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Janeiro 2002
Ano IV - nº 41

AS PASTORINHAS DE SÃO JOÃO, DA TIJUCA.

Comunicação de Renato Almeida à CNFL.

A revivescência dos folguedos folclóricos, incluída como um dos pontos (IX) do Programa de Trabalhos da Comissão Nacional de Folclore, não oferece apenas ensejo para análise e estudo dos fenômenos tradicionais do povo, mas constitui um dos meios mais eficientes de despertar o gosto e o amor pelas artes populares, manter a sua continuidade e evitar a regressão dos elementos consuetudinários.

Para isso, tem a Comissão se empenhado junto à autoridade, a fim de evitar a cobrança de impostos e taxas inconcebíveis sobre folguedos apresentados, gratuitamente em praças públicas, e, mais ainda, para que impulsionem e subvencionem quando possível sua realização. Esse apelo não tem sido em vão. O convênio entre o Governo estadual e as Municipalidades de Pernambuco, de 7 de agosto do ano passado [1949], determinou, na cláusula 37ª, que promoveriam as partes signatárias as providências necessárias: "isentar de impostos ou taxas as diversões populares, auxiliando moral e materialmente, sempre que possível, os grupos organizados ou que se organizarem de festejos tradicionais do folclore nacional". A Municipalidade de Vitória, no Espírito Santo, aprovou uma lei autorizando a Prefeitura a patrocinar toda e qualquer representação de folguedos tradicionais de caráter folclórico, que for levada a efeito naquela capital. Além disso, as Subcomissões estaduais têm promovido vários folguedos e, no ano passado, a Prefeitura de Natal fez realizar também vários autos populares. E diversas sociedades e grupos particulares, inclusive no Rio de Janeiro, animados com o interesse que vai despertando o folclore, têm feito apresentação muito esmeradas. E isso sem contar as excelentes revivescências promovidas pelo SAPS.

De uma apresentação de pastorinhas é que vou tratar. Foi feita em homenagem à Comissão de Folclore, que nela se fez representar pela senhorita Cleofe Person de Matos, doutor Pedro Gouvêia Filho, professor Nóbrega da Cunha e pelo signatário desta. Era o último espetáculo do ano de pastorinhas, realizado no morro de Catambri, na Tijuca, pelo Grêmio das Pastorinhas de São João, dirigido pelo senhor João Pacheco Chaves, desde menino, toma parte nesses folguedos e, de há quinze anos a esta parte, dirige o grupo, com um amor e um desvelo extraordinários. Na noite de 19 para 20 de janeiro, assistimos a um espetáculo folclórico, não só pela exatidão com que se fez o folguedo, como pelo clima tradicional em que se desenvolveu. As contaminações
da cidade, que subiram até lá, não serviram para deformar, pois se folclorizaram como legítima sobrevivências.

Não vou estudar aqui o pastoril e suas modalidades: a nordestina, a baiana e a carioca. Quero descrever apenas o espetáculo a que assisti, para o que contei com a preciosa colaboração de dona Cleofe Person de Matos, que registrou algumas melodias ali ouvidas.

Depois de subir o morro íngreme da Tijuca, por estrada ainda difícil, chegamos ao terreiro, onde se representaria o auto, porque, na realidade, se trata de um auto histórico. Um tablado, com microfones para altos falantes, ornado com palmeironhas e bandeirolas de papel, e uma multidão de assistentes, quase todos do morro, operários e suas famílias. O doutor Agenor Lopes de Oliveira, grande animador do folclore e amigo daquela gente, nos explicou que aquele morro era um pouco diferente. Não tinha escola de samba nem agitadores, era habitado por operários pacatos e trabalhadores e que consagravam àquele grupo de pastorinhas um grande amor, passando noites a fio nos ensaios. Os meninos e as meninas trabalhavam ao lado dos pais, mantendo assim a tradição viva. Outros mais velhos não participavam mais das representações, mas já o tinham feito, e eram capazes de cantar e recitar todos os papéis.

Pouco depois de chegados, começou o cortejo, precedido por uma menina, representando a fada, e em seguida todos os personagens bíblicos do Natal e outros que ali se intrometem. O ensaiador e diretor do bailado era o rapaz, que representava satanás, dotado de uma bela voz e que, com um carinho e devoção especiais, fazia o metteur em scène. Não deixava de ser curioso ver a figura do diabo, entre santos e arcanjos, porque ele não saía do palco e tomava em todos os cantos, os mais sagrados que fossem.

A representação tem os quadros comuns dos pastoris, mas não existe neste os dois cordões, senão como uma lembrança, indicada por cor de saias. Há a mestra e contramestra, mas apenas nominalmente, tanto que esta fazia também o papel da samaritana. Em suma, uma intromissão do elemento do pastoril nordestino, mas sem igual significado. A semelhança com o baile pastoril baiano é apenas na parte dramática, mas não existe, como naquele, um enredo, são cenas sucessivas, com os motivos bíblicos; poder-se-ia dizer, sem impropriedade, uma revista religiosa, em que se intrometem episódios estranhos, como uma dança de portugueses – o Manuel com a Márcia – o da quitandeira ou o da chuva. O senhor João Pacheco me avisou – não saio da história sagrada, e, quando lhe pedi explicação para aqueles números estranhos, disse que era para enfeitar.

A representação prosseguia animada, os personagens apareciam e cantavam ou diziam loas, todas celebrando a grande noite em que nasceu Jesus. Nisso começou a chover e como engrossasse a chuva, foi preciso deixar o local ao ar livre e nos recolher à casa do senhor João Pacheco, onde, naturalmente, a representação perdeu muito, mas lucramos um contato mais íntimo com os personagens, em número de setenta. Mas a festa continuou animada, a despeito do calor excessivo. Quando chegou perto de meia-noite, lembrou alguém que era hora de fazer a queima das lapinhas, cena derradeira do folguedo. O senhor João Pacheco protestou: "que meia-noite que nada! Meia-noite agora é 1 hora. Só posso queimar as lapinhas na hora que Deus nos deu, quando são queimadas no mundo inteiro. Essa hora adiantada não é da História Sagrada. À 1 hora é que começa realmente o dia de São Sebastião". E assim se fez. Estávamos presenciando o fato folclórico vivo, verificando o comportamento do povo diante de acontecimentos atuais e a persistência das forças irremissíveis da tradição.

Só quando o relógio marcou 1 hora (hora de verão) o senhor João Pacheco nos convidou a voltar ao terreiro, para assistir à queima das lapinhas. A cada um dos visitantes foi oferecido um molhozinho de palhas. No centro se fez a fogueira. As chamas subiram, os homens, as mulheres e as crianças dançaram em seu derredor, animados e ardentes, na ressurreição ancestral do culto do fogo. E cantaram e cantaram. Depois, começaram a passar todos os personagens do folguedo, cada qual por sua vez, a fim de despedirem-se até para o ano se nós vivos formos. Aumentava a animação e o entusiasmo e as palhinhas que nos tinham sido ofertadas foram pedidas de novo para aumentar a fogueira. Era grande a vibração e se podia sentir, em cada qual e em todos, o amor com que ali estavam. E note-se que não havia corrido pinga, ninguém bebera uma gota de álcool, a não ser as visitas que tomavam cerveja. E pude ver que havia cerveja para os homens e guaraná para as mulheres e crianças, com muitos doces, mas de que se serviriam somente finda a festa. E assim terminou a representação.

Cabe agora considerar o espetáculo em si – parte dramática e indumentária, a coreografia e a música.

A representação das pastorinhas tem, como disse, a forma de um auto dramático. São pequenas cenas, com poucos personagens mas sempre acompanhadas pelo coro. Em geral cantam e vez por outra declamam, mas com uma entonação de melopéia. São anjos, figuras bíblicas, personagens abstratos (a , a esperança, a caridade), simbólicas (a chuva, o sol, a lua, a estrela d’alva) ou reais (pastores, lavadeiras etc.) Uma da cenas mais dramáticas é quando satanás não conseguindo seduzir a libertina (é a Madalena) crava-lhe um punhal, aparecendo depois o arcanjo Gabriel, que ressuscita a assassinada, e faz o diabo desaparecer. Este sai embuçado no seu manto vermelho, depois de lastimar ter sofrido nova derrota daquele arcanjo. Há também a cena de um português dançando com uma portuguesa, uma espécie de vira, que é muito pitoresca. Mas, pelo geral, são os temas bíblicos, nos quais os personagens mais se apresentam do que propriamente representam papéis, dentro de um entrecho. As várias cenas não têm concatenação, são como "cortinas" numa revista teatral.

No tocante à indumentária, estavam todos vestidos a caráter, segundo a tradição. O diabo cornudo, os anjos com grandes asas, a fada com o chapéu de funil, os velhos apoiados em bastões, os pastores com seus cajados e assim por diante. Roupas vistosas, brilhantes, variegadas, de feito com muita propriedade. Soube que cada qual compra a sua e os implementos correlatos. Durante a representação, quando passamos para o interior, alguns supliciados pelo calor, se libertaram de peças das fantasias, como os velhos, que não puderam mais suportar as incômodas barbas e as pesadas cabeleiras postiças.

Quanto à coreografia, não há propriamente dança. Apenas alguns passos, e um julgar constante de coro, à guisa de "balancê" enquanto cantam. Poder-se-á falar a rigor de movimento rítmico, mas nunca de bailado. Nem mesmo, o desenvolvimento dramático o justificaria. O já por duas vezes falado casal português dança, mas a cena não dura mais do que alguns minutos. Não há, como no comum das danças dramáticas, certos intermezzos para danças ou sapateados.

No tocante à música, as melodias que ouvimos foram todas tradicionais, por via de regra de caráter religioso, pois esses cantos têm sempre uma acentuada influência de igreja. Havia, naturalmente, processos de aculturação, como melodias de operetas e mesmo uma de samba, que conseguiram se adaptar ao clima musical do folguedo.

O que mais nos impressionou foi a qualidade do canto. Por via de regra o povo canta nasalizado e estridente. Aquela gente não. Em registro médio, entoavam com muita doçura as toadas e encontramos, em homens e mulheres, vozes muito agradáveis. Como disse, ouvimos a valsa da Viúva alegre adaptada a um dos cantos e a um outro a seguinte melodia por igual ternário, da Princesa dos dólares:

Coro

Ó que noite ditosa
Que noite d’alegria...
A que nasce na manjedoura
Jesus filho de Maria

Solo

Eu sou a noite ditosa
Que venho lá do oriente
Saudar José e Maria
E adorar o onipotente.

Também o samba Jura, de Sinhô, foi aproveitado habilmente na cantiga Chuva e é curioso que tenha sido a única achega que o samba forneceu.

A música é melódica por excelência, em andamento moderado, em geral binária. O ritmo não oferece maior interesse. O movimento de marcha de muitos cantos faz com que os comparsas cantem sempre com uma oscilação do corpo.

Os instrumentos acompanhantes eram dois violões, um cavaquinho, um pistom, dois pandeiros e uma caixa.

Observou-me Cleofe Person de Matos, que registrou as melodias aqui citadas, a interferência de uma segunda voz, cantada por uma ou duas pessoas (homens), que vinha às vezes como intervenção na parte oral entre duas frases, e outras como um contraponto que se superpunha à melodia popular. O efeito obtido era deveras interessante.

Os exemplos a seguir dos cantos da Queima das Lapinhas, a última cena da representação (as cenas se chamam jornadas), mostram bem o caráter geral da música das pastorinhas, na sua ingênua vivacidade e em todo seu encanto. As origens lusas são claras e evidentes. O primeiro canto citado, com seu caráter lastimoso, é quando vão queimar as lapinhas e o seguinte, quando estão sendo queimadas.

I

Queimamos, queimamos
A nossa lapinha
Com cravos e rosas
Cheiroso jasmim

II

A nossa jornada está terminada,
A nossa jornada está terminada
Está terminada, a nossa jornada
Está terminada,

Para o Deus menino
Vocês não são nada,
Para o Deus menino
Vocês não são nada.

Pastorinha, pastorinha
Da lapinha de Belém
Pastorinha, pastorinha
Da lapinha de Belém

Adeus ó (*)
Adeus que eu me vou,
A deus ó (*)
Adeus que eu me vou,

Até para o ano,
Se viva eu for
Até para o ano,
Se eu viva for

(*) Aqui entra nome
do personagem que é despedido: samaritana. profeta etc.


(Almeida, Renato. "As pastorinhas de São João, da Tijuca". Comunicação à Comissão Nacional do Folclore do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura)

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