Janeiro
2002
Ano IV - nº 41 |
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Um moço
inteligente e rico queria casar mas não se agradava das moças do lugar onde morava.
- Não acho moça do meu interesse, respondia ele aos pais que desejavam muito vê-lo
casado.
Deliberou então viajar e foi para uma cidade, procurar uma noiva. Estava ele na igreja
quando viu um casal tendo uma filha moça muito bonita. O moço simpatizou com ela e quis
primeiro saber se ela era mesmo capaz de dar definição de tudo. Quando o casal saiu da
igreja, como a moça adiante, o rapaz saiu atrás e tirou as botinas, metendo-as num
guarda sol que levava.
Chegado todos à beira de um riacho e para atravessá-lo o casal e a filha descalçaram-se
e meteram-se nágua. O rapaz calçou as botas e passou a corrente com os pés descalços.
Adiante, deram numa floresta fechada onde só havia sombras. O casal e a moça fecharam o
guarda-sol e o rapaz abriu o seu. Quando chegaram à casa do casal, o moço aproximou-se e
pediu agasalho, o que lhe foi dado.
O dono da casa convidou-o para ver uma plantação de arroz e lhe perguntou quantas cuias
de arroz calculava que o baixio desse. O moço respondeu:
- Dá mais cuias do que podemos pensar!
O velho achou que ele estava amalucado. Levou-o para ver sua quinta e pedir a opinião. O
rapaz disse:
- Sua casa é baixa para a quinta!
O velho cada vez ficava mais certo da maluquice do outro. Foram jantar. O moço tomou
conta da serventia da mesa, cortando a galinha assada. Deu a cabeça ao velho, os pés à
velha, as asas à moça, e comeu o resto.
Foram dormir, e os velhos pegaram a conversar, dizendo que o moço era doido varrido. A
moça protestou, dizendo que ele era muito sabido e fizera muito bem. Os pais pediram que
ela explicasse. A moça falou por aqui assim:
- Ele tirou os sapatos na rua porque ali não há pedras nem espinhos. Calçou-se para
atravessar o riacho porque pedra, espinho, estrepe só existem dentro dágua. Abriu
o guarda-sol na sombra porque podia cair garrancho, pedaço de pau, frutas ou sujo das
árvores. Disse que a baixa do arroz dava mais cuias do estamos pensando porque ninguém
pode calcular a safra daquele partido. As quintas são superiores à casa por isso ele
disse que a casa era baixa para as quintas. Deu a cabeça da galinha a meu pai porque este
é cabeça do casal, os pés à minha mãe porque dona de casa é os pés de uma casa, e
as asas para mim porque solteira pode casar e voar para fora de casa.
Os velhos concordaram e o rapaz, que estava ouvindo tudo, ficou muito satisfeito e na
manhã seguinte disse quem era e pediu a moça a casamento. Casaram e foram viver na
cidade, muito felizes.
A moça vivia muito bem com seu marido e só saía de casa com ele. Dias depois ele trouxe
um papagaio muito falador. Botou-o na sala da frente e pediu à mulher que, não estando
ele em casa, atendesse por cima de tudo, ao que dissesse o papagaio.
O moço tinha feito uma promessa noutra cidade e demoraria uns dias. Despediu-se da
mulher, recomendando o papagaio e dizendo que não saísse de cada na sua ausência.
Montou a cavalo e saiu. Assim que dobrou a esquina da rua encontrou um velho amigo seu com
quem começou a conversar. Ao saber que o amigo tinha casado, o outro, que era dono de uma
grande casa de negócio, perguntou se podia ver a mulher.
- Fica para quando eu voltar! - disse o marido.
- Qual o quê! Eu só quero ver! Vejo aqui na sua ausência!
- Vê nada! Não há homem que veja minha mulher eu não estando em casa!
- Mas eu vou ver!
- Não vê!
- Vejo! Olá, se vejo!
- Não vê! Tenho a certeza!
- Quer apostar comigo?
- Quero.
Apostaram muito dinheiro e o marido seguiu sua viagem. O outro mudou a roupa, fez-se todo
bonito e foi bater na porta do amigo. O papagaio falou, de dentro:
- Quem é?
- É de paz!
- Que deseja?
- Sou um velho amigo do dono da casa e queria ver a mulher dele.
- Venha quando o marido voltar!
O outro vendo que era impossível vencer a teimosia do papagaio, deu volta e foi-se,
bufando de raiva. Mas planejou outra manobra. Trouxe uma cavalhada para correr argolinhas
na porta da casa do amigo. De certo a mulher havia de ver as corridas da janela. E ele
olharia bem. As cavalhadas vieram e a mulher veio ver mas o papagaio não deixou ela abrir
porta nem janela. Espiou pelos buraquinhos. O camarada ficou mesmo contrariado. Amanheceu
o dia no balcão, zangado por ter de perder tanto dinheiro que apostara com o amigo. Nesse
momento entrou uma velha esmoler e perguntou o que tinha. Depois de uma insistência da
velha, acabou dizendo tudo. A velha achou muita graça.
- Não seja esta a razão de sua tristeza, meu netinho! Se você me prometer pagar, bem
paga, vou dar um jeito. Hoje mesmo, de tarde, você enche a barriga de ver essa moça na
igreja.
- Está prometido, minha velha!
A velha empurrou-se para a casa da moça. Bateu. O papagaio perguntou quem era. A velha
que era uma pedinte que queria ver a dona da casa.
- Faça a volta por detrás. Vá pela cozinha! - Disse o papagaio.
A velha foi, conversou e fez muito agrado com a moça. Depois, fazendo cara de choro,
disse que passara a noite sem dormir, pensando na desgraça que sucedera ao marido dela,
preso na cidade fulana.
A moça, de boba, acreditou, e pegou a ficar agoniada, sem achar canto. A velha aconselhou
que ela pagasse na igreja a promessa que o marido tinha ido fazer na outra cidade. A moça
mandou comprar uma vela, vestiu-se e ia saindo, acompanhada pela velha, quando,
atravessando a sala de fora, o papagaio perguntou para onde ela se destinava.
- Vou pagar a promessa na Igreja, meu louro!
- Ah! Vai! Faz muito bem. Mas é cedo. Meu senhor deixou dito que eu lhe contasse uma
história mas nunca tive tempo. Enquanto esperamos a hora eu posso ir principiando.
- Principie, meu louro!
Sentou-se. A velha sentou-se no chão. O papagaio começou:
- Diz que era uma vez um rei que tinha uma filha formosa como os amores. Costumava ela
passar a tarde numa varanda do palácio. Um criado do rei veio avisar que todos os dias um
moço ficava muito tempo trepado no muro, olhando a prinspa [1]. O rei
maldou logo que era namoro e o rapaz queria furtar sua filha. Imaginou um jeito de
dificultar o negócio e saiu-se com esta. Mandou fazer uma boneca do tamanho da princesa,
parecida por demais com ela, com os mesmos trajos, cabelos, olhos. A princesa gostou muito
da boneca e brincava horas e horas com ela na varanda. O rapaz no muro, ia botando sentido
em tudo. Numa tarde a princesa sentou a boneca numa cadeira e ficou na outra. Acabou
pegando no sono. O rapaz pulou o muro, subiu a varanda e carregou a boneca, pensando que
carregava a princesa. Quando acordou não viu a boneca e começou a chorar e a gritar.
Veio a gente toda do palácio e o rei tratou de consolar a filha...
Nesse ponto da história do papagaio, o sino da igreja tocou as badaladas das
"trindades". O papagaio pediu desculpas por haver contado uma história tão
comprida que fizera perder o tempo de pegar a igreja aberta. A moça mandou a velha
embora, dizendo que voltasse no outro dia, e foi tratar da ceia e de dormir.
A velha correu para o negociante e encontrou ele zangado por demais. A velha prometeu que
no dia seguinte tudo sairia a contento. Contou que o papagaio atrapalhara a combinação.
No outro dia a velha voltou, bateu e o papagaio mandou que fizesse volta pela cozinha. A
moça arranjou-se, embrulhou a vela e ia abrindo a porta quando o papagaio pediu licença
para acabar a história que estava quase no finda-não-finda. A moça sentou-se numa
cadeira. A velha sentou-se no chão. O papagaio começou:
- Vai daí o rei prometeu que mandava fazer outra boneca mas a princesa não parava de
chorar e dizer que só servia a boneca furtada. E tanto pediu para ir procurar a boneca, e
tanto rogou e sapateou, que o rei, com medo que ela ficasse maluca, deu licença. A
princesa saiu pelo mundo à cata da sua boneca perdida.
Chegou numa cidade importante e pediu arrancho numa casinha pobre. A dona deu hospedagem e
pegaram na conversa. A moça disse que era uma médica. A dona da casa contou que a cidade
estava triste porque o filho do rei, filho único, um prinspo [2] delicado,
estava à morte, sem querer comer, fechado num quarto, sem remédio. A médica se ofereceu
para ir ver o príncipe. A dona da casa preparou a janta, botou na mesa, deixou a moça
comendo, e correu para contar ao rei o que havia. O rei disse que ela trouxesse a médica
no outro dia. Assim mesmo foi. No outro dia a moça e a dona foram para o palácio falar
com o rei. O rei fez muito agrado à moça e disse:
- Se você tratar de meu filho e o curar, eu darei a metade de tudo quanto tenho, até a
metade de um copo da minha mesa fica sendo seu!
A moça aceitou tudo, de tinta e papel, e disse que só se encarregava do tratamento se
fosse dormir no mesmo quarto do príncipe, para ouvir o suspirar quando ele estivesse
dormindo ou a respiração quando estivesse acordado. O rei aceitou e foi com a moça
ensinar onde era o quarto do príncipe seu filho...
Neste, como da vez passada, o sino da igreja bateu as três badaladas da
"Ave-Maria". O papagaio calou-se. A moça mandou a velha embora e disse que
voltasse na tarde do outro dia. O papagaio fazia a história tão comprida, com vozes e
ditos, que atrapalhara a maldade da velha.
O negociante ficou irado mesmo, dizendo muito desaforo à velha embora esta contasse o que
se dera e prometesse que não passaria do dia seguinte.
No outro dia foi a mesma cousa. O papagaio fez a velha entrar pela cozinha, para não
abrir a porta da rua. A moça preparou-se, segurou a vela, chamou a velha e foi abrir a
porta. O papagaio pediu licença para acabar sua história, que estava no fim, no
finzinho. A moça sentou-se. O papagaio começou.
- O rei levou a médica até o quarto do príncipe e mandou ela entrar sozinha. A moça
entrou e olhou tudo direitinho. Viu um rapaz bonito, deitado numa cama, com os olhos
fechados. Chegando mais perto reconheceu que era o tal moço que vivia trepado no muro,
espiando para a varanda e que furtara a boneca. Assim que viu bem direito, passou a mão
no rosto do moço e perguntou, quando ele abriu os olhos.
- Onde está minha boneca, hem? Onde está minha boneca?
O príncipe abriu os olhos e nem acreditava no que estava vendo. Deu um pulo da cama,
ficando em pé agarrou a moça, e foi dizendo:
- Princesa, minha senhora! Eu estava morrendo de saudades! É você mesmo? Parece um
sonho!
Passava as mãos nos olhos, esfregando, com medo que fosse visagem. Depois conversaram
muito e a moça perguntou pela boneca. O príncipe mostrou a boneca guardada num armário
grande. Foram dormir e pela manhãzinha o príncipe foi falar com o rei. O rei quando viu
o príncipe andando, contente, chorou de alegria. Contaram tudo que se tinha sucedido e o
rei abraçou a moça como sua nora. Mandaram chamar o rei-velho, pai da médica e houve um
casamento de estrondo. Uma festa tão bonita, com as músicas tão alegres que até eu
dancei também... Sabe como foi que eu dancei?
A moça respondia:
- Não sei, não, meu louro!
E o papagaio, para ir ganhando tempo e dar espaço para o sino tocar, ia cantarolando uma
toada muito desafinada e dançando, todo capenga, uma dança que era da gente morrer de
rir.
E quando o papagaio estava nesse passo, riscou um cavalo na porta e o marido da moça
bateu e entrou. Abraçou e foi logo dizendo que apostara muito dinheiro com um amigo como
este não havia de ver sua mulher ele estando ausente. Acabava de chegar e já recebera o
dinheiro da aposta. O amigo contara tudo quanto tinha feito e os conselhos da velha. Deu
uns safanões na velha e botou-a de casa para fora. A velha correu para o negociante mas
este, furioso por ter perdido tanto dinheiro numa aposta sem proveito, recebeu-a ainda
pior, com pancadas e desaforos, dizendo que não a queira ver mais enquanto vivesse.
O casal viveu sempre na felicidade, tendo o papagaio na maior estimação.
(Informante: Manuel Galdino Pessoa. Sapé, Paraíba)
Notas:
[1]. Princesa
[2]. Príncipe
(Cascudo, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil, p. 146) |
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