Ir para a página principalRetornar para Oficina

Janeiro 2002
Ano IV - nº 41

LAVADEIRAS

ilustração extraída de Thomas Ewbank, Vida no Brasil.Retirei-me e segui para o Campo, espaçoso terreno quadrado, nos lados do qual se elevam vários edifícios públicos, inclusive o prédio do Senado. Coberto de capim enfezado, e local de umas das principais fontes, o Campo é o grande estabelecimento para lavar e corar roupa existente na cidade, sempre animado pela presença das lavadeiras. Mais de duzentas espalhavam-se agora pelos terrenos, sem falar nos grupos juntos à fonte. Vistas do alto das montanhas circunvizinhas, devem parecer um bando de gralhas ruidosas ou de pegas irrequietas. E como estão todas atarefadas, cada uma no meio de um círculo de roupas a corar! A enorme bacia de madeira que, quando elas vem e voltam, lhes serve de cesta, é agora o tanque de lavar roupas, e o barril serve de suporte para a bacia. A maioria delas, como suas irmãs das Laranjeiras, usa roupas leves. Para a maior parte, é bastante uma simples camisola, que ao ser lavada põe fim ao trabalho do dia. Algumas são moças minas ou de Moçambique, como evidenciam suas formas superiores e seu cuidado no vestir. Se outras se mostram nuas da cintura para cima, com essas isso poucas vezes acontece. E entre elas vêem-se algumas tão graciosas como as que mais o sejam nas fontes do leste.

Os céus simpatizam com este trabalho que se realiza no Campo, porque, enquanto o capim fica meio oculto pelas peças de roupa a corar ao sol, o firmamento azul está salpicado de nuvens cor de neve, indicando um dia seco. Para os bairros mais antigos e densamente povoados do Rio de Janeiro, aquele é o único lugar para se lavar roupa, e, como tal, nunca está vazio a não ser em tempo chuvoso, quando podemos imaginar que são os anjos que estão torcendo sua própria roupa lavada.

A fonte abastece d’água um amplo distrito, e por isso não pequena parte da população de cor está passando constantemente por ela, chegando e saindo. E que algazarra! Uma feira hotentote não pode ser mais agitada. Aqueles dois polícias fardados podem impedir que um negro forte se meta na fila antes de sua vez, empurrando para o lado o barril, ainda pela metade, de um negro fraco, mas não conseguem silenciar o vozerio. O líquido que não é retirado corre para duas cisternas de pedra, de trinta pés por quinze, mantendo-as cheias até a altura do joelho. Nas bordas, tem baixa amurada de granito, que, em aclive para o exterior, forma como que uma tábua de lavar contínua para as negras que estão dentro dos tanques. E em cada um deles, uma dúzia ou mais de negras trabalham. E toca a bater e enxaguar! E novamente mergulhar, bater, torcer como uma corda, sacudir por cima da cabeça, bater novamente sobre a margem de pedra. Vinte daquelas chibatas são sacudidas no ar ao mesmo tempo, brandidas por mulheres agitadas, cujas risadas e gritos quebram a monotonia da incessante tagarelice junto à fonte. E é muito justo que a rua do Sabão venha dar no Campo.

As lavadeiras não têm o seu santo padroeiro, e no entanto bem merecem um, ainda que fosse apenas para livrá-las uma vez por ano, do trabalho de lavagem. Nenhuma outra classe tem mais direitos junto à igreja ou perante os próprios santos. Sem as lavadeiras, missa nenhuma pode ser celebrada, nem comemorada festa alguma. Os festejos da igreja são bênção para todos; mas que significam para as lavadeiras escravas? À medida que a data se aproxima torna-se mais pesado o trabalho das lavadeiras, e ao encerrar-se a festa para elas somente mais pilhas de roupa suja.


(Ewbank, Thomas. Vida no Brasil)

Topo

Jangada Brasil © 2001