Janeiro
2002
Ano IV - nº 41 |
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A PIEDOSA TERESA
(Dona Teresa Ferreira) |
Atmosfera de cauda de procissão. Bodum.
Os homens formam duas filas diante do altar de São Gonçalo. São Gonçalo está
enfaixado como um recém-nascido. Azul e branco. Entre palmas-de-são-josé. Estrelas
prateadas no céu de papel de seda.
Os violeiros puxando a reza e encabeçando as filas fazem reverências. Viram-se para os
outros. E os outros dançam com eles. Bate-pé no chão de terra socada. Pan-pan-pan-pan!
Pan-pan-pan! Pan-pan-pan-pan! Pan-pan! Param de repente.
Para os violeiros cantarem viola no queixo:
É este o primeiro velso
Queu canto pra São Gonçalo
- Senta aí mesmo no chão, Benedito. Tu não é mió que os outro, diabo!
É este o primeiro velso
Queu canto pra São Gonçalo
E o coro começa grosso, grosso. Rola subindo. Desce fino, fino. Mistura-se. Prolonga-se.
Ôooôh! Aaaah! ôaaôh! Ôaiiiih! Um guincho.
O violeiro de olhos apertados cumprimenta o companheiro. E marcha seguido pela fila. Dá
uma volta. Reverências para a direita. Reverências para a esquerda. Ninguém pisca.
Volta para seu lugar.
- Entra, Seu Casimiro!
O japonês Kashamira entra com a mulher e o filhinho brasileiros de roupa de brim.
Inclina-se diante de São Gonçalo. Acocora-se.
O acompanhamento das violas feito de três compassos não cansa. Nos cantos sombreados os
assistentes têm rosário nas mãos. No centro da sala de cinco por quatro a lâmpada de
azeite dança também.
Minha boca está cantando
Meu coração lhe adorando
Cabeças mulatas espiam nas janelas. A porta é um monte de gente. Dona Teresa,
desdentada, recebe os convidados.
- Não vê que meu defunto Seu Vieira tá enterrado já há dois ano... Faiz mesmo dois
ano agora no Natar.
Pan-pan-pan-pan! Pan-pan! Pan!
- A arma dele tá penando aí por esse mundo de Deus sem podê entrá no céu.
Pla-pla-pla-plá! Pla-plá!
- Eu antão quis fazê esta oração pra São Gonçalo deixá ele entrá.
Vou mandá fazê um barquinho
Da raiz do alecrim
O menino de oito anos aumenta a fila da direita. A folhinha da parede é uma paisagem de
neve. Mas tem um sol. E o guerreiro com uma bandeirinha auriverde no peito espera o sol
com a espada. Empório Tuiuti.
Pra embarcá meu São Gonçalo
Do promá pro seu jardim
Desafinação sublime do coro. Os rezadores sacodem o corpo. Trocam de posição.
Enfrentam-se. Dois a dois avançam, cumprimento aqui, cumprimento ali, tocam-se ombro
contra ombro, voltam para os seus lugares. O negro de pala é o melhor dançarino da
quadrilha religiosa.
São Gonçalo é um bom santo
Por livrá seu pai da forca
Só a casinha de barro alumiando a escuridão.
- Não vê que o Crispim também pegou uma doença danada. Não havia jeito de sará. O
coitado quis até se enforcá num pé de bananeira!
Dona Teresa é viúva. Viúva de um português. Mas nem oito dias passados Dona Teresa se
ajuntou com o Crispim. A filhinha dela ri enleada e é namorada de um polaco. Na fazenda
Santa Maria está sozinha pela sua boniteza. Dona Teresa cuida da alma do morto e do corpo
do vivo. No carnaval deste ano organizou um cordão. Cordão dos Filhos da Cruz. Dona
Teresa é pecadora mas tem sua religião. Todos gostam dela em toda a extensão da Estrada
da Cachoeira. Dona Teresa é jeitosa, consegue tudo e ainda por cima é pagodeira.
Artá de São Gonçalo
Artá de nossa oração
- Nós antão fizemo uma promessa que se Crispim sarasse nóis fazia esta festinha.
Foi promessa que sarando
Será seu precuradô
As violas têm um som, um som só. É proibido fumar dentro da sala. Chega gente.
São Gonçalo tava longe
De longe já tá bem perto
Um a um curvam-se diante do altar. O violeiro de olhos apertados está de sobretudo.
Negros de pé no chão.
- Nóis tamo memo emprestado neste mundo.
Cantando cruzam a salinha quente.
Amor castiga a gente. Olhe a Rosa que não quis casar com o sobrinho do poceiro. Não
houve conselho de mãe, não houve ameaça de pai nem nada. Fincou o pé. E fugiu com o
italiano casado carregado de filhos. Um até de mama. Não tinham parada. Agora, agora
está aí judiada com o ventre redondo. São Gonçalo tenha dó da coitada.
Abençoada seja a mão
Que enfeitô este oratório
O preto de pala dá um tropicão engraçado. E a mulher de azul-celeste dá uma risada sem
respeito. O bico do peito escapuliu da boca do filho.
Da dança de São Gonçalo
Ninguém deve caçoá
Ôooôh! Aaaah! ôaiiiih!
São Gonçalo é vingativo
Ele pode castigá
Silêncio na assistência descalça. As bandeirinhas de todas as cores riscam um x em cima
dos dançarinos. Atrás da casa tem cachaça do Corisco.
- Depois é a veiz das moça. Quem quisé pode pegá o santo e dançá com ele encostado
no lugá doente.
Onde chega os pecadô
Ajoeai pedi perdão
O estouro dos foguetes ronca no vale fundo. Anda um ventinho frio cercando a casa.
São Gonçalo tá sentado
Com sua fita na cintura
O caboclo louro puxa a faca e esgaravata o dedão do pé.
- São seis reza de hora e meia cada mais ou meno. Pro santo ficá satisfeito.
Lá no céu será enfeitado
Pla mão de Nossa Sinhora
Pan-pan-pan-pan! Pan-pan! Pla-pla-pla-plá! Pla-plá! Plá! Pla-pla-pla-plá!
Oratório tão bonito
Cuma luz a alumiá
De cima do montão de lenha a gente vê São Paulo deitada lá embaixo com os olhos de
gato espiando a Serra da Cantareira. Nosso céu tem mais estrelas.
São Gonçalo foi em Roma
Visitá Nosso Sinhô
Dona Teresa parece uma pata.
- Só acaba aminhã, sim sinhô! Vai até o meio-dia, sim sinhô! E acaba tudo ajoeiado,
sim sinhô.
Ôooôh! Aaaah! ôooôh! Ôaôaiiiih! Primeiro é órgão. Cantochão. Depois carro de
boi. No finzinho então.
Sinhora de Deus convelso
Padre Filho Esprito Santo
Quem guincha é mesmo o caipira de bigodes exagerados.
(Machado, Antônio de Alcântara. "A piedosa Teresa". Em O livro das
festas. p.161) |
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