Janeiro
2002
Ano IV - nº 41 |
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São Gonçalo de Amarante é santo de
grande prestígio no hagiológio popular, por ser o protetor dos amores difíceis.
O povo é caprichoso e irreverente, talha tudo a seu bel-prazer.
O moço dominicano, nascido da nobre família dos Pereiras, do termo de Guimarães,
Portugal, depois de professar e visitar Roma e Jerusalém, dedicou-se a vida de pregador,
e a lenda e a fantasia popular transformaram-no em "casamenteiro dos velhos".
Realmente, Gonçalo de Amarante foi um grande construtor. A ele se deve a vetusta ponte de
Amarante e a linda capela, de 1250, reconstruída sobre um penhasco, a cavaleiro do rio
Tâmega, sob a invocação de Nossa Senhora.
Morreu em meados do século XIII e, por intercessão del-rei dom Sebastião, foi
canonizado pelo papa Pio IV.
O culto, entregue ao povo, permitiu a criação de pitorescas lendas, que lhe atribuíam
poderosa intervenção nos amores e casamentos de velhos, girando o tema primacial das
cantigas, doces, etc., da festa portuguesa, sempre sobre motivos fálicos.
Tendo alcançado grande popularidade em Portugal, para aqui chegou através do misticismo
dos colonizadores lusos.
Mas a fé em São Gonçalo teve maior repercussão na zona sertaneja. Muito comum é esse
culto festivo no interior do Brasil, notadamente em São Paulo, onde é "dança de
São Gonçalo", no Paraná, onde se chama "sarabanda de São Gonçalo", e
no Rio de Janeiro, onde tem o nome de "festa de São Gonçalo".
É geralmente uma reunião rural, observada em Jacarepaguá, Pavuna, Irajá. É uma festa
um tanto mística e bastante profana, de canto, dança e oferendas.
A festa de São Gonçalo, realizada, certa ocasião, em Jacarepaguá, revestiu-se de um
primarismo tocante.
Muitos convidados, gente de longe, violeiros e pandeiristas, mulheres e homens de todas as
idades.
Na salinha exígua, num altar modesto, está entronizada, entre panos, rendas, bordados
grosseiros e flores de papel fino de vivo colorido, uma imagem antiqüíssima, de uns 25
centímetros, talvez, de São Gonçalo de Amarante.
Os fiéis colocam-se em fila indiana, as mulheres à direita dos homens. Os assistentes,
ao fundo, ou encostados às paredes laterais.
Em dado momento, a música dá o sinal de início e os fiéis começam a cantar uma
ladainha pitoresca, tirada pelos donos da casa, mestiços, "dona Dargisa" e
"seu Nacleto", que são também os mestres da dança.
Num latim maltratado, cada um vai desincumbindo da sua missão o melhor possível.
Entre outras coisas, há uma "fidelis arca", uma "torre de
elefante" que é "torre de marfim", um "sal nos infernorus"
e outras frases engraçadíssimas.
Rezam com profunda fé e respeito.
Acabada a ladainha, é distribuída, em copos, uma "batida fraquinha".
Depois formam novamente as filas e começam a cantar, trocando os pares em diagonal,
entrecruzando-se diante do altarzinho, em reverência quase ridícula.
Novamente cantam, já agora uma espécie de "louvação":
São Gonçalo milagroso
Que veio de Portugal,
Ajudai-me a vencer
Essa batalha real.
São Gonçalo pequenino
Realmente em seu altar,
Seus poderes são tão grandes,
Que faz as moças casar.
E nesse teor vão cantando, até que terminam assim:
Hei de fazer um barquinho
Da raiz do araçá,
Para levar São Gonçalo
Do jardim pra o seu "altá".
Nova interrupção nas danças e cantos. Um calor tremendo provoca suores, que torna
luzidos os rostos e enche o ambiente de um odor insuportável. Para refrescar, mais
"batida" e novamente danças e cantos do "peditoro".
Meu bondoso São Gonçalo,
Em vós ponho toda fé,
Tenho roça, tenho casa.
Só ,e falta uma muié.
O solista é um homem em plena maturidade, retacado e forte, de par com uma cabrocha
gorda, de cabelos grisalhos, tipo de "senhora-dona", muito animada, que, tomando
o canto, súplice, pediu:
São Gonçalo de Amarante,
Vem a mim, meu São Gonçalo,
Se ele está muito distante,
São Jorge empresta o cavalo...
Esse "distante" queria, com certeza, referir-se a muito difícil, por qualquer
motivo, tanto que ela lembrava o auxílio do cavalo de São Jorge. Mas o calor da
"batida" (cachaça, limão e pimenta do reino) atiça a labareda do entusiasmo,
e já começam a aparecer quadras como estas:
Se São Gonçalo soubesse
O grande poder que tem,
Fazendo casar as velhas,
Casava as moças também.
A coreografia continua, o entrecruzamento prossegue, e cada componente da fila vai fazendo
seu pedido, até chegar ao último.
Um homem já velhusco e desajeitado comunicou:
Fui pedir a São Gonçalo
Que me fizesse "casá",
Dez noivas me "pareceram",
Nove delas fiz "vortá".
Logo a seguir, uma velhinha, que mais parecia uma bruxa dessas dos contos da Carochinha,
muito esganiçada, encerrou o peditório:
São Gonçalo milagroso,
Casamenteiro das moças,
Por que não casais as "véia",
Que querem casar por força?
Terminara a festa mística, ia começar a profana, - o baile no "coreto", um
quadrado cercado de bambus, armado no terreiro, onde os pares dançaram, até o sol
nascer, as marcas mais conhecidas.
Assim se propaga e firma uma tradição, que não pertence exclusivamente a determinada
zona. Embora as populações das grandes cidades tenham um nível cultural superior às
das pequenas localidades, nem por isso o progresso exclui a tradição que o povo
transmite de geração a geração.
[1956]
(Lira, Mariza; Calendário folclórico do Distrito Federal, 10 de
janeiro) |
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