Trabalhar em casa dama queria
dizer, antigamente, ter um emprego como doméstica. Procurar casa dama, encontrar
uma casa dama significavam procurar emprego, dormir por lá mesmo,
desempregar-se ou empregar-se respectivamente. Era raro uma cozinheira ou lavadeira
pronunciar meu patrão, minha patroa. Minha ama e meu amo eram as expressões
correntes. Patroa e a branca se generalizaram, depois que se foi efetivando a
Abolição.
Arranjar uma casa dama não era difícil. Dependia, como hoje, do candidato
ou candidata ter habilidade no desempenho de suas tarefas, sobretudo ser fiel nos trocos e
curto na língua. A cozinheira precisava saber lidar com aqueles temperos complicados em
que manteiga vermelha (manteiga de vaca com sal), banha, toucinho e azeite doce concorriam
generosamente para tornar as pessoas gordas e aparentemente sadias. Para a arrumadeira,
varrer e sacudir tudo muito bem e lavar a casa aos sábados eram suas obrigações
principais. Usar a vassoura de palha para o assoalho, tendo cuidado de não formar cadeira.
Utilizar a de piaçava para ladrilho e cimento, reservando o cavanhaque para
esfregar o banheiro e varrer o quintal.
Lavar casa, em determinadas famílias, era trabalho confiado a algum molecote ou a um
ganhador conhecido. Jogar água num assoalho, esfregar as tábuas sem arrancar a estopa e
o breu com que o calafate (com suas marteladas e uma zoadeira terrível) tinha vedado as
frinchas era quase uma ciência, notadamente quando eram andares diferentes, habitados por
gente estranha. Quando a água começava a pingar, o vizinho de baixo batia no seu teto
(que era o assoalho do outro) com a vassoura de vasculhar. Muitos pacatos pais de família
foram entender-se na delegacia, depois de questiúnculas entre suas cara-metades, devido a
tais pingos inconvenientes. Por isto, exigia-se a maior aplicação possível das virtudos
lavatórias da ama que fazia os serviços caseiros.
Arrumar uma empregada, arranjar uma ama, como se dizia, também não era difícil.
Dependia, como hoje, de se ter dinheiro para pagar e paciência para agüentar os dias de
adaptação. Fidelidade era o requisito principal invocado, quando se pedia para alguém inculcar
uma ama. O verdureiro, o açougueiro, o freguês da banana ou a freguesa do acaçá, enfim
aquele bando de gente que vinha à porta vender, era convocado para inculcar uma
ama boa.
Se muitos inculcavam, outros se negavam. As amas de cozinha (as mais procuradas)
constituíam perigo à vista. Podiam ser ladras de comida, saqueadoras de despensa,
mascadeiras de axá ou porcas no serviço. Cabelos em desalinho, ombro à mostra,
salivando abundantemente e cuspindo onde achava, jogando talos e folhas de tempero pelo
chão, salpicando água das gamelas ou pias de lavar louça, uma certa classe de amas de
cozinha transformava seu ambiente numa verdadeira bagaceira, onde se movimentavam
triunfantes seus pés rachados e precocementes anquilosados.
Na rua, as cozinheiras eram inconfundíveis. Usavam saia rodada, bata folgada, xale de lã
dobrado ao comprido sobre o ombro ou apenas um pano listrado servindo de embrulho e
chinelinhas na ponta dos pés. Sobre a cabeça a famigerada cesta execrada pelos patrões.
A cesta era elipsóide, a parte mais estreita para baixo, a abertura superior vedada por
uma tampa munida de uma bisagra no meio, o que permitia só destampar o lado conveniente.
A virola ou alça poucas vezes era utilizada. Além da cesta, usava em menor escala o cabaz.
Este nada mais era que uma cesta igual ou semelhante à acima descrita, apenas desprovida
de tampa.
Ama de cesta era uma calamidade. Quando alguém chegava ao ponto de colocar anúncio
pedindo cozinheira fiel, porque as inculcadas tinham falhado, avisava logo que não
seriam aceitas as portadoras de cesta. Como quase todas preferiam dormir fora, entrando
antes ou depois do café da manhã, conforme o trato, saindo invariavelmente entre vinte e
vinte duas horas, após ter despachado e arrumado tudo, não era problema carregar o que
mais lhe interessasse.
Dormir no emprego era o que constituía problema. A não ser nas casas com cômodos
suficientes, a ama dormia no chão. Arranjava uma tábua por causa da frieza do chão, uma
esteira de catolé, uns retalhos de cobertores e xales velhos, armando a cama na cozinha,
na sala de jantar ou na entrada da porta da rua, para receber, de manhãzinha, o pão, o
leite e o mingau. Ainda era despertada durante a noite para solicitações fúteis e
desumanas, o que lhe acarretava um constante déficit de sono.
Se a casa era boa e o pessoal acomodado, ela dormia em sossego, tinha suas folguinhas,
ajudava a criar os meninos, chegando a representar algum na pia batismal. Podia
até sair para descansar! Este descansar era uma troca temporária de profissão: arranjar
roupa para lavar ou se tornar ganhadeira ou vendedeira. Conforme a maré de sorte, havia
quem fosse cozinheira no inverno e lavadeira no verão.
Se era afortunada, conseguia um canto no porão ou um quartinho no fundo, aboletando toda
sua geração. Os filhos iam crescendo aí mesmo, os meninos aproveitados como moleques de
recados ou compradores de tempero, as meninas ajudando nos trabalhos ou sendo repartidas
por entre as casas de conhecidos.
Marido nem todas conseguiam ter. Marido responsável principalmente. Os boas-vidas, que
sempre existiram, não se davam ao cuidado de procurar ocupação e se deixavam sustentar
por elas, mesmo ouvindo xingamentos, quebrando o pau no ouvido, preocupados apenas
em ter uma aparência maneirosa e serviçal. Por este motivo, as de juízo preferiam viver
só, criando os filhos que Deus mandava, sempre à sombra de uma boa casa dama.
Uma boa casa de ama valia tanto quanto um seguro de vida.
(Viana, Hildegardes. A Bahia já
foi assim crônicas de costumes) |