ao encerrar-se a festa para
elas somente mais pilhas de roupa suja.
(Ewbank, Thomas. Vida no Brasil) |
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